quarta-feira, 28 de abril de 2010

O que restou de Firmino? Nada.

Firmino era um sujeito caipira, praticamente chucro. Trabalhava como peão em uma fazenda. Ajudava na lida com o gado, dava ração pras galinhas, limpava o chiqueiro. A propriedade fica em uma vila que não me lembro de jeito nenhum o nome, mas a localização é simples: atrás do Posto Presidente, pertinho de Anápolis.

O peão era bem conhecido na pequena vila, como de resto são todos que lá moram. É sempre assim. Todo mundo sabe da vida de todo mundo. Naqueles tempos, um dos temas recorrentes nos quatros botecos da cidade – com chão de cimento batido, paredes por pintar e sinuquinha a R$ 0,50 a ficha – era a tristeza de Firmino naqueles dias.

Depois de dar umas boas bofetadas na esposa, fruto da contumaz bebedeira pós-serviço, Firmino viu Dulcimara abandonar o barraco. A doméstica foi morar com os pais, em Catalão, e levou consigo os seis filhos do casal: Geovane, Genésio, Gislane, Gisela, Gian e Givanildo. Firmino estava desolado. O álcool começou a ser mais freqüente e o seu Francisco, dono da fazenda, o demitiu havia dois dias.

Para piorar, o Flamengo, time do coração de Firmino, estava prestes a cair para a segunda divisão. Era um desastre. Uma conspiração interplanetária havia acabado com a vida de Firmino em uma semana.

Desiludido, desesperado, Firmino procurou apoio na Casa da Dona Flora, uma velha puta da região. Suas meninas, sempre com idade entre 15 e 19 anos, eram famosas entre peões e fazendeiros do Goiás. A mão-de-obra goiana para este tipo de trabalho é farta e da alta qualidade, dizem. Numa noite de bebedeira, Firmino procurou a luz vermelha.

Sem dinheiro para uma foda, pagou R$ 12,50 por um boquete. O bola-gato, na verdade, saía por R$ 15, preço tabelado. Mas como Firmino não tinha nada além da dúzia de Reais e o movimento no dia estava fraco, fez-se um desconto. Na chupação, oferecida no quartinho mais acanhado da casa, Firmino não conseguiu ver seu pau levantar.

Sim, a bebida e os problemas o fizeram broxar ali mesmo, à frente de Ritinha, uma putinha novata de apenas 16 anos, nascida em Inhumas. O resultado: quatro bofetadas em Ritinha (“aquela disgramada que nem conseguiu levantar meu pau”) e uma expulsão aos pontapés do local.

A humilhação fez com que Firmino, peão desempregado e alcoólatra, tomasse uma decisão. Se mataria no dia seguinte. Foi dormir embriagado e acordou relativamente disposto. Passou na vendinha do seu Amparo e lhe pediu um vidro de cicuta, o mesmo veneno que matou Sócrates, em 399 a.C. Estava em falta. Uma praga de ratos na região ampliara a procura pelo produto. Na frente dos demais clientes, Firmino esbravejou:

- Diacho. Nem quando quero me matá Deus facilita as coisa pra mim, sô!

E saiu enfezado da vendinha, sob o olhar dos curiosos. Horas depois, a notícia corria a cidade: Firmino conseguira a cicuta. Bebera todo o vidro e morrera envenenado, sozinho, dentro do paiol da fazenda de onde foi demitido. Foi enterrado sem qualquer cerimônia ou homenagens no jazigo número 3.134 do Cemitério Parque, na avenida Pedro L. Teixeira, nº 42, bairro Vila Mariana, Anápolis.

O que restou da vida de Firmino? Os seis filhos e a folclórica frase disparada na vendinha do seu Amparo. Nada mais.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Todo mundo tá revendo o que nunca foi visto

Vai acabar mais ou menos daqui a um mês. Mais especificamente no dia 23 de maio. É nesta data que terá fim o seriado mais cultuado do século XXI. Ao contrário de outras séries de TV que terminam invariavelmente por fuga de atores para outros projetos, baixa audiência ou perda total de rumo nos roteiros, Lost chegará ao fim da linha – já definido e decretado há pelo menos quatro anos – para sair das nossas vidas cotidianas e cravar seu nome de forma definitiva como um dos maiores – senão o maior – ícone da cultura pop dos anos 2000.

Vai entrar pro time de Star Wars. Michael Jackson. Fermento Royal. Aveia Quacker. Mario Bros. Chaves. Elvis Presley. Chocolate Nestlé. Marilyn Monroe. Revista Mad. Che Guevara.E por aí vai.

Revolucionário, ousado, instigante, diferente, realista, humano, emotivo, imprevisível, inteligente. Escolha o (s) adjetivo (s) ao seu bel prazer. Qualquer um deles não será suficiente para descrever de forma precisa este seriado que tanto mexe com as vidas e pensamentos de quem acompanha a série há algum tempo.

Lost é diferente de tudo o que já foi feito, escrito e roteirizado na televisão mundial. A começar pelas inovações na narrativa. A idéia, utilizada em boa parte dos episódios da série, de centralizar cada história em um personagem específico não seria por si só uma grande novidade. Tampouco seriam isoladamente os flashbacks (NR.: narração de cenas do passado dos personagens, num tempo anterior ao fato principal que dá início à série,que é um avião caindo numa ilha deserta e a luta dos que não morreram pela sobrevivência num lugar bem esquisito), fundamentais para compreendermos a natureza de cada um deles.

Mais do que os isso tudo junto, no entanto, foram os flashforwards, que passaram a mostrar a vida dos personagens no futuro próximo, é que deram outra guinada na história. Para quem pensava que a antecipação dos fatos estragaria a surpresa, nada a ver. Lost é muito mais sobre “quem”, “quando”, e, sobretudo, “como”, do que sobre “o quê”.

