Sem muitas promessas, sem muitas expectativas, apenas deixando a corrente seguir seu curso, o ano de 2009 começou discretamente para mim, numa comemoração moderada com meus amigos bolonistas no Park Way. Já a minha virada de 2009 para 2010 foi discreta, mas seguida de uma festa rock´n´roll, tema cada vez mais recorrente em minha vida no ano que se passou.
Comecei 2009 sabendo apenas fazer exercício de escala pentatônica na guitarra, e agora pelo menos sei tocar coisinhas básicas do Creedence, Clash, AC/DC e Kiss. Estudei guitarra pelo menos duas horas por semana o ano todo e quero estudar mais ainda para, em 2016, olhar para trás e descobrir que, aos 40 anos, eu finalmente saberei tocar algo que utilize algum instrumento musical.
Se Brasília ainda é o fim do mundo para bandas de rock consagradas, pelo menos tivemos dois grandes shows por aqui em 2009, que foram o Iron Maiden e o Heaven And Hell. Eu estava lá, nos dois, claro. E, além de voltar a dar som (como DJ) em baladas rock´n´roll nos inferninhos da cidade, passei a produzir, com muito gosto, uma festa que mistura rock com cinema. A ideia está legal e é uma das minhas grandes motivações para o ano que adentra.
Também ampliei minha literatura roqueira com o biografia do AC/DC (Let There Be Rock), um livro bem ruim, para dizer a verdade. Mas também me afoguei nos redigidos futebolísticos, com Anos 40: Viagem à Década Sem Copa, Goleiros: Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, Os 50 Maiores Jogos das Copas do Mundo, Donos da Terra: A História do Primeiro Título Mundial do Santos. Alguns bons, outros nem tanto. Assim como bons e ruins foram os livros de Bukowski (Ao Sul de Lugar Nenhum e Pulp) e Kafka (Metamorfose e O Processo) que li esse ano. A literatura despretensiosa ainda me enriqueceu com Virgens Suicidas (Jeffrey Eugenides), Histórias de Fantasmas (Sim, Charles Dickens), Slam (Nick Hornby), além dos divertidos relatos de Charles Darwin, em dois volumes, sobre suas viagens pré-teoria da evolução, inclusive passando pelo Brasil, que, descobri, ele detestou, pois foi obrigado a matar galinha a pedrada se quisesse comer, teve de comer com as mãos e teve várias respostas atravessadas. Ah, e um dos mais legais foi Renato Russo, de um ilustre jornalista daqui da cidade, que eu gostei nem tanto pela banda em si, mas mais por ver, pela primeira vez, Brasília, suas super quadras, eixos, grandes circulares e setores romanceados e ambientados nas páginas de um livro bem bacana.
2009 também foi o ano da consolidação do meu tempo livre, sempre dividido entre livros e música (ouvindo, lendo, tocando), mas também entre videogames e seriados. Fiquei ainda mais viciado em Lost (que termina em 2010) e na minha favorita, Two And A Half Man, uma aula de realidade para homens e mulheres dos 15 aos 80 anos. Me diverti às pampas com os campeonatos mensais de FIFA Soccer 2010 na minha casa, ainda que eu sempre brigue pelas últimas posições.
A vida real e nem sempre justa também afastou de mim várias amigas ou nem tão amigas. Mas também fez o favor de me aproximar de pessoas maravilhosas. É o ciclo da vida. Nascimento, desenvolvimento, reprodução e morte. Vi amigos e amigas meus terem filhos, outros casarem, outros se separarem, outras engravidarem.
Em 2009, bati o recorde de brigar (ou pelo menos me desentender) com amigos ou pessoas nem tão amigas, mas queridas. Mas também bati o recorde de “ajuste de conduta” com vários destes. Vida que segue, evolução sempre. Já dizia mamãe, o final é sempre feliz.
O futebol e as circunstâncias da vida mudaram também minha relação com a internet. Abandonei este espaço por seis meses e voltei sem o mesmo envolvimento de antes. Por outro lado, deixei a paixão pelo futebol aflorar em discussões às vezes por demais acaloradas em outro site que mantenho com 18 conhecidos. Hoje ele é o meu favorito. Uma relação de altos e baixos, mas sempre intensa. Como intensa foi – apenas com baixos, sem nenhum alto – a minha vida futebolística no ano que se passou. De favorito no Estadual e a candidato ao título brasileiro, o Fluminense esteve rebaixado desde agosto e eu mesmo não acreditava em mais nada. Talvez porque esteja há mais de um ano sem ler Nelson Rodrigues. Porque se o tivesse feito, teria visto com clareza o Sobrenatural de Almeida encarnado no Fred, que pelo menos nos manteve no lugar de onde não deveríamos ter saído nunca em tempos passados.
Minha veia frenética, minha vocação pela geografia, pelos exílios, minha insaciável busca pelo mundo me brindou com várias experiências fantásticas. A começar por aqui mesmo. Em 2009, conheci melhor São Paulo, cidade pela qual sempre nutri muita implicância e, sobretudo, preguiça. Da implicância eu me livrei. Da preguiça não. Conheci o Museu do Futebol e o da Língua Portuguesa, dei vários rolés na Pompéia, Aclimação, Paulista, Consolação, Centro antigo, Rua Augusta, Pinheiros, reencontrei amigos do tempo de segundo grau, vi um golaço do Nilmar no Pacaembu, assisti a um dos últimos shows do Oasis, assisti ao cabalístico show do AC/DC, também vi o Faith No More e o Janes Addiction. Fui muito bem recebido por meus amigos que moram no Double Tree Park e na Pompéia. Caminhei para caramba, andei de busão, de metrô, comi muita besteira, bebi mais ainda. E cheguei a conclusão que não, não quero morar lá nunca. Apesar de curtir o túmulo do samba entre 22h de uma sexta-feira e as 22h de domingo.
