quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

God bless the internet

Daniel pegava o mesmo ônibus todos os dias. Era a linha 177H-10, sentido Metrô Santana-Butantã-USP. Ele saía da faculdade de Comunicação da maior universidade da América Latina por volta de 22h30 e pegava o transporte exatamente às 22h42 – era incrível a pontualidade do seu Francisco.
.
Pegar o mesmo ônibus todo dia é engraçado. Você sempre vê as mesmas pessoas a fazer o mesmo trajeto. Daniel sempre acompanhava a velhinha graciosa de uns 75 anos, às vezes sozinha, às vezes acompanhada de uma netinha de dez anos, no máximo. Costumava também dar risada daquele trabalhador frequentemente cansado, invariavelmente cochilando no autobus. “Esse cara deve perder a parada sempre, não é possível. Ele apaga e não acorda por nada.”


Mas não eram esses os principais fatores a animá-lo a pegar aquela linha todos os dias. Nem o papo cabeça do cobrador, o seu Antônio. Não, não. Nada disso. Era, sim, aquela menina linda, de uns 29 anos, corpo esguio, seios volumosos, pernocas finas e charmosas. Um estilo meio carioca no coração de São Paulo. Roupas sempre irresistíveis: apostava serem Maria Filó, marca favorita da irmã. A boca carnuda e o cabelo sempre charmosamente rebelde o encantavam.

Eles sempre se sentavam próximos. E o motivo era simples: ele entrava no ônibus e procurava a moça por entre os passageiros. Quando a encontrava, ajeitava-se nas redondezas. Certa feita, sentou-se ao lado dela. A moça ainda trajava o crachá do trabalho. E assim conseguiu o nome da musa do busão.

“Fabiana Islabaneva”, como informava o documento funcional, trabalhava na Walmart. Daniel sacou o BlackBerry e acessou a internet. Tomou o cuidado de colocar o aparelho num ângulo que ela não conseguiria ver a tela.

Acessou o Facebook e digitou: “Fabiana Islabaneva”. Bingo! Ela tinha Facebook. Descobriu quatro amigos em comum: um ex-colega do colégio, um cara do pôquer e dois amigos da irmã. Navegou em direção ao Orkur e repetiu a pesquisa. Que moça conectada! Ela também estava lá. “God bless the internet”, pensou Daniel, como já dissera Paul Finch.

Descobriu algumas coisas preciosas. Era fanática por Eric Clapton (quatro comunidades se referiam ao grande guitarrista), costumava passar férias no Rio e em Floripa, amava o pai, já namorou um Paulo, colecionava ímãs de geladeira e amava Labradores. Vejam que ironia do destino: Daniel não só passara cinco verões em Florianópolis como tem dois labradores, um branco e outro bege.

Ninguém tem Facebook e Orkut e não está no Twitter. Dito e feito. Últimos posts: falou mal da Tessália (do BBB), disse sonhar em ir pisar na Lua, reclamou de um discurso da Dilma, aplaudiu os militares no Haiti, fez doação via torpedo para Angra dos Reis e se estressou com o trabalho.

Era informação suficiente para um approach. Uma parada mais tarde (ele teria cinco paradas para conversar), aproveitou o saculejo do veículo pesadão e puxou assunto.

Esses ônibus balançam demais.”

Ela concordou. Trocara mais duas ou três palavras quando ele começou a soltar as informações que o fariam – pensava ele – se aproximar dela definitivamente.

Encaixava uma conversa na outra, como se o assunto viesse “do nada”. Falou de labradores, BBB e Haiti. Deu dicas pra moça sobre Floripa. Identificaram dois amigões em comum. Provocaram-se com suas coleções de ímãs de geladeira. Falaram, falaram, falaram.

Combinaram de se encontrar, no dia seguinte, no ônibus novamente. Daniel fizera mais pesquisas na internet. Leu alguns comentários no mural de recados do Facebook e observou como ela respondia aos amigos – e assim descobria os pontos-de-vista da moça. Conversaram, conversaram, conversaram. Trocaram telefones. No último sábado, o rapaz levou a moça para jantar.

Ela está apaixonada. Dividiu com as amigas a impressionante história de um cara que acabara de conhecer, mas que tinha tudo a ver com ela. “Gostamos das mesmas coisas. É incrível. Parece que nos conhecemos há anos”, diz Fabiana. God bless the internet.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O curioso caso do homem que só comia garotas de programa


Argel consumia mulheres. Não fazia amor. Nem sexo. Argel as consumia tal qual uma transação comercial. O empresário de 53 anos satisfazia as necessidades carnais pagando pelo serviço. Nunca, jamais se deitara com uma moça sem pelo menos tentar recompensá-la pelo prazer oferecido. Sempre fora assim. Desde a mais tenra idade. Desde a primeira vez, quando o pai o levara para a zona do baixo meretrício da Asa Norte aos 15 anos. Argel fora a contragosto. Mas o velho estava preocupado com a tendência sexual do único filho homem.