Na sexta e derradeira temporada, os caras ainda inventaram os flash sideways, que são narrações de situações paralelas que hipoteticamente estão acontecendo com os mesmos personagens supondo que o avião lá nunca tenha caído na ilha. Mesmo sem estar claro o real propósito ou significado desta linha do tempo, à medida em que os episódios vão passando, as especulações e teorias crescem em progressão geométrica.

A história é de tal complexidade (ou viagem nem sempre bem sucedida da mente dos caras, por que não?) que Lost tornou-se impossível de ser experimentada em todos os seus detalhes apenas assistindo aos episódios na TV, no DVD ou no computador. Pequenas cenas complementares foram veiculadas em mini-episódios enviados pelos celulares. Vídeos com gravações de apoio (sobre o título da Iniciativa Dharma, uma espécie de organização científica que chegou à ilha em meados da década de 1970 para estudar suas propriedades únicas) circularam pela internet. Documentários contidos nos DVDs como se tivessem sido produzidos dentro daquela própria realidade contêm visões diferentes sobre o universo Lost. Há até mesmo uma enciclopédia (Lostpedia) sobre o seriado com uma vasta base de informações de apoio.

Toda essa interação blog-podcast-eventos-entrevistas-sites-webisodes-videos faz parte da mística da série. Não é um seriado de comédia cotidiana como Friends ou Dois Homens e Meio, em que você vê, racha de rir (ou não) e pronto. O fim do episódio – que as pessoas baixam, com legendas em tudo quanto é idioma, menos de duas horas depois que o original é exibido nos Estados Unidos – é só o começo de uma semana inteira em busca de referências e detalhes que você perdeu ou não sacou na hora. E tentativas, a maioria frustradas, de entender e ligar as coisas vistas ali.

A leitura complementar é primordial para sacar que o livro citado por fulano trata de livre arbítrio e predestinação, por exemplo. Ou que o navio que aparece no quadro da parede de um escritório num cenário do futuro é o mesmo cujos destroços estão encalhados na ilha há mais de um século. Os diálogos também deixam muita coisa no ar, com referências a escritores como Dostoievski, Stephen King e outros tantos.

Por mais sagaz que o sujeito seja, não tem jeito. Sempre passa alguma coisa. Aliás, muitas. Tantas que mesmo os mais atentos se dão conta de que poderiam estar entendendo tudo errado quando lêem alguma explicação diferente sobre o que acabaram de ver na história.

Quando dão as caras em conferências sobre indústria audiovisual nos Estados Unidos, os produtores Damon Lindelhof e Carlton Cuse são bombardeados de questões cujas respostas apenas levantam outras questões. Suas entrevistas ganham o mundo em questão de segundos.
Sites e blogs sobre o seriado, como os excelentes Dude, we are lost! e o americano Dark Ufo recebem toneladas e toneladas de emails, perguntas, elogios e comentários minutos após a exibição de cada episódio.

Podcasts e sobretudo as postagens “estraga-surpresa” (os chamados spoilers) são outros elementos intrínsecos a quem acompanha a história. A curiosidade e o fascínio das pessoas chega a tal ponto que vira e mexe aparecem fotos (enviadas por celular, iphone, câmeras) de bastidores das gravações (sempre feitas no Havaí), com relatos de gente que estava na locação e passou alguma dica do que se tratava aquela situação. Colunistas de revistas e jornais especializados especulam sobre os rumos e próximos capítulos.

Lost é um marco também porque consegue ser tocante e realista ao extremo mesmo mostrando ursos polares em ilha tropical, monstros de fumaça, viagens no tempo, homem que não envelhece nunca, reencarnação. Lost tem as manhas de incomodar e emocionar quem o assiste (não recomendo para mulheres em estágio emocional fragilizado).

Todos os personagens – sem exceção – em algum momento fazem maldades ou idiotices que te deixam com ódio mortal do sujeito. E ao mesmo tempo são capazes de morrerem pelos outros que estão ali, dependendo da situação. Todos têm uma ficha corrida passível de críticas por qualquer um de bom senso (homicídios culposos, dolosos, envolvimento em acidentes trágicos, crimes conjugais, torturas, espancamentos, desemprego, loucuras, internações, alcoolismo, drogas, abandono de filho, rejeição paterna e materna) em seu passado. Mas todos também têm histórias bacanas de superação, cooperação, realização profissional e acadêmica, criação, desintoxicação, amor, perdão e outros sentimentos inerentes ao ser humano.

Lost não é clichê. Não existem redenções de personagens, a exemplo do ocorre em novelas e filmes, onde o sujeito é mal o tempo todo e depois que se redime, passa a fazer somente o bem – ou o contrário também, como ocorre muito no finado 24 Horas. A exemplo do que se passa com todos nós, os caras da ilha (e de fora dela) alternam seus vacilos e acertos em maior ou menor grau o tempo todo. De 2004 até hoje. E isso torna tudo imprevisível.

Na minha humilde análise, essa aproximação quase palpável com a realidade em que vivemos é o que deixa o seriado fascinante. Até mesmo os improváveis encontros e cruzamentos de personagens (para quem não sabe, uma das espinhas dorsais de Lost são os personagens secundários – ou mesmo os primários – cujas histórias se cruzam rapidamente, em flashes, umas com as outras, mundo afora) não soam tão absurdos quando conversamos com nossos conhecidos sobre encontros inusitados.

Assim como em nosso mundo real, onde muitas coisas não têm explicação, Lost também passou, desde o primeiro episódio, a plantar dúvidas corrosivas sobre os “por quês” disso ou daquilo ter acontecido. Coisas que, em outros seriados e filmes, seriam cedo ou tarde explicadas. Mas em Lost não. Ali as dúvidas e vácuos só aumentam com o passar do tempo. E agonizam e tiram o sono de vários fãs porque, seis temporadas depois, continuam sem resposta. E, segundo os produtores, vão continuar sem. Eles falam abertamente que não gostam de dar explicação do tipo Scooby Doo.

