Shoot To Thrill - A história antecipada de um linchamento moral
Sim, o nosso Dunga sustenta suas convicções baseado nos resultados incontestáveis obtidos ao longo de quatro anos. Conquista da Copa América com um time B que goleou o time A da Argentina. Conquista da Copa das Confederações de forma aguerrida, tendo humilhado a Itália e sem ter precisado enfrentar a patética Espanha – que foi banida pelos Estados Unidos, veja só. Liderança tranqüila e folgada nas Eliminatórias, com resultados bem expressivos, como goleada histórica no Uruguai no Centenário e vitória inapelável sobre a Argentina em Rosário. Para não dizerem que só jogamos com bambalas, o Brasil também abotoou Itália, Portugal, Argentina (de novo) e Inglaterra em amistosos.
Os resultados vitoriosos, claro, serviram para esconder partidas grotescas, como os empates contra Bolívia e Colômbia em casa pelas eliminatórias, o empate contra o Equador (na melhor atuação da vida de Júlio César) em Quito e uma derrota ridícula para a Venezuela em amistosos. E, mais do que isso, serviram para firmar um monte de volantes ou meias sem habilidade no time, calcados nos resultados vitoriosos da equipe – sim, no saldo, o time do Dunga é muito mais vitorioso do que se imagina.
Eu absolvo o Dunga de boa parte das críticas. Assim como absolvia o Telê, o Felipão, o Parreira, o Zagallo, o Luxemburgo, o Carlos Alberto Silva (Lazaroni e Falcão não!!!). Porque eu sei, e isso me parece óbvio, que as reclamações ferozes, por mais bem argumentadas que possam parecer, são muito mais por uma indignação por não termos hoje condição alguma de ver um time jogar bonito e ganhar do que por realmente ver defeitos grotescos na forma de trabalho do treinador.
Vejo opiniões da crítica especializada e de amigos meus cujos pensamentos respeito muito destruírem o Dunga por motivos opostos. “Será um absurdo se o Dunga convocar o Adriano e o Kleberson”, me diziam dois amigões há alguns dias. Nesta semana, por exemplo, outro amigo mandou essa, cheio de convicção: “Achei um absurdo ele não convocar o Adriano. Ele está jogando para caralho. Não tem sentido o Dunga não levá-lo para a Copa. É um erro imperdoável”. Reclamaram a todos os cantos que em 2006 as estrelas foram à Alemanha fora de forma, descompromissadas e nada jogaram. Um a um, todos foram sendo banidos da Seleção. Roberto Carlos e Ronaldo sequer foram convocados por Dunga. No geral, pouca gente reclama da ausência deles na lista que vai à África do Sul - apesar de que na lista de alguns cronistas para 2010 aparecia o nome deste cidadão que auta na lateral-esquerda do Corinthians. "Experiência é importante", disseram. Bah!
Ronaldinho Gaúcho? Jogou em 2006. Em 2007. Em 2008. Em 2009. E foi execrado pela crítica, que acabou também com Dunga quando este teve de convocar o já decadente ex-jogador do Barcelona para a Olimpíada de Pequim e, de novo, nada fez em campo. Bastou deixar de ser convocado (sua última partida pela Seleção foi no começo do ano passado) e fazer uma meia dúzia de gols pelo Milan – boa fase esta que, ressalte-se, durou não mais que um mês e meio – para já acharem absurdo sua não-convocação. Adriano? Nem preciso comentar, ne?
Outros supostamente talentosos que nem foram ao Mundial também são vistos por um como salvação da lavoura. “É um absurdo ele convocar o Julio Baptista e deixar o Diego de fora”, diz um amigo meu, revoltado. Outro emenda: “Diego? Só pode estar de brincadeira. Diego é jogador de clube. O Dunga tinha mesmo é que dar nova chance ao Alex que jogou no Palmeiras”. Um outro conviva condenou veementemente Dunga por não ter chamado Denílson do Arsenal. Ou ter dado poucas chances a Lucas. Mas pergunto: quem são eles no jogo do bicho?
Todos têm o direito de pensar diferente. De ver as coisas da maneira que melhor lhes convir. Mas o que estou dizendo é que, justamente por essa oscilação de opiniões (todas elas detratoras), não levo a sério essa destruição moral que estão fazendo e farão até o fim com o nosso simpático anão.
Caso perca nas quartas ou nas semis, o que acho o cenário mais provável hoje, mesmo jogando barbaridade, Dunga também será execrado. A vontade de escrotizar com ele é enorme. Alguns chegam até mesmo a derrapar e transparecer uma torcida aberta para que o time perca, exclusivamente para manter suas convicções. Se o Dunga perder na segunda fase, como já aconteceu com tanta gente, cara, eu tenho realmente pena dele. De verdade. O discurso já está pronto: “Dunga feriu a honra do futebol brasileiro que, mais do que a obrigação de vencer, tem que vencer e dar espetáculo. Ao preterir os talentos (NR: me diga que "talentos extraordinários" foram preteridos?) em favor dos seus homens disciplinados, Dunga mostrou o quão despreparado estava para enfrentar uma competição cheia de imprevistos e improvisos como a Copa”. Vai ser algo assim. Daí para baixo. Porque o moral de Carlos Caetano Bledorn Verri será ridicularizado anos a fio. Não gosto de jogar feio. Não gosto de assistir jogo feio. Nem vou entrar nessa discussãozinha sem fim entre os losers de 1982 e os craques de 1994. Se o Brasil tiver pagando vexa, vou ficar com raiva, claro. Vou xingar o Dunga e a última geração do Felipe Mello como xinguei muito nos jogos contra a Bolívia e a Colômbia. Mas tenho a consciência tranqüila de que o cara teve todos os motivos e respaldos para chamar quem ele chamou. E para jogar do jeito que ele for jogar. Ele tem meu respeito e, sobretudo, minha torcida.
Sorte, Dunga. Você vai precisar e muita. Tanto na África do Sul como principalmente na hora da volta.
PS: Texto também pubilcado, com pequenas adaptações, em nosso outro site, sobre futebol, o "Com Bola E Tudo"