Argel, vale esclarecer, odiava pederastias ou coisa do (outro) gênero. Sentia tesão e afins, mas, por algum motivo até hoje indecifrável, não conseguia transar com uma mulher sem pagá-la pelo momento de intimidade. Era solteiro e feliz, apesar da óbvia dificuldade de iniciar relacionamentos. Incomodou-se várias vezes por conta de mulheres que se sentiram humilhadas ao receberem três ou quatro notas de R$ 100 após a primeira – e única – trepada. Argel se sentia incompreendido, um outsider. Simplesmente não entendia o porquê de tantas reações adversas diante da compensação financeira. Não fazia isso para maltratá-las. Apenas achava justo. Do ponto de vista comercial.

Depois de um tempo, desistiu de procurar relações mais duradouras. E naturalmente migrou para o universo da prostituição. Não era um homem feio nem bonito. As feições nada agressivas, enfim, não atrapalhavam futuras conquistas. Mas a agressividade da mulherada (dita comum), magoada com as insistentes tentativas de pagamento pós-trepada, fez com que ele se especializasse no mundo das garotas de progama . Metido a bon vivant, rapidamente e profundamente desenvolveu o conceito de sexo oposto como um prato de comida ou um objeto em promoção.

As mais de três décadas vividas entre a inauguração carnal de Argel e os dias de hoje fizeram com que ele se tornasse um profissional no assunto. Conhecia todos os inferninhos, cabarés e puteiros do Distrito Federal e arredores. Era, claro, respeitado pelos cafetões do Entorno ao Lago Sul. Bem-sucedido, tirava de quatro a cinco dias por mês para fechar por algumas horas uma dessas casas especializadas. Usava o tempo para escolher a dedo (no bom sentido, talvez) a companhia da noite. Sentia-se como um chefe de Estado nessas ocasiões. Era o momento dele, Argel. Colocava as meninas lado a lado e, pacientemente, as estudava.

As escolhidas, chamadas carinhosamente de pílulas-vermelhas por ele em homenagem ao filme Matrix, se embelezavam como nunca para ficar diante dele. Sabiam que teriam um bela trepada, provavelmente a única da noite, e embolsariam no mínimo R$ 1 mil. Sabiam que Argel não as machucaria, muito menos a humilhariam com invencionices babacas. Por isso, tratavam-no como um rei. Também pretendiam garantir um segundo encontro. Mas o empresário jamais repetira de mulher. Se pagava bem pelo serviço, pensava ele, para que “repetir a marca” se havia tanta “tecnologia disponível”?

Argel também não tinha preferência por louras, morenas, ruivas; brancas, negras, asiáticas; altas, baixas, medianas. The choosen one must be hot. E pronto. O que os donos dos cabarés sabiam, porém, é que Argel tinha uma queda por (sub) celebridades. Pagava muito bem, obrigado, sempre que apresentavam a ele uma dessas mulheres que apareciam na TV ou nas revistas de fofoca. Se tivessem feito uma novelinha, mesmo que não fosse na Globo, elas nem passava pelo processo de seleção argeliano. Seguiam direto para o consumo.

Argel, como era de se prever, não se envolvia emocionalmente com as mulheres. Para ele, elas não passavam de uma transação comercial. Ele se apresentava como consumidor. E pagava pelo produto. Exigia qualidade, bom estado de conservação e nenhum defeito, como assegura o Código de Defesa do Consumidor. Talvez um dia, pensa ele, irá adquirir uma mulher para a convivência diária. Com contrato e tudo. Com preço e tudo. Quem sabe? A ideia sempre esteve engavetada. Pode ser que seja colocada em prática. Até lá, seguirá contente a rotina de compras a varejo e, em alguns momentos nem tão raros, no atacado.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Tarde modorrenta de sol

Tarde modorrenta de sol. Calor de 45º. À Sombra. Sinto-me como um camelo. Um dromedário perdido no deserto do Negev em um dia em que nem os passarinhos têm vontade de cantar. Bom, eles que se fodam. Minha vontade é me atirar de ponta-cabeça em um piscina de cubos de gelo compactos. Piscina uma ova. Minha opção, talvez a única, é ficar pelado sobre os azulejos dessa porra de quitinete, “linda, reformada, poente”. Poente é o caralho. Só no cu do corretor. Nessa bosta de dois por dois, é sol o dia inteiro. E que se foda o futuro proprietário. Ou seja: eu.

Pior que uma tarde modorrenta de sol, enfim, é uma tarde modorrenta de sol com caganeira. Daquelas que nem dá tempo de pensar nos mistérios da vida ou nos segredos do universo. Caguei tanto de madrugada, que fui obrigado a pedir dispensa no trabalho logo cedo. O famoso call in sick. Bonitinho, né? Só para os íntimos. De perto, ninguém é normal, como musicou o amigo Wanderley W. De concreto, apenas a merda. E o passeio nu pelo minúsculo palácio real. Não me sobram, a bem da verdade, alternativas, apesar dos perigos. Pelar-se em dias assim fazem do peido esporte radical. Se peidar, caga perna abaixo. Se cagar em frente à TV, então, minha mulher me mata.

Melhor apelar à prudência. Melhor, enfim, se acomodar no trono de porcelana e deixar a merdalhama escorrer como lava incandescente. Até dói o rabo de tão quente.... Foda, porém, é retornar ao Celite com a certeza de que não será a última do dia. Atingi tal nível, que é só soltar as comportas do cu e liberar o ovomaltine. Simples assim. Esforço zero. Mas sempre em obstinada e idependente produção. Minha única companhia, além dos cagalhões aguados, é um surrado gibi da Turma da Mônica. Tá meio sujo, engordurado, mas cumpre o papel. Histórias em quadrinhos são excelentes para manusear ao longo de uma bela e revigorante cagada. Fontes inspiradoras para uma tarde modorrenta de sol. Com caganeira.

