Vai acabar mais ou menos daqui a um mês. Mais especificamente no dia 23 de maio. É nesta data que terá fim o seriado mais cultuado do século XXI. Ao contrário de outras séries de TV que terminam invariavelmente por fuga de atores para outros projetos, baixa audiência ou perda total de rumo nos roteiros, Lost chegará ao fim da linha – já definido e decretado há pelo menos quatro anos – para sair das nossas vidas cotidianas e cravar seu nome de forma definitiva como um dos maiores – senão o maior – ícone da cultura pop dos anos 2000.
Vai entrar pro time de Star Wars. Michael Jackson. Fermento Royal. Aveia Quacker. Mario Bros. Chaves. Elvis Presley. Chocolate Nestlé. Marilyn Monroe. Revista Mad. Che Guevara.E por aí vai.
Revolucionário, ousado, instigante, diferente, realista, humano, emotivo, imprevisível, inteligente. Escolha o (s) adjetivo (s) ao seu bel prazer. Qualquer um deles não será suficiente para descrever de forma precisa este seriado que tanto mexe com as vidas e pensamentos de quem acompanha a série há algum tempo.
Lost é diferente de tudo o que já foi feito, escrito e roteirizado na televisão mundial. A começar pelas inovações na narrativa. A idéia, utilizada em boa parte dos episódios da série, de centralizar cada história em um personagem específico não seria por si só uma grande novidade. Tampouco seriam isoladamente os flashbacks (NR.: narração de cenas do passado dos personagens, num tempo anterior ao fato principal que dá início à série,que é um avião caindo numa ilha deserta e a luta dos que não morreram pela sobrevivência num lugar bem esquisito), fundamentais para compreendermos a natureza de cada um deles.
Mais do que os isso tudo junto, no entanto, foram os flashforwards, que passaram a mostrar a vida dos personagens no futuro próximo, é que deram outra guinada na história. Para quem pensava que a antecipação dos fatos estragaria a surpresa, nada a ver. Lost é muito mais sobre “quem”, “quando”, e, sobretudo, “como”, do que sobre “o quê”.
Na sexta e derradeira temporada, os caras ainda inventaram os flash sideways, que são narrações de situações paralelas que hipoteticamente estão acontecendo com os mesmos personagens supondo que o avião lá nunca tenha caído na ilha. Mesmo sem estar claro o real propósito ou significado desta linha do tempo, à medida em que os episódios vão passando, as especulações e teorias crescem em progressão geométrica.
A história é de tal complexidade (ou viagem nem sempre bem sucedida da mente dos caras, por que não?) que Lost tornou-se impossível de ser experimentada em todos os seus detalhes apenas assistindo aos episódios na TV, no DVD ou no computador. Pequenas cenas complementares foram veiculadas em mini-episódios enviados pelos celulares. Vídeos com gravações de apoio (sobre o título da Iniciativa Dharma, uma espécie de organização científica que chegou à ilha em meados da década de 1970 para estudar suas propriedades únicas) circularam pela internet. Documentários contidos nos DVDs como se tivessem sido produzidos dentro daquela própria realidade contêm visões diferentes sobre o universo Lost. Há até mesmo uma enciclopédia (Lostpedia) sobre o seriado com uma vasta base de informações de apoio.
Toda essa interação blog-podcast-eventos-entrevistas-sites-webisodes-videos faz parte da mística da série. Não é um seriado de comédia cotidiana como Friends ou Dois Homens e Meio, em que você vê, racha de rir (ou não) e pronto. O fim do episódio – que as pessoas baixam, com legendas em tudo quanto é idioma, menos de duas horas depois que o original é exibido nos Estados Unidos – é só o começo de uma semana inteira em busca de referências e detalhes que você perdeu ou não sacou na hora. E tentativas, a maioria frustradas, de entender e ligar as coisas vistas ali.
A leitura complementar é primordial para sacar que o livro citado por fulano trata de livre arbítrio e predestinação, por exemplo. Ou que o navio que aparece no quadro da parede de um escritório num cenário do futuro é o mesmo cujos destroços estão encalhados na ilha há mais de um século. Os diálogos também deixam muita coisa no ar, com referências a escritores como Dostoievski, Stephen King e outros tantos.
Por mais sagaz que o sujeito seja, não tem jeito. Sempre passa alguma coisa. Aliás, muitas. Tantas que mesmo os mais atentos se dão conta de que poderiam estar entendendo tudo errado quando lêem alguma explicação diferente sobre o que acabaram de ver na história.
Quando dão as caras em conferências sobre indústria audiovisual nos Estados Unidos, os produtores Damon Lindelhof e Carlton Cuse são bombardeados de questões cujas respostas apenas levantam outras questões. Suas entrevistas ganham o mundo em questão de segundos.