Arriscado? Não. Inteligente, sim. Como pouca coisa – quase nada, na verdade – é explícita e vários elementos são lançados no ar sem nenhuma conexão obrigatória com a situação, as teorias sobre o que se passa, o que é a ilha, o que acontece e como acontece (e às vezes “quando” acontece) mudam a cada sete dias. Para piorar (ou melhorar), há elementos mitológicos, históricos e filosóficos na trama. Nem mesmo os próprios atores sabem o que acontecerá nas situações que estão encenando, pois só recebem partes do roteiro momentos antes das gravações.

Respeito muito quem não viu e não tem vontade de ver (mas pelo menos não venha falar mal, já que não viu). E mais ainda quem viu e não gostou (apesar de a história de Lost não permitir que os episódios sejam vistos e compreendidos de forma isolada). Não sou nem nunca fui viciado em séries de TV. Lost caiu no meu colo há pouco mais de três, anos, como presente de Natal de uma amiga querida. Não gosto de babação de ovo incondicional nem de tietagem sobre nada. Mas a inteligência desta série que está a poucos dias de entrar de vez para a história da cultura popular me fazem tirar o chapéu para seus criadores e produtores. Mesmo que o final não seja o que eu espero ou algo sem nenhum furo de continuidade. Debates e teorias, bem ou mal argumentadas, continuarão por anos a fio sendo levantadas por fãs atuais e futuros. Eu entre eles.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O processo de criação de um gênio

Acontece assim: pela manhã, no dia de um texto novo, um de nós manda um e-mail aos demais. “E aí, alguém tem algo pra publicar hoje?” Trabalhadores árduos, sempre ocupados, respondemos quase sempre da mesma forma. “Foda. Tô fodido no trabalho. Mas quando chegar em casa vou tentar escrever algo. Tô com algumas idéias na cabeça.” Raramente alguém diz que tem “um texto pronto e vou publicar à noite”. As idéias existem. Rascunhos também. Mas texto pronto, mesmo, só na hora de publicar.

Tem dia, como hoje, em que a preguiça toma conta de mim e eu não quero escrever as pautas previamente separadas. Comigo, funciona assim: tenho idéias para posts do blog a qualquer momento do dia ou da noite. De repente, vem um instalo (como eu costumava dizer quando molequinho) e penso: “Porra, isso dá um post”. Entro no Gmail, vou em “procurar” e digito: “pauta blog”. Vem um e-mail que eu reenvio a mim mesmo sempre que atualizado. Insiro a nova idéia e clico em enviar (pra mim mesmo). No dia de escrever, olho a listinha e seleciono alguma coisa.

Mas hoje deu preguiça. E quando dá preguiça das pautas, sigo um ritual para escrever um post. Ligo a televisão. Sento-me na minha poltrona vermelha (para visualizá-la, basta clicar aqui). Abro o laptop. Clico no Word. Por vários minutos, vejo televisão enquanto o cursor do Word pisca em uma página em branco. Às vezes, dou uma olhada pra tela do computador. Finjo que não é comigo. Assisto aos programas meio que pensando em alguma coisa mirabolante para o blog.

Tenho uma idéia e a “vomito” em 20, 30 minutos, aproximadamente. Faço uma ou outra pesquisa no Google para confirmar uma informação ou algo do tipo. Confiro a forma correta de se escrever uma palavra mais chatinha – normalmente no Google, no Michaellis online ou no site da Academia Brasileira de Letra. Às vezes, procuro também por alguns sinônimos, para evitar que o caro leitor leia a mesma palavra repetidas vezes dentro do mesmo parágrafo – algo sempre meio chato.

Terminado o texto, vou atrás de fotos. Dábliu, dábliu, dábliu, ponto, gettyimages, ponto, com. Coloco algo que lembre o tema. Pego uma ou duas fotos. Salvo-as no desktop do computador para facilitar a publicação.

Em seguida, entro no site do Blogger, digito meu e-mail – thiago.vitale@gmail.com – e minha senha – *********. Abro o texto novo e colo os parágrafos daquele que acabo de criar.

Começo, então, a colorir os trechos dos parágrafos – destaco as partes mais importantes ou aquelas que ficam mais bonitas esteticamente. Não há regra. Vejo na hora, intuitivamente. É neste momento, normalmente já pela madrugada, que reviso mal e porcamente o meu texto – daí a explicação para alguns erros (im)perdoáveis que, mais vezes do que eu gostaria, escapam.

Uma vez colorido o texto, incluo as fotos, à direita ou à esquerda, aleatoriamente. Findo todo o trabalho, penso no título do texto. Às vezes, está pronto na cabeça. Às vezes, demoro a escolher. Mas sempre sai algo da cachola.

É nesta hora que clico em “publicar postagem”. Pronto, terminou o processo de criação de um gênio. Twitto e facebuko aos seguidores a publicação de um novo texto e passo a ficar de olho nos comentários – parte mais legal, disparada, de ter um blog. Se todos os leitores soubessem o quanto é legal ler os comentários de todos (críticos, elogiosos, questionadores, não importa), todo mundo deixaria um comentário sempre.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Can I sit next to you, girl?

Eu não tenho vergonha nenhuma de admitir que já fiz uma porrada de merda na minha vida. Eu penso, logo existo, logo sou ser humano, logo faço cagadas em maior ou menor grau. Mas dessa vez eu passei dos limites. A vergonha foi enorme na hora que eu me dei conta do tamanho da merda que eu tinha feito – ou, no caso, deixado de fazer – com algo que me faz tão feliz. Que norteia meus rumos na vida. A ficha caiu dia desses repentinamente. Com um clicar de botões de iPod. Se arrependimento matasse, eu não estaria aqui redigindo essas palavras.