Quando se vive uma aventura limite como essa, preso em casa, sem mais ninguém para dividir lamentos e porcarias, nada parece ter importância. Ledo engano. Esquisito como só se usa “ledo” pertinho do “engano”. Sabem o quer quer dizer? Risonho, alegre, segundo o Aurélio, o mini. Mas, enfim, pior do que uma caganeira durante uma tarde modorrenta de sol com caganeira é se borrar e não ter como limpar a bunda. Sim, porque mulher se lembra de trocar a porra do papel higiênico. O homem, não. Obviamente, esqueci de cambiar o rolo de Neve toque de seda na última subida ao trono. Agora, você sabe, me fudi. Como poucos.

Pelo menos tenho opções. Direto pro banho? Las manos? Não, não. Sou um cara de perfil ousado. Prefiro algo inusitado. Vou correr até a cozinha, onde fica o armarinho dos suprimentos domésticos, e resgatarei dois rolos de uma vez. Farei acrobacias como se estivesse a representar meu país. Fodam-se os vizinhos. Terão de se deparar com um cara rosado e branco, peludo e pelado a correr feito louco e com o cu pingando merda. Ridículo. Assim será e assim aconteceu. It shall be written. It shall be done. Não vi se alguém me viu. Também não tô nem aí. Minha situação é mais delicada do que a deles. Entendam como queiram meu egoísmo emporcalhado, sujo de merda em uma tarde modorrenta de sol. Pelo menos agora eu tô com a bunda limpa e de volta aos azulejos da sala, a derreter como picolé Chicabon sob os cuidados de uma criança.

Fico imaginando se alguém adentrasse ao recinto neste exato momento. Depararia-se com um sujeito estirado sobre azulejos, nu, de braços e pernas abertos como o Homem Vitruviano, suando como um porco e pensando alto coisas absurdas. Foi numa dessas que minha mulher chegou. Saíra mais cedo do trabalho, preocupada com o maridão porcalhão. Eu mesmo. Mas não pensem que ela se assustou com a cena. Minha heroína está mais do que acostumada com o companheiro de todas as horas. Às vezes, acho que só ela me entende. Mas isso é outra história. Sendo assim, melhor parar por aqui. É intimidade demais para uma tarde modorrenta de sol só.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Alguém para dividir

Querida irmã,

Me desculpe se lhe irritei ao terminar com a Joana. Sei que ela é sua amiga e você botava a maior fé em nós dois.

Ela é, de fato, fantástica. Uma mulher incrível. Gostosa, inteligente, de boa família. Tínhamos tudo para dar certo.

Mas não rolou. Não me apaixonei por ela, não senti frio na barriga, não a vi como o amor da minha vida. Preferi deixá-la viver a vida. Encontrar alguém que a ame como ela merece.

Joana não me emocionou, mana.

E eu quero uma mulher que me emocione.

Uma mulher que me faça companhia.

Uma mulher com quem que eu faça amor sempre e intensamente.

E que não me deixe com vontade de fazer amor com outras mulheres.

Uma mulher da qual eu me orgulhe.

Com a qual eu comemore nossas conquistas juntos.

A mãe dos meus filhos, sabe? Joana não era a mãe dos meus filhos.

Quero alguém para ficar velhinho junto. Pra contar as histórias, mimar os netos.

Alguém para viajar o mundo, dividir quartos de hotéis fuleiros e luxuosos com a mesma empolgação.

Alguém com quem conversar sobre a vida, sobre música, sobre cinema, sobre religião.

Uma mulher que vá comigo ao estádio de futebol e entenda a minha paixão pelo maior esporte do mundo.

Uma mulher que me ame. E aprenda a conviver e rir dos meus defeitos.

Uma pessoa que me faça tremer de tesão. Que saiba me chupar e goste do jeito que eu a faço gozar. Que tenha prazer de estar comigo.

Uma mulher para dividir o chuveiro, a cama, a família e o guarda-sol.

Alguém que vá ao cinema comigo aos domingos. Que curta o clube com as crianças.

Que não goste das coisas que eu não gosto. E, se gostar, que me ensine a gostar também.

Uma mulher para dormir no colo, fazer cafuné, cozinhar junto.
Que quando estiver lavando a louça, eu possa encoxá-la, safadamente.

Que eu me lembre do perfume dela quando ela não estiver por perto.

E que me faça melhor e melhor.

Alguém que não tolha minhas vontades e ria das minhas brincadeiras.

Que me ajude a educar as crianças com os princípios importantes.

Que tenha respeito pelas pessoas. Cumprimente o garçom, o lixeiro, o faxineiro e dê presentes de fim de ano à secretária.

Quero uma parceira, maninha. Alguém para compartilhar as coisas, os segredos, as aflições, os medos, as alegrias, as conquistas, o mundo, as emoções, o pôr-do-sol, as grandes histórias, os comerciais engraçados do intervalo da novela.

Enfim, minha irmã que eu amo, o seu irmão quer apenas alguém para dividir.

Será que eu quero demais?

Beijo especial deste irmão que te ama.

João.