Sites e blogs sobre o seriado, como os excelentes Dude, we are lost! e o americano Dark Ufo recebem toneladas e toneladas de emails, perguntas, elogios e comentários minutos após a exibição de cada episódio.
Podcasts e sobretudo as postagens “estraga-surpresa” (os chamados spoilers) são outros elementos intrínsecos a quem acompanha a história. A curiosidade e o fascínio das pessoas chega a tal ponto que vira e mexe aparecem fotos (enviadas por celular, iphone, câmeras) de bastidores das gravações (sempre feitas no Havaí), com relatos de gente que estava na locação e passou alguma dica do que se tratava aquela situação. Colunistas de revistas e jornais especializados especulam sobre os rumos e próximos capítulos.
Lost é um marco também porque consegue ser tocante e realista ao extremo mesmo mostrando ursos polares em ilha tropical, monstros de fumaça, viagens no tempo, homem que não envelhece nunca, reencarnação. Lost tem as manhas de incomodar e emocionar quem o assiste (não recomendo para mulheres em estágio emocional fragilizado).
Todos os personagens – sem exceção – em algum momento fazem maldades ou idiotices que te deixam com ódio mortal do sujeito. E ao mesmo tempo são capazes de morrerem pelos outros que estão ali, dependendo da situação. Todos têm uma ficha corrida passível de críticas por qualquer um de bom senso (homicídios culposos, dolosos, envolvimento em acidentes trágicos, crimes conjugais, torturas, espancamentos, desemprego, loucuras, internações, alcoolismo, drogas, abandono de filho, rejeição paterna e materna) em seu passado. Mas todos também têm histórias bacanas de superação, cooperação, realização profissional e acadêmica, criação, desintoxicação, amor, perdão e outros sentimentos inerentes ao ser humano.
Lost não é clichê. Não existem redenções de personagens, a exemplo do ocorre em novelas e filmes, onde o sujeito é mal o tempo todo e depois que se redime, passa a fazer somente o bem – ou o contrário também, como ocorre muito no finado 24 Horas. A exemplo do que se passa com todos nós, os caras da ilha (e de fora dela) alternam seus vacilos e acertos em maior ou menor grau o tempo todo. De 2004 até hoje. E isso torna tudo imprevisível.
Na minha humilde análise, essa aproximação quase palpável com a realidade em que vivemos é o que deixa o seriado fascinante. Até mesmo os improváveis encontros e cruzamentos de personagens (para quem não sabe, uma das espinhas dorsais de Lost são os personagens secundários – ou mesmo os primários – cujas histórias se cruzam rapidamente, em flashes, umas com as outras, mundo afora) não soam tão absurdos quando conversamos com nossos conhecidos sobre encontros inusitados.
Assim como em nosso mundo real, onde muitas coisas não têm explicação, Lost também passou, desde o primeiro episódio, a plantar dúvidas corrosivas sobre os “por quês” disso ou daquilo ter acontecido. Coisas que, em outros seriados e filmes, seriam cedo ou tarde explicadas. Mas em Lost não. Ali as dúvidas e vácuos só aumentam com o passar do tempo. E agonizam e tiram o sono de vários fãs porque, seis temporadas depois, continuam sem resposta. E, segundo os produtores, vão continuar sem. Eles falam abertamente que não gostam de dar explicação do tipo Scooby Doo.
Arriscado? Não. Inteligente, sim. Como pouca coisa – quase nada, na verdade – é explícita e vários elementos são lançados no ar sem nenhuma conexão obrigatória com a situação, as teorias sobre o que se passa, o que é a ilha, o que acontece e como acontece (e às vezes “quando” acontece) mudam a cada sete dias. Para piorar (ou melhorar), há elementos mitológicos, históricos e filosóficos na trama. Nem mesmo os próprios atores sabem o que acontecerá nas situações que estão encenando, pois só recebem partes do roteiro momentos antes das gravações.
Respeito muito quem não viu e não tem vontade de ver (mas pelo menos não venha falar mal, já que não viu). E mais ainda quem viu e não gostou (apesar de a história de Lost não permitir que os episódios sejam vistos e compreendidos de forma isolada). Não sou nem nunca fui viciado em séries de TV. Lost caiu no meu colo há pouco mais de três, anos, como presente de Natal de uma amiga querida. Não gosto de babação de ovo incondicional nem de tietagem sobre nada. Mas a inteligência desta série que está a poucos dias de entrar de vez para a história da cultura popular me fazem tirar o chapéu para seus criadores e produtores. Mesmo que o final não seja o que eu espero ou algo sem nenhum furo de continuidade. Debates e teorias, bem ou mal argumentadas, continuarão por anos a fio sendo levantadas por fãs atuais e futuros. Eu entre eles.