Não tinha idéia que um descaso que não chegou nem a durar um mês me levasse a esta sensação de remorso tão devastadora. Uma relação de carinho e admiração até pode passar por momentos de maior ou menor empolgação. Mas essa minha era um caso à parte. Era uma tara intensa desde o primeiro contato. Tem uns 15 anos isso já. Não é um convívio efêmero, descartável. Ao ponto de que hoje, eu não consigo ver sentido na minha vida sem isso.

Essa nossa empatia sempre foi regada a bastante empolgação e admiração. Com uma overdose de convivência que poderia ser facilmente taxada de exagerada. Já passamos mais de 10 dias sem nos desgrudar por nenhum minuto. E sabe o que é mais inacreditável? Nunca nos desgastamos por conta disso. Jamais. A relação, pelo contrário, só foi ficando melhor ao longo do tempo. Conheci coisas novas com você. Redescobri coisas velhas. E a catarse invariavelmente aumentava a cada contato nosso.

Em um determinado momento, no ano passado, eu cheguei a rodar o mundo atrás de um novo encontro que prometia ser o que sempre são nossos encontros: históricos. Tirei férias, gastei mundos e fundos só para te ver na Europa. Não conformado, meses depois, me bati para São Paulo. Só para te ver e ouvir. De novo.

E olha que, por anos a fio, mesmo quando eu ainda não passava de um estagiário pé rapado que precisava apertar o cinto para conseguir algo que me confortasse a memória dessa louca obsessão, não, nem assim eu deixei de lado a nossa história.

Viajamos para vários lugares juntos. Até hoje, não importa quem esteja momentaneamente ocupando o seu lugar nos quatro mil alto falantes do meu Sansui Garrard Gradiente, o fato é que todo mundo se lembra de mim quando se depara com você. Você é o meu máximo denominador comum.

Eu sei, errar é humano, já disse isso ali em cima. Mas pior do que errar é saber que o erro ocorreu por desleixo imperdoável ou simplesmente porque eu, talvez, por uma razão qualquer, tenha deixado de estar perto por estes 20 e poucos dias todos os dias quando acordo. Quando estou no banho. Quando estou tomando o café da manhã. Quando ligo o som do meu carro. Quando estou entediado no trabalho. Quando estou indo para casa. Quando estou viajando. Quando estou bebendo numa festa. Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes para esquecer. E a toda hora vão estar presentes. Você vai ver.

Por tudo isso, o baque foi forte quando eu, humildemente, me dei conta do quão grave foi meu delito com algo – ou alguém – que faz parte da minha vida desde uma época em que boa parte de vocês, leitores, sequer andava de bicicleta sem rodinha.

Hoje quando eu entrei no carro, conectei o cabo do iPod e fui procurar por uma playlist para ouvir, estava lá, você, há mais de 20 dias sem ser tocada: “AC/DC – Favoritas”. Foi foda. Como eu consegui ficar quase um mês da minha passagem por este plano existencial sem ouvir uma música do AC/DC? Como isso? Cooooomo isso? Um vexame. Sério, me deu vergonha. Uma sensação horrível e desprezível de mesquinhez, de ingratidão, de decepção comigo mesmo. Eu merecia ser linchado em praça pública. E esquartejado depois. É ridículo isso. Eu sei, eu sei que é foda. Todavia, te digo: não tenho condições pisco-sociais de cometer esse mesmo desleixo de novo. Não dá. Mas eu prometi a mim mesmo depois disso: NUNCA MAIS, eu disse... NUNCA MAIS... eu vou ficar tanto tempo sem ouvir AC/DC. Nunca mais. Entendeu?

BREAKING NEWS: A queda da Revista Veja

Exclusivo: espião grava reunião secreta da revista Veja em que o fechamento da mesma é debatido!!!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Jesus não tem dentes no país dos banguelas

Inspirado no blog mais amado e odiado da internet, um amigo, dia desses, decidiu me presentear com o livro “Sem-Noção”, uma “obra literária” escrita por Ligia Marques e Paulo Faiock com – nas palavras dos autores – “100 lições bem-humoradas de etiqueta para não dar vexame e saber o que fazer quando alguém passa dos limites”.

Te conto que comecei a dar uma folheada e estava achando o livro até meio engraçado e, em alguns momentos, realista. O texto e as situações descritas pareciam divertidos e devem ser corriqueiras para a maioria de nós. Algumas poucas eu confesso que até gostei e me identifiquei bastante – digo, no sentido querer encher o camarada sem-noção de porrada:

• O sujeito que anda com o som do carro no último volume (claro, sempre a música é um funk, sertanejo ou axé, nunca vai estar rolando música clássica, bossa nova ou um clássico do Creedence)

• Usar o “miguxês” para escrever emails. ("MiGa, Onde Ki A geNte Vai? Beijummm")

• Só falar de si próprio

• Ser ecochato (esse é o tema específico de um post que estou bolando para daqui a alguns dias)

• Telefonar fora de horário

• Fazer perguntas indiscretas

• Deixar celular ligado em locais inadequados

• Fazer visita sem avisar

• Mandar correntes pela internet

• Deixar celular sem crédito (e ficar ligando a cobrar ou desligar depois de um toque)

• Estacionar em vaga para deficiente

• Ter um milhão de amigos virtuais.