Brasília, 10 de novembro de 2008.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Vídeo do dia

A Coca-Cola sempre destroi qualquer um nas ações de marketing.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Deu merda...

Aconteceu na sexta-feira. Foi agora mesmo, tipo três noites atrás. Saía eu de uma balada no começo da Asa Norte. Tranquilo, rock´n´roll básico no som da banda cover, colegas de trabalho, boas risadas, algumas cervejas e tudo bem. Tipo 1h30 da manhã. Estacionara meu carro na comercial da quadra. E ia para uma festa rock´n´roll na Asa Sul encontrar uns amigos. Aproximei-me do carro, destravei o alarme e meti a mão na maçaneta para abrir a porta. Com força e toda a vontade de entrar logo no carro para ligar o iPod no trajeto Balada 2 – Balada 3. Peguei em cheio na maçaneta. E me deparei com ela. Que estava ali à minha espera.

Eu era o motivo dela estar ali, naquele local. Sua razão de existir era ser agarrada por mim naquela hora com toda a força. E lá estava ela, extremamente bem colocada. Encaixada quase. Quente ainda. Semi-encharcada. Com um cheiro intenso. E escorregou entre os meus dedos. Sim, algo como um quilo de merda estava na minha mão naquela hora. Merda mesmo. Cocô. Estrume. Bosta. Cagalhão. Fezes. Do pior tipo possível.

Não deu tempo nem de ficar indignado. Não consegui pensar em nada. Eu entrei no carro, sentei, peguei, instintivamente o volante, que adquiriu a coloração marrom-cocô no ato. O coração acelerou enquanto eu tava com aquela merda ali, escorrendo entre os dedos. Foi nojento. Olhei para o lado e tinha uma camisa que eu havia usado no dia anterior no banco do passageiro. Sem hesitar, peguei-a e esfreguei-a por entre meus dedos. Para tentar limpar a bosta. Eu limpava, limpava, limpava e não adiantava nada. Tinha merda debaixo da minha unha. Já era o Zé Badalhoca. Sem falar no tanto de merda que tinha ficado do lado de fora, na maçaneta. Uma merda completa. Abri o vidro e joguei a camisa fora, sem pensar duas vezes.

Peguei uma flanela laranja (igual a todas que você imagina quando alguém fala a palavra flanela) e limpei rapidamente o volante. Dei partida no carro e até me esqueci de ligar o iPod. Iria espalhar mais merda, na certa. Dirigi por uns trezentos metros e parei num sinal na W3 Norte, na altura do antigo prédio da Varig. Já estava enojado até o pescoço. Suava frio e quando me dei conta que a maçaneta estava cheia de merda, peguei a flanela, abri a janela e, de dentro do carro, ainda arranquei o enorme bolo fecal que estava ali ao meu lado.

Eu não conseguia me desligar daquela merda por nenhum segundo. Era respirar e lá vinha, do fundo de qualquer lugar do mundo, de outra galáxia, um odor inconfundível de merda. Uma merda humana, não era de cachorro. Fresca, quente e fétida. Uma desgraça que me foi revirando o estômago. O sinal abriu e eu segui pela W3 rumo à Asa Sul em estado catatônico.

Não conseguia raciocinar direito. A cada vez que ameaçava esboçar uma certa raiva por conta da situação de merda, eu sentia o cheiro entrando por todos os poros. Uma náusea instantânea que deixava meu corpo inteiro em estado de pré-explosão. Eu xingava tudo e a todos. Não entendia como é que alguém, como algum ser humano seria capaz de fazer uma brincadeira tão imbecil quanto essa.

Parei o carro e catei tudo quanto é tipo de papel que tinha por perto pra me limpar mais ainda. Mas não adiantava nada. Não tinha nenhum daqueles tipo papel toalha, que absorvem qualquer merda (com trocadilho) que vêm pela frente. Não, só tinha folder, folha de caderno, papeis nada porosos. Merda não gruda nessa merda. Porra. Entrei correndo na festa, encontrei um amigo e só consegui dizer: “tenho que ir ao banheiro, já volto”. Quando entrei lá, fiquei uns dez minutos esfregando minha mão no sabão liquido. Eu esfregava, lavava, esfregava de novo.

O cheiro e a sujeira já deviam até ter saído dali fisicamente. Mas, sério, não saíram nunca da minha mente. Eu não conseguia olhar para nada nem para ninguém e não achar que eu estava fedendo a merda. Não conseguia pensar nem falar nada que não fosse merda. Voltei, falei rapidamente com o amigo – contei a história de merda – e vazei da festa, 30 minutos depois de ter entrado.

Quando cheguei ao meu carro, entrei pela porta do passageiro. Eu queria evitar qualquer contato com aquela merda, mas a sujeirinha residual do volante – e ainda mais considerável na porta do motorista – não me deixavam esquecer jamais daquela noite de merda. Indo para casa, só conseguia pensar: “como é que um ser humano faz um negócio desses? Um cara que faz isso taca fogo em índio no ponto de ônibus com a mesma facilidade”.

Mais calmo, lembrei que, ao estacionar meu carro na quadra, com um amigo meu, demos uma parada estratégica para mijar numa árvore que estava a uns cinco metros da marquise, onde dormia um mendigo. Até nos afastamos para que ele não nos visse ou para não deixar nada fedendo nas imediações. Então, sem querer ser leviano, a minha conclusão inevitável foi que o cara pensou “tão mijando na minha casa? Então vão ver o que é bom: vou cagar na sua”.

O que prova que educação e espírito de porco não têm nada a ver com formação cultural, nível social. Seja político inescrupuloso com dinheiro público na meia, seja um sem-teto, o nível de escrotidão de um sujeito pode ser o mais baixo possível, por motivos que só Deus sabe. Ou o Diabo. Neste caso, eu ainda dei sorte de sair correndo com a merda na mão antes de ficar olhando pro lado procurando o Zé Cagão. Senão, meu amigo, eu tenho certeza: ia dar merda.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A melhor banda de todos os tempos da última semana

Alegria, contravenção, farra, putaria, mulherada, festas e bebedeiras. Isso tudo não faz ou fez parte da vida de todos nós? Não seria bom se vivêssemos apenas esse lado da vida? Sem dor de cotovelo, sem grandes reflexões, sem melancolia, sem tragédias ou histórias tristes? Uma fuga à realidade? Não creio. Apenas uma exaltação ao melhor que a vida nos oferece. Ou, para ser mais preciso, uma ode aos melhores momentos de nossa singela passagem por este mundo. Assim é, assim foi desde os primórdios e assim será (creio) até o fim dos dias a obra e o legado da maior banda de rock´n´roll de todos os tempos: o AC/DC.

Não estou desmerecendo os Beatles, os Rolling Stones, o Led Zeppelin, o Doors, o Iron Maiden, o Metallica, o The Who, o Nirvana, o Pearl Jam ou o qualquer outro grupo ou músico do gênero. Todas são consagradas, maravilhosas e históricas bandas de rock e suas variantes. Mas o AC/DC, na acepção do que seria uma banda de rock (rifes arrasadores, solos fantásticos – mas não tão punhetados ou longos –, letras consistentes, batida sempre ritmada e, sobretudo, perversão e alegria 100% do tempo), é a referência maior da pureza (se é que há pureza) do rock. Não teve incursões jazzísticas, baladeiras mela-cueca, experimentações eletrônicas, músicas sampleadas com sintetizadores e esses outros lixos que inventaram de uns tempos para cá. Nada disso. Desde sempre, o AC/DC é simples assim: rock. E só. Não é punk, não é heavy metal, não é pop, não é glam. É só rock.

Já faz mais de um mês que eu outras 64.999 pessoas testemunhamos a terceira passagem do grupo escocês-australiano pelo Brasil, no fim de novembro. Não me interessa aqui ficar exaltando a performance sempre impecável da banda - desta vez, no Morumbi - ou detalhar os aspectos do repertório e desempenho individual do quinteto. Mas quando se trata de AC/DC não existe referência de tempo, não existe momento, não é preciso de justificativa ou fato algum para falar da banda.

Ela é, desde 1973, rigorosamente a mesma coisa. Naquela época, Angus Young, Bon Scott e Malcom Young já falavam com seus fãs a linguagem mais simples possível: a linguagem de uma vida comum, descompromissada e cheia de histórias cotidianas. Sem extravagâncias, sem apelações, sem mela-cuecagem, o trio nascido na Escócia e radicado desde pequeno na Austrália acertou na mosca há 37 anos.

Azaração e / ou contravenção na escola (“Can I Sit Next To You Girl?”, “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”), histórias de tocos homéricos (“Shot Down In Flames”) e exaltações sobre o estado de espírito na hora da guerra e lascividade à flor da pele (“Hard As a Rock”, “Caught With Your Pants Down”, “T.N.T”, “Problem Child”, "Sin City", “Dog Eat Dog”, “Shoot To Thrill”, “Love Hungry Man”, “Cover You In Oil”) ou mesmo sobre mulheres por si só – gordas (“Whole Lotta Rosie”), com doenças venéreas (“The Jack”), sexualmente insaciáveis e marcantes (“You Shook Me All Night Long” – esta, aliás, a música mais tocada em casamentos nos Estados Unidos –, “Little Lover” e outras tantas), pentelhas e irritantes (“High Voltage”) – ou simplesmente bebedeiras homéricas regadas a rock´n´roll sem parar (“Get It Hot”, “Highway To Hell”, “Hell Ain´t A Bad Place To Be”), mesmo quando o drinque se referia a uma tragédia (“Have A Drink On Me”, uma homenagem a Bon Scott, morto em fevereiro de 1980 afogado no próprio vômito).

Experiências vividas pelos integrantes da banda, como um raio que atingiu um avião em que eles estavam quando viajavam pela Europa (“Thunderstruck”) ou um tempo que Bon Scott passou na prisão sob acusação de corrupção de menores (“Jailbreak”). Exatamente como fazemos quando contamos para nossos amigos algo que rolou com a gente.

E, sobretudo, uma exaltação ao rock´n´roll que faz com que, desde 1973, a banda já tenha gravado 17 canções que contêm expressamente a palavra “rock” no título. A saber: “It´s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock´n´Roll)”, “Rock´n´roll Singer”, “Rocker”, “There´s Gonna Be Some Rocking”, “Rock In Peace”, “Let There Be Rock” – esta um hino ao gênero –, “Rock´n´roll Damnation”, Rock´n´roll Ain´t Noise Polution”, “For Those About To Rock (We Salute You)”, “That´s The Way I Wanna Rock´n´roll”, “Rock Your Heart Out”, “Hard As A Rock”, “Can´t Stop Rock´n´roll”, “Rock´n´roll Train”, “She Likes Rock´n´roll”, Rock´n’roll Dream”, “Rocking All The Way”.