Todas essas são, realmente, coisas deveras antipáticas e com as quais um sujeito rabugento como eu não tem a menor paciência para lidar. E eu sou provocador, então não consigo esconder o quanto me irrita um camarada que só fala de si mesmo ou aquela conhecida que manda pelo e-mail todas as correntes com tom religioso ou de ajuda ao próximo. Cara que deixa celular ligado e ainda atende – tipo dentro do cinema -, cidadão que chega à sua casa sem avisar ou telefona pro fixo nos horários mais bizarros – sabendo que outras pessoas moram contigo – também são passíveis de “autas na amizade”. Ainda acrescentaria na lista da situação “celular” o camarada que liga trinta vezes para você, mesmo você não atendendo ou dando “end” e continua a ligar. Que preguiça!

Agora, voltando ao livro – eu tenho Distúrbio de Déficit de Atenção, então não reparem se eu ficar mudando de assuntou ou inserindo hipertextos no meio do caminho, beleza? –, depois de algumas poucas risadas, fui pegando uma raiva crescente. E antipatia mesmo. Das 100 situações descritas como “inconvenientes” pelos lesados que escreveram a obra, uma pancada delas são absolutamente corriqueiras comigo ou com algum amigo ou amiga minha. Tenho certeza que todos que estão lendo aqui já fizeram, fazem ou vão fazer coisas do tipo:

Pedir para conhecer a casa: Eu, pelo menos, adoro mostrar minha casa para os amigos. E acho que toda vez que vou pela primeira vez à residência alheia, eles gostam tanto de fazer o passeio guiado pelo lar quanto eu gosto de dar um rolé campeão. Nada a ver.

Convidar amigas para ir ao banheiro: Acho até graça quando elas vão juntas. Mas não tenho absolutamente nada contra. Em alguns casos extremos, é até bom para exercitar o imaginário masculino.

Pedir coisas para quem vai viajar: Se eu puder, sempre vou trazer coisas para os outros. Já trouxe Playstation, cervejas importadas, remédios, camisas de time, perfumes, artesanatos e tudo quanto é coisa. Também já trouxeram para mim ipod, mesa de som, camisas de time, cédulas monetárias (eu faço coleção – como faria se não pudesse pedir pros meus amigos me ajudarem?) e outras lembrancinhas simpáticas. O lance é não abusar. Tipo “Cara, que legal que você tá indo para Miami. Será que pode passar no Wall Mart de Tampa Bay e comprar uma bike de alumínio com design assinado pelo Steve Jobs? Custa só US$ 450, mas eu te pago quando você voltar”. Aí complica, Lúcio, aí é gol da Inglaterra. Mas, em geral, é só ter noção.

Ir a um aniversário e não levar presente. Absolutamente normal. Ainda mais quando é uma festa grande e o aniversariante não é tão próximo. Caguei para presente. Até para mim. Não faço questão – mas, claro, fico feliz para caralho quando recebo um.

Guardar lugar no cinema: Ah tá. Então eu combino de ir ao cinema com uma meia dúzia de amigos e, porque nem todos chegam ao mesmo tempo, a gente tem que dar a sorte de ter uma fileira, aos 45 do segundo tempo, com seis lugares juntos? Catar coquinho, sua perua socialite!!!

Não confirmar presença: Não confirmo mesmo. Fui nuns 15 casamentos nos últimos quatro anos. Em nenhum deles eu confirmei sivousplé. E digo mais: em só um deles me ligaram perguntando a confirmação. E acho que em no máximo três me pediram o tal papelzinho na entrada. Quando eu não tinha, o cara simplesmente falou: “beleza, amigo, pode ir”. Óbvio. Quem é que vai querer entrar no casamento de algum desconhecido numa festa que nem sempre é legal, cheia de desconhecido, normalmente num lugar na casa do caralho? Tem que ser über sem-noção, aí sim, para entrar de penetra num casório.

Comprar produtos piratas: eu mesmo não compro produtos piratas. Mas é porque, graças a Deus, tenho condição de comprar um DVD original (que não é lá tão caro, vai) e baixar música (por mais que algumas pessoas pensem diferente) eu não considero piratear. Mas conheço um monte de gente que compra DVD pirata sim. E não condeno não. Quero mais é que a indústria filmográfica e a sonográfica especialmente se fodam.

Pedir para alguém ser seu fiador: Cara, os autores passaram do ponto aqui. Todo mundo que vai alugar um apê precisa de fiador. Como é que faz se “é feio” pedir? Tomá no cu.

Cortar a gravata do noivo: Acabo de voltar de um casamento no sábado e rolou de cortar a gravata do noivo com todo o prazer. Em alguns casamentos, eu mesmo ajudei no processo. É divertido e você ainda conversa com vários convidados que estavam ali meio deslocados no casório. Não entendi essa realmente.

Dividir a conta com a namorada: Coisa mais antiga essa história de o homem ter de pagar tudo. Tudo bem que é um gesto de gentileza e carinho. Mas acho que tudo depende da situação de cada um. Se a mulher ganha três vezes mais que eu, porra, porque eu vou me foder sempre? Falta de bom senso total. Eventualmente, eu faço questão de pagar a conta.

Em suma, não vai mudar a minha vida e a de ninguém. O autor e a autora provavelmente não devem nem ler o que eu escrevi e devem ser pessoas bem simpáticas e interessantes. Mas acho que vivem num mundo muito chato. Em que a forma é mais importante que o conteúdo.

Eu escrevo num espaço que se chama “Totalmente Sem-Noção”. Mas acho que “Totalmente Sem-Noção” é passar a vida em vigília sobre si mesmo (a) e sobre o que o (a) cerca. Nas palavras dos "gênios" que redigiram essa pérola, eu acho que os autores são uma “espécie cosmopolita, porém encontrada com mais dificuldade. Muitos pesquisadores divergem quanto à sua origem se deste planeta ou de outro. É do tipo que faz muitas pessoas reagirem à sua presença dizendo ‘Mas de que planeta é esse sem-noção?”, o que acaba alimentando as suspeitas de que elas são extraterrestres".

domingo, 11 de abril de 2010

1038

É com enorme tranquilidade e nenhuma surpresa que anunciamos aos leitores deste prestigioso espaço o número de 1038 seguidores do Twitter do Totalmente Sem-Noção, neste domingo, às 23h38.