Sem falar em outras odes ao estilo, como “Anything Goes”, gravada no último disco (de 2008), que compara uma banda de rock a uma mulher (isso não é a cara do AC/DC?) que hipnotiza um sujeito, fazendo-o acompanhá-la em todo e qualquer lugar.

Ao mesmo tempo em que é de certa forma uma banda simples e discreta (tente encontrar, em qualquer publicação nacional, uma entrevista de qualquer um dos integrantes durante a passagem recente ao Brasil), o que torna o AC/DC um grupo completo é a qualidade de seus músicos e de suas letras. Não usam rimas fáceis e palavras óbvias. Se não são exatamente poetas da música popular australiana, estão longe de serem compositores de axé. São, exatamente, humanos dotados de um talento musical estupendo e uma vocação para a libertinagem que todos temos – reprimida ou não – dentro de nós. Um exemplo de simplicidade e adoração que eu tenho na minha vida. Para sempre.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

30 e poucos anos...

Sem muitas promessas, sem muitas expectativas, apenas deixando a corrente seguir seu curso, o ano de 2009 começou discretamente para mim, numa comemoração moderada com meus amigos bolonistas no Park Way. Já a minha virada de 2009 para 2010 foi discreta, mas seguida de uma festa rock´n´roll, tema cada vez mais recorrente em minha vida no ano que se passou.

Comecei 2009 sabendo apenas fazer exercício de escala pentatônica na guitarra, e agora pelo menos sei tocar coisinhas básicas do Creedence, Clash, AC/DC e Kiss. Estudei guitarra pelo menos duas horas por semana o ano todo e quero estudar mais ainda para, em 2016, olhar para trás e descobrir que, aos 40 anos, eu finalmente saberei tocar algo que utilize algum instrumento musical.

Se Brasília ainda é o fim do mundo para bandas de rock consagradas, pelo menos tivemos dois grandes shows por aqui em 2009, que foram o Iron Maiden e o Heaven And Hell. Eu estava lá, nos dois, claro. E, além de voltar a dar som (como DJ) em baladas rock´n´roll nos inferninhos da cidade, passei a produzir, com muito gosto, uma festa que mistura rock com cinema. A ideia está legal e é uma das minhas grandes motivações para o ano que adentra.

Também ampliei minha literatura roqueira com o biografia do AC/DC (Let There Be Rock), um livro bem ruim, para dizer a verdade. Mas também me afoguei nos redigidos futebolísticos, com Anos 40: Viagem à Década Sem Copa, Goleiros: Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, Os 50 Maiores Jogos das Copas do Mundo, Donos da Terra: A História do Primeiro Título Mundial do Santos. Alguns bons, outros nem tanto. Assim como bons e ruins foram os livros de Bukowski (Ao Sul de Lugar Nenhum e Pulp) e Kafka (Metamorfose e O Processo) que li esse ano. A literatura despretensiosa ainda me enriqueceu com Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides), Histórias de Fantasmas (Sim, Charles Dickens), Slam (Nick Hornby), além dos divertidos relatos de Charles Darwin, em dois volumes, sobre suas viagens pré-teoria da evolução, inclusive passando pelo Brasil, que, descobri, ele detestou, pois foi obrigado a matar galinha a pedrada se quisesse comer, teve de comer com as mãos e teve várias respostas atravessadas. Ah, e um dos mais legais foi Renato Russo, de um ilustre jornalista daqui da cidade, que eu gostei nem tanto pela banda em si, mas mais por ver, pela primeira vez, Brasília, suas super quadras, eixos, grandes circulares e setores romanceados e ambientados nas páginas de um livro bem bacana.

2009 também foi o ano da consolidação do meu tempo livre, sempre dividido entre livros e música (ouvindo, lendo, tocando), mas também entre videogames e seriados. Fiquei ainda mais viciado em Lost (que termina em 2010) e na minha favorita, Two And A Half Man, uma aula de realidade para homens e mulheres dos 15 aos 80 anos. Me diverti às pampas com os campeonatos mensais de FIFA Soccer 2010 na minha casa, ainda que eu sempre brigue pelas últimas posições.

A vida real e nem sempre justa também afastou de mim várias amigas ou nem tão amigas. Mas também fez o favor de me aproximar de pessoas maravilhosas. É o ciclo da vida. Nascimento, desenvolvimento, reprodução e morte. Vi amigos e amigas meus terem filhos, outros casarem, outros se separarem, outras engravidarem.

Em 2009, bati o recorde de brigar (ou pelo menos me desentender) com amigos ou pessoas nem tão amigas, mas queridas. Mas também bati o recorde de “ajuste de conduta” com vários destes. Vida que segue, evolução sempre. Já dizia mamãe, o final é sempre feliz.

O futebol e as circunstâncias da vida mudaram também minha relação com a internet. Abandonei este espaço por seis meses e voltei sem o mesmo envolvimento de antes. Por outro lado, deixei a paixão pelo futebol aflorar em discussões às vezes por demais acaloradas em outro site que mantenho com 18 conhecidos. Hoje ele é o meu favorito. Uma relação de altos e baixos, mas sempre intensa. Como intensa foi – apenas com baixos, sem nenhum alto – a minha vida futebolística no ano que se passou. De favorito no Estadual e a candidato ao título brasileiro, o Fluminense esteve rebaixado desde agosto e eu mesmo não acreditava em mais nada. Talvez porque esteja há mais de um ano sem ler Nelson Rodrigues. Porque se o tivesse feito, teria visto com clareza o Sobrenatural de Almeida encarnado no Fred, que pelo menos nos manteve no lugar de onde não deveríamos ter saído nunca em tempos passados.

Minha veia frenética, minha vocação pela geografia, pelos exílios, minha insaciável busca pelo mundo me brindou com várias experiências fantásticas. A começar por aqui mesmo. Em 2009, conheci melhor São Paulo, cidade pela qual sempre nutri muita implicância e, sobretudo, preguiça. Da implicância eu me livrei. Da preguiça não. Conheci o Museu do Futebol e o da Língua Portuguesa, dei vários rolés na Pompéia, Aclimação, Paulista, Consolação, Centro antigo, Rua Augusta, Pinheiros, reencontrei amigos do tempo de segundo grau, vi um golaço do Nilmar no Pacaembu, assisti a um dos últimos shows do Oasis, assisti ao cabalístico show do AC/DC, também vi o Faith No More e o Janes Addiction. Fui muito bem recebido por meus amigos que moram no Double Tree Park e na Pompéia. Caminhei para caramba, andei de busão, de metrô, comi muita besteira, bebi mais ainda. E cheguei a conclusão que não, não quero morar lá nunca. Apesar de curtir o túmulo do samba entre 22h de uma sexta-feira e as 22h de domingo.

Às pressas, fui ao carnaval do Rio de Janeiro, acreditem, a trabalho. E na Sapucaí. Mesmo sendo ruim da cabeça e doente do pé, me diverti, porque o Rio de Janeiro é sempre maravilhoso. Ainda que para trabalhar entre 18h e 6h da manhã. E cheguei a conclusão que, sim, quero um dia morar lá.

De quebra, também fui a Belo Horizonte. Conheci o Mineirão, vi o Cruzeiro tomar um sapeca do São Paulo, vi que a cidade tem que ralar muito para ter condições de sediar a Copa, comi uma caralhada de pastel de angu e outros petiscos. Tomei várias cervejas, andei para caramba, subi ladeiras, conheci vários botecos, fui muito bem recepcionado por um casal de amigos de vida cigana. De quebra, reencontrei na capital mineira amigo meu dos tempos de Austrália. O estado também trouxe a minha vida este ano pessoas maravilhosas, que tive o prazer de conhecer melhor e com quem compartilhei vários momentos legais, gostosos e divertidos.

A movimentação foi frenética no âmbito internacional. Viajei sozinho. Mas viajei muito bem acompanhado por duas vezes. Fui com um grande amigo para a Costa Rica, onde rodamos sem parar por sete dias. Conhecemos vulcões extintos, vulcões ativos, vimos as pedras rolando e barulhos de explosões nas encostas dos vulcões, fizemos um rafting de quatro horas e meia no meio da exótica paisagem costaricense em Turrialba, dirigimos cinco horas sem luz nas encostas e estradas de terra até chegarmos a uma cidade na beira do pacífico, onde, sob um sol escaldante, flagramos macacos roubando turistas. Subimos montanhas, comemos arroz com feijão no café da manhã por sete dias seguidos, fomos parados e muito bem tratados em duas blitzen nas estradas costaricenses, mas fomos extorquidos na terceira parada, às vésperas do regresso.

Quase derreti de calor no verão europeu da Espanha, onde dormi no mukifo de um amigo meu radicado por lá. Fomos para a Holanda, onde conhecemos muitas coisas legais, bebemos bastante, experimentamos várias coisas permitidas por lá, assistimos a um show do AC/DC com uma platéia de humor gélido, morgamos nas ruas, tiramos milhões de fotos. Visitei minha melhor amiga, na França, passamos poucas mas maravilhosas horas caminhando pelos cantos alternativos do MonMartre e do Sain Marteen (ou Saint Martin, sei lá) e tomamos uma cerveja à beira do Sena num boteco underground onde estava tocando “Heal The World”, pois era o dia em que o Michael Jackson tinha morrido.

Conheci cidades e ruínas milenares na Hungria, caminhei como poucos, sob um calor de 37 graus Celsius às 21h30 registrados em fotografia, visitei o estádio Ferenk Puskas, tirei trocentas fotos da ponte das correntes, comi goulash, vi porcos espinho no meio dos parques, peguei um trem desgraçado com dois ingleses e três suíços para a Sérvia, onde, descobri, ninguém fala inglês. Caminhei errado por 18km nos arredores de Belgrado, até desistir e me convencer a pegar um taxi. Visitei o estádio do Partizan e o do Estrela Vermelha, fiquei louco da vida seguidas vezes por não entender o alfabeto cirílico, xinguei atendentes mal-educados da rodoviária que não sabiam me explicar nada em inglês, vi prédios bombardeados, favelas sérvias, sujeira, feiúra e gostei do que vi. Subi num castelo em Novi Saad, às margens do Danubio, peguei um trem noturno para Bucareste, onde cheguei destruído. Visitei o estádio do Steaua Bucareste, vários museus legais, inclusive o segundo maior prédio do mundo, aluguei um carro e fui para a Transilvânia, onde vi castelos muito bacanas e outros nem tanto. Peguei uma tempestade torrencial no retorno de Brasov ao aeroporto, fui enganado pelo GPS romeno, errei o caminho várias vezes, quebrei o pára-choque e a placa do carro, mas finalmente voltei a Madrid, onde assisti ao melhor show da minha vida, do Metallica, no Palacio de Los Deportes, e onde me joguei nas fontes do palácio real para aplacar o calor inclemente que fazia na capital espanhola.