Em um mês de twitter funcionando efetivamente, choveram pedidos de pessoas comuns para nos seguir. Gente desinteressante que nós apenas descartávamos. Aceitamos apenas aquelas pessoas efetivamente incríveis, ao nível do nosso prestigioso blog.

E tem mais. A diretoria do Twitter enviou o seguinte manifesto para estes três escritores. Pediram-nos sigilo, but we don't give a shit:


Dear friends from Totalmente Sem-Noção,

We are pleased to inform that you have the most growing twitter account of march. Thank you very much for letting us have such a great client like you.

Best regards,
Team Twitter.

Não poderia ser diferente, não é mesmo?

Ainda não nos segue? Tente no www.twitter.com/joselitando_tsn

Ah, estamos também no Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100000788804508

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Taísa precisa de ajuda desesperadamente!

O que pensar de uma figura simplória e carente que, num e-mail para uma gata que havia beijado na adolescência e reencontrado recentemente no Facebook, envia fotos absolutamente surreais, semi-eróticas e desprovidas de qualquer contexto?

Vejam só. Não falo de um casal de tarados que tem transado loucamente nos últimos dias. Ou de amantes que trepam em lugar público e combinam rapidinhas até na fila do cartório! Nem mesmo de um casal de ex-peguetes que, momento de tesão, trocaram palavras sacanas pela web. Não, não. Mil vezes não!

Estou a falar de um sujeito que reencontrou uma amiga da adolescência, época na qual ficaram duas ou três vezes. E nada mais. No sex. Nem o peitinho rolou. Apenas beijinhos descompromissados de uma noite.

E os e-mails recentes eram recheados de quais temas? A época de adolescência, o trabalho atual, a família, amigos em comum, amigos que não viam há tempos. Coisas protocolares do tipo. No meio desses e-mails, a gatinha fez aniversário. Ah, sim, me esqueci de apresentá-los aos nobres leitores: ela é Taísa e ele, Calvin.

Pois então, o que o Calvin fez na data do aniversário? Enviou um belo e-mail de aniversário a ela, ressaltou as qualidades da moça e tudo o mais. Ela, claro, adorou. E respondeu: “Você me surpreendeu muito com essa mensagem linda! Obrigada!”.

Vejam só: o garotão estava com a faca e o queijo na mão. Existe momento melhor para o shark attack, para a pegação, para partir para o bote do que este cenário: ex-ficantes de adolescência, saudosismos dos bons tempos, um beijo bem dado, uma paixonite mal resolvida, um reencontro agradável, trocas de e-mails gentis, uma surpresa superlegal no aniversário dela. Meu amigo, no futebol isso é praticamente como estar na cara do gol, sem goleiro, com o zagueiro caído e tudo o mais. É bola na rede, meu querido. É só não fazer nada de errado.

Mas a vida não é feita apenas de pessoas competentes e equilibradas. Há por aí uma vasta gama de idiotas-sociais prontos para fazer aquela merda inacreditável, motivo de chacota nas mesas de bar, piada entre os amigos, lenda urbana em alguns anos, tema do maior blog do planeta. E é por essa idiotice-social do Calvin, caro leitor, que você lê este post neste momento.

Ao responder o e-mail de agradecimento de Taísa, a figura deplorável de Calvin começa uma sequência de bobagens sem precedentes no cenário guerreiro de Brasília, quiçá do Brasil!

Vou descrever a vocês o e-mail à minha frente:

Nos primeiros três parágrafos, tudo bem. Nada de mais. Descrição dos últimos dias laborais do rapaz, em viagem a trabalho pela Inglaterra. Fiz isso, fiz aquilo, estou feliz por isso, fiquei puto com aquilo.

De repente, um clique. Sim, só pode ter sido um clique no cérebro do idiota. Ele tecla “enter”, inicia um novo parágrafo e solta, do nada, sem introdução, a seguinte pérola:

“Ontem eu tive um sonho. Sonhei com Papai Noel. E fiz um pedido a ele. Um pedido não, eu implorei mesmo. Eu pedi a ele fotos sensuais de uma pessoa que eu gosto. Então, veja você, a parte que eu mais gosto em uma mulher são os sentimentos dela, seus pensamentos... Uma mulher não precisa ser magra ou ter peitos grandes para ser linda. Beleza tem pouco a ver com atrativos físicos. Beleza, pra mim, tem tudo a ver com intenção, instinto, com a liberdade de ficar nu, com desejo e vontade de dar e receber.”

Sim, amigos, este é exatamente o parágrafo escrito pelo débil mental do Calvin para minha amiga Taísa, linda, doce, alegre, pura e querida. Mas vocês pensam que terminou por aí? NÃO! MIL VEZES NÃO! Calvin vai além. Calvin ultrapassa todos os limites do bom senso. Calvin dá mostras claras da incapacidade mental de concatenar as idéias. De escrever algo realmente coerente. Leiam, por favor:

“Taísa, eu gosto de você. A última coisa que eu quero é deixá-la desconfortável. Eu quero tocá-la da maneira que você quiser, de um jeito que você goste... Estou anexando algumas fotos que mostram como eu gostaria de tocá-la e de segurá-la em meus braços. Você pensa da mesma forma que eu? Quer o mesmo que eu?”

Sim, minha gente. Vejam estas fotos publicadas neste post. POR FAVOR, ANALISEM-NAS! Estas foram as fotos enviadas pelo idiota do Calvin. Sim, sim, sim. Estão aqui no meu e-mail (estavam anexadas à mensagem enviada à Taísa) e eu as compartilho com vocês, nossos leitores amados.