O ano ainda me permitiu, rapidamente, conhecer o Estádio San Siro e dar um role nas ruas de Milão. E, nos últimos dias, semana passada, foi encerrado com chave de ouro, ao me propiciar contato próximo com tubarões, pingüins, leões-marinhos, focas, pelicanos, iguanas marinhas, tartarugas gigantes, tartarugas marinhas em Galápagos, para onde viajei com um amigo e onde passamos o Natal em um barco franciscano nas águas do pacífico. Conhecemos ruelas coloniais em Quito, visitamos a metade do mundo, tirei fotos com um pé no hemisfério norte e outro no sul, mijei com um prazer inenarrável nas imediações do estádio Casablanca, onde meu time sofreu humilhações nos últimos anos, viajei oito horas em ônibus pau de arara para o interior do Equador, fiz um rafting com um guia de 17 anos e outro de 21 num dos rios que formam o Amazonas, no meio da selva equatoriana, viramos o bote três vezes, batemos em muitas pedras, nadamos bastante e ainda tivemos tempo, na volta, de subir parte de uma montanha que fica a mais de 4 mil metros de altitude. Quase morri.

A caminhada teria sido pior ainda se, em 2009, eu não tivesse tomado vergonha na cara e voltado a fazer algum esporte, depois de três anos de sedentarismo completo. Voltei a nadar, na hora do almoço, e isso se mostrou uma benção para mim. Por outro lado, só serviu para aumentar meu peso, pois agora como e bebo sem culpa por conta de uma nadadinha vagabunda de 50 minutos. Voltei a ter mais de 80kg. São quase 10 a mais do que tinha há um ano. E a conclusão cada vez mais inevitável é: fazer esporte não emagrece porra nenhuma. Melhor ficar em casa só no videogame, guitarra, livros, cerveja, futebol, seriados e, claro, muito sexo gostoso na companhia de uma pessoa querida e amada. Que, graças a Deus, eu tenho a felicidade, mais do que nunca, de ter por perto de mim hoje.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Resoluções de ano novo para se tornar uma esposa perfeita

- Continuar a transar com meu maridão pelo menos três vezes na semana e sempre que ele tiver vontade;

- Entender perfeitamente que hora de futebol é hora de futebol;

- Quando das finais do campeonato, colocar a camisa do time do meu marido e torcer fanaticamente ao lado dele, de preferência mandando o dedo quando a TV focalizar o craque do time adversário e gritar palavrões pela janela sempre que o juiz roubar;

- Sempre que houver futebol, providenciarei lanches gostosos;

- Entender que toda segunda-feira não tem novela. É dia de ver as mesas redondas na ESPN e na Sportv;

- Entender que toda terça-feira é dia do pôquer;

- Vou atender ao pedido do meu marido para trazermos uma mulher para a nossa cama. E ainda vou fazer uma surpresa: convidarei aquela minha amiga gostosíssima do trabalho para transar conosco;

- Farei aquele curso de boquete tântrico do panfleto que meu marido, sutilmente, deixou na minha mesa de cabeceira;

- Vou aumentar a intensidade da minha malhação. Quero ficar mais gostosa a cada dia para o homem que eu tanto amo;

- Trocarei o meu personal trainer saradão e bonitão por uma personal trainer simpática e legal;

- Meus seios já não são mais os mesmos? Silicone neles;

- Farei aquela pós em Literatura Brasileira para ficar ainda mais interessante para as conversas com o meu amor;

- Vou riscar da minha agenda aquelas duas amigas insuportáveis que ele odeia;

- Eu nem vou repassar a ele o cronograma de eventos chatos para o próximo ano. Ele está automaticamente dispensado dos chás de bebê e de panela, dos batizados, das apresentações de balé daquela minha amiga gordona que precisa de platéia só para melhorar a auto-estima, das missas dos casamentos de desconhecidos e etc;


- Abandonarei, a partir do dia 1º de janeiro, aquele amante da repartição. Não
faz o menor sentido dar em cima da máquina de xerox e depois ir pra casa
encontrar meu marido;

- Eis a lista de presentes do ano de 2010:
  • - De aniversário, a camisa do time dele;

  • - De natal, aquele jogo de ferramentas que ele paquera há séculos;

  • - De dia dos namorados, a adega para 36 garrafas que ele tanto sonha;

  • - De aniversário de casamento, uma nova bola de futebol;

  • - De dia das crianças, assinatura do pay-per-view do Brasileirão;

  • - De dia dos pais, a renovação da assinatura da playboy e um vale-brinde para assistir ao strip da playmate do último mês no puteiro da esquina;

  • - No meu aniversário, uma lingerie nova para uma noite de sexo e paixão com o meu homem.