Mas, vejam só, ainda não terminou. Vejam o momento de sinceridade do psicopata-social Calvin, amigo de Taísa:

“É claro que eu lhe perdôo se você ficar duas semanas até me responder. E agora que eu lhe mandei fotos pervertidas com o que eu gostaria de fazer com você, poderá levar algumas semanas até você me perdoar. Pelo menos, eu espero que você me perdoe. Por favor, me perdoa? Estou com saudade. E me sinto bem quando penso em você. Beijo, Calvin.”

Eu aposto toda a minha fortuna (!) que, ao escrever este e-mail, o doente do Calvin estava a bater uma belíssima de uma punheta. Se é que não sujou o teclado com o gozo repleto de psicopatinhas a nadar para o além.

Peço a ajuda dos nobres leitores para duas coisas:

1 – Alguém podem me explicar O QUE É esta figura chamada Calvin?

2 – Alguém poderia sugerir uma resposta para Taísa dar a Calvin? Ela optou, até agora, pelo total silêncio e desprezo.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O idiota


Pois, então. Aqui se apresenta um idiota. Sim. Um idiota incapaz de participar das conversas paralelas, das trocas aprofundadas de ideias, dos debates abalizados e das discussões acaloradas dos dias de hoje. Um idiota que há uma semana não sabia sequer traçar uma análise sóbria quanto as reais chances de vitória de “Dicesar”, de “Lia”, de “Thessália(?)” ou de “Dourado” no campeão de audiências Big Brother Brasil. Um idiota que sequer sabe a cara dessa gente sem sobrenomes. Juro que eu, um idiota completo, não saberia responder a perguntas básicas da casa-mais-vigiada-do-Brasil.

Minha idiotice, no entanto, não para por aí. Vai além, bem além do Bê-Bê-Bê. Ela ganha vastos terrenos por eu não assistir - ou mesmo baixar no computador - os intrigantes episódios de Lost; por jamais ter ido ao cinema para conferir um dos filmes da série Crepúsculo; por nunca na história desse país ter aderido ao Orkut e procurado amigos "perdidos"; por não jogar videogame às terças-feiras com os amigos; por ter até hoje um aparelho celular com toque analógico; e por, finalmente, não ter assistido aos últimos videoclipes da Lady Gaga, da Pink, da Shakira ou da Beyoncé.

Também me sinto um idiota pleno por nem mesmo assistir às emocionantes novelas da TV Globo. Soube recentemente, mas apenas de ouvir falar, que a personagem da gostosa da Aline Com-Dois-Enes Moraes anda por aí em uma cadeira de rodas e outro dia teve dificuldades para subir em um busão. Pois, então, me desculpe. É tudo o que sei da nova novela das oito. Infelizmente, não tenho condições de participar de qualquer conversa de bar em que o assunto esteja em vigor. Uma lástima, enfim. Mas, pôxa, espero que você não se sinta prejudicado pela falta de apoio e me convide para a botecada mesmo assim. Eu avisei logo no início que não passava de um idiota, um idiotão.

Admito ser, além de um idiota, claro, um ignorante, um marginal. Isso aí. Estou à margem da sociedade que aqui se apresenta. Parei no tempo. Ouço bandas de música do tempo do Êpa. Estranho, né? Pois, então. Sou tão (mas tão) idiota, que nem fui ao show do Franz Ferdinand. Rolou aqui em Brasília, a uns 5km de casa. É, mas perdi. Alguns amigos disseram que seria ducaralho e tal, que era uma supernovidade em termos musicais, mas, enfim, o idiota aqui preferiu ficar em casa. O idiota aqui até ouviu algumas músicas dos escoceses supracitados, mas, puxa, não conseguiu encontrar nada de novo e revolucionário. Bem pelo contrário. Mas, enfim, talvez não tenha elementos para adentrar à discussão. Faz parte. Sou idiota mesmo...

Uma das maiores provas da minha idiotice, você pode perceber, passa pela falta de informação. Queres ver? Não tenho ideia, infelizmente, do nome do sujeito que criou o megafenômeno Rebolation. Desculpe. É sério. O Google ficaria feliz em me ajudar a desvendar o mistério, mas deu uma baita preguiça agora. Também ignoro o apelido artístico do vocalista do Asa de Águia e o maior sucesso da banda. Verdade. Não sei mesmo. Fico até envergonhado em admitir isso, mas também não saberia aqui cantar alguns dos maiores hits das duplas sertanejas Bruno & Marrone e Victor & Leo. Parece que os caras venderam milhões de cópias pelo Brasil afora. Coisdiloco.

Idiotice por idiotice, confesso que invejo quem anda superbem-informado sobre os atuais acontecimentos mundiais. Sou jornalista. Deveria saber um pouco mais das coisas que acontecem ao meu redor. Não não são raros os momentos que um ou outro colega, amigo ou conhecido pede a minha opinião sobre um dos assuntos citados neste texto e eu acabo por desapontá-lo. Mas, enfim, acredito que tenha feito uma escolha. Conscientemente ou não, optei por ser um idiota. Agora, se me dão licença, vou logo ali ler preencher o meu tempo com coisas talvez menos interessantes para você. Não é o que todo idiota faz?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A tout le monde, a tout mes amis: Je vous aime, je dois partir

A brincadeira começou no fim de 2004. Criei um blog despretensioso contando algumas coisas, sem um formato muito definido. Durou uns cinco meses. Até que tive a ideia de me juntar a um outro amigo para fazer este site aqui. Discutimos bastante o formato e na noite do dia 1º de junho de 2005 adicionamos um terceiro elemento, meio que aos 45 do segundo tempo, para que o site entrasse no ar, no dia seguinte.

No começo era uma zona, escrevíamos sobre qualquer coisa, sem critério ou periodicidade. Foi assim por uns oito ou dez meses até que mais um elemento se uniu ao trio e ficamos, nós quatro, exercitando nossa suposta habilidade com as mãos para redigir qualquer coisa sobre temas relacionados a comportamento, sexo, machismos, música e futebol. Enfim, sobre o mundo real de gente como a gente. Logo em seguida, um dos integrantes originais abandonou o barco– falta de tempo, de afinidade e de compromisso talvez. Mas tudo numa boa.

Empolgamo-nos com o site sobremaneira. Era tema inevitável em qualquer roda de conversa. Até festas nós fizemos. Foram três, em 2006, 2007 e 2008. Nesse período ainda passamos por uma explosão de acessos que em três meses catapultou o número de visitantes diários de uns 15 para mais de 300. Com o aumento do número de acessos, cresceram também o estímulo para escrever, a responsabilidade de atualizar o site a cada dois dias úteis e, mais importante de tudo, a nossa auto-cobrança para trazer para este espaço sempre uma idéia legal, uma história divertida ou triste, mas que tínhamos prazer em “perder tempo” escrevendo. E revisando. E rediscutindo. E publicando.

Com o incremento da freqüência, apareceram os primeiros problemas. De um clubinho de amigos e conhecidos, o blog ganhou a cidade, o país, o mundo. Tínhamos leitores em praticamente todas as grandes capitais do país (Rio, São Paulo, Porto Alegre, BH). E comentaristas em Nova York, Paris, Madrid, Campina Grande, Taubatexas, Santa Rosa, Pindamonhangaba, Goiânia, Salvador, Cuiabá, Curitiba e várias outras cidades. Gente boa que alguns de nós até chegamos a conhecer pessoalmente. Mas nem todos sabiam lidar com a internet. Nem os leitores. Nem a gente.

Na primeira grande crise, cada texto publicado ganhava 100 comentários em questão de horas. O que parecia ser legal acabou revelando-se algo irritante e desgastante: 80% destes comentários eram de leitores se xingando, mandando beijo para minha mãe pro meu pai e para você e também de provocações gratuitas ou conversas alheias ao tema em questão. Criamos a moderação para resolver isso. Vivendo e aprendendo. E o blog foi seguindo.Nos últimos anos, nos enveredamos bastante no campo do descompromisso total com a verdade. Das crônicas. Da realidade ficcional. E aprendemos ou desenvolvemos ainda mais o dom de contar uma mentira bem contada, de recheá-la de detalhes que tornavam a história mais verídica do que a própria realidade. Nessa brincadeira, tivemos que desmentir, aos risos, vários absurdos como o meu pai ter esfaqueado meu chefe na fila do check-in do aeroporto ou o amigo de um conviva ter assumido a pederastia em uma mesa de bar.

Em momentos diferentes, alguns de nós se viram enfadados ou em crise constante de criatividade e abandonaram por algum tempo o blog. Mas os que ficaram sempre tocavam o barco. E incrementando o espaço, que, por muitas vezes, ganhou uma cara de Capricho Masculina. E por outras foi taxado de Playboy, Placar e até mesmo ShowBizz. O número de leitores agradados aumentava na mesma proporção que o de desagradados. O Totalmente Sem-Noção mudou até mesmo de cara. E ainda ganhou um problema de identidade –muita gente chama o site até hoje de “Joselitando”. Hoje estamos no Face Book. No twitter. E assim se fez este espaço que completa cinco anos de existência daqui a dois meses.

Não é pouca coisa mesmo em se tratando de blogs.
Reparem a quantidade de blogs que existem com freqüência há tanto tempo. São muito poucos. Várias namoradas, casos e rolos não resistiram a esse tempo. Uma breve releitura pelos comentários dos primeiros anos mostra o quanto as pessoas que visitam o TSN mudaram. Ou o quanto algumas pessoas se aproximaram ou se afastaram um pouco até mesmo do convívio real conosco. Dizer que este endereço eletrônico não tem vida é uma tremenda bravata. Tem vida sim. E para ser mais preciso, ele já existe há praticamente um sexto de nossas vidas.

Mas às vezes, a auto-reflexão, as prioridades diferentes e os rumos que a vida toma nos fazem olhar para este espaço com uma visão mais ou menos crítica. Mais ou menos empolgada. Mais ou menos apaixonada. Mais ou menos feliz. Mais ou menos tudo.

Ainda assim, passando por tudo o que foi feito, fica sempre um enorme carinho. Uma sensação de solidez, de vitória. Sobretudo por todos os problemas e cicatrizes que ficaram em nossas relações com este singelo espaço virtual e que – mais do que devia em alguns casos –transcenderam os limites da internet e ganharam fervorosas discussões em mesas de bar, e-mails, MSN, encontros em casas de amigos e em todo lugar onde houvesse vida inteligente.

Chega uma hora em que é preciso olhar para frente. Procurar outros rumos e aceitar – para repetir um jargão amplamente utilizado no mundo futebolístico e corporativo – um novo desafio para a carreira. Que eu ainda não sei qual é. Mas que com certeza, para mim, não é mais aqui.

Despeço-me de todos que me acompanharam nestes quase cinco anos. Agradeço a todos pelas mensagens e comentários carinhosos. E pelos xingamentos também. Peço desculpas a quem por acaso se irritou demais com algo publicado ou comentado por mim – o texto “Eu não levo a sério quem nasceu depois de 1980”, uma grande brincadeira, até hoje rende comentários furiosos e engraçados. E deixo aqui, com uma ponta de lágrima no olho, escorrer minhas últimas palavras de afeto a quem sempre dedicou um tempinho do dia digitando dabliu dabliu dabliu ponto joselitando ponto blogspot ponto com em busca de alguma coisa que pudesse tornar seu dia pelo menos mais divertido.

A todo mundo, aos meus amigos: eu os amo. Mas devo partir.