Às pressas, fui ao carnaval do Rio de Janeiro, acreditem, a trabalho. E na Sapucaí. Mesmo sendo ruim da cabeça e doente do pé, me diverti, porque o Rio de Janeiro é sempre maravilhoso. Ainda que para trabalhar entre 18h e 6h da manhã. E cheguei a conclusão que, sim, quero um dia morar lá.
De quebra, também fui a Belo Horizonte. Conheci o Mineirão, vi o Cruzeiro tomar um sapeca do São Paulo, vi que a cidade tem que ralar muito para ter condições de sediar a Copa, comi uma caralhada de pastel de angu e outros petiscos. Tomei várias cervejas, andei para caramba, subi ladeiras, conheci vários botecos, fui muito bem recepcionado por um casal de amigos de vida cigana. De quebra, reencontrei na capital mineira amigo meu dos tempos de Austrália. O estado também trouxe a minha vida este ano pessoas maravilhosas, que tive o prazer de conhecer melhor e com quem compartilhei vários momentos legais, gostosos e divertidos.
A movimentação foi frenética no âmbito internacional. Viajei sozinho. Mas viajei muito bem acompanhado por duas vezes. Fui com um grande amigo para a Costa Rica, onde rodamos sem parar por sete dias. Conhecemos vulcões extintos, vulcões ativos, vimos as pedras rolando e barulhos de explosões nas encostas dos vulcões, fizemos um rafting de quatro horas e meia no meio da exótica paisagem costaricense em Turrialba, dirigimos cinco horas sem luz nas encostas e estradas de terra até chegarmos a uma cidade na beira do pacífico, onde, sob um sol escaldante, flagramos macacos roubando turistas. Subimos montanhas, comemos arroz com feijão no café da manhã por sete dias seguidos, fomos parados e muito bem tratados em duas blitzen nas estradas costaricenses, mas fomos extorquidos na terceira parada, às vésperas do regresso.
Quase derreti de calor no verão europeu da Espanha, onde dormi no mukifo de um amigo meu radicado por lá. Fomos para a Holanda, onde conhecemos muitas coisas legais, bebemos bastante, experimentamos várias coisas permitidas por lá, assistimos a um show do AC/DC com uma platéia de humor gélido, morgamos nas ruas, tiramos milhões de fotos. Visitei minha melhor amiga, na França, passamos poucas mas maravilhosas horas caminhando pelos cantos alternativos do MonMartre e do Sain Marteen (ou Saint Martin, sei lá) e tomamos uma cerveja à beira do Sena num boteco underground onde estava tocando “Heal The World”, pois era o dia em que o Michael Jackson tinha morrido.
Conheci cidades e ruínas milenares na Hungria, caminhei como poucos, sob um calor de 37 graus Celsius às 21h30 registrados em fotografia, visitei o estádio Ferenk Puskas, tirei trocentas fotos da ponte das correntes, comi goulash, vi porcos espinho no meio dos parques, peguei um trem desgraçado com dois ingleses e três suíços para a Sérvia, onde, descobri, ninguém fala inglês. Caminhei errado por 18km nos arredores de Belgrado, até desistir e me convencer a pegar um taxi. Visitei o estádio do Partizan e o do Estrela Vermelha, fiquei louco da vida seguidas vezes por não entender o alfabeto cirílico, xinguei atendentes mal-educados da rodoviária que não sabiam me explicar nada em inglês, vi prédios bombardeados, favelas sérvias, sujeira, feiúra e gostei do que vi. Subi num castelo em Novi Saad, às margens do Danubio, peguei um trem noturno para Bucareste, onde cheguei destruído. Visitei o estádio do Steaua Bucareste, vários museus legais, inclusive o segundo maior prédio do mundo, aluguei um carro e fui para a Transilvânia, onde vi castelos muito bacanas e outros nem tanto. Peguei uma tempestade torrencial no retorno de Brasov ao aeroporto, fui enganado pelo GPS romeno, errei o caminho várias vezes, quebrei o pára-choque e a placa do carro, mas finalmente voltei a Madrid, onde assisti ao melhor show da minha vida, do Metallica, no Palacio de Los Deportes, e onde me joguei nas fontes do palácio real para aplacar o calor inclemente que fazia na capital espanhola.
O ano ainda me permitiu, rapidamente, conhecer o Estádio San Siro e dar um role nas ruas de Milão. E, nos últimos dias, semana passada, foi encerrado com chave de ouro, ao me propiciar contato próximo com tubarões, pingüins, leões-marinhos, focas, pelicanos, iguanas marinhas, tartarugas gigantes, tartarugas marinhas em Galápagos, para onde viajei com um amigo e onde passamos o Natal em um barco franciscano nas águas do pacífico. Conhecemos ruelas coloniais em Quito, visitamos a metade do mundo, tirei fotos com um pé no hemisfério norte e outro no sul, mijei com um prazer inenarrável nas imediações do estádio Casablanca, onde meu time sofreu humilhações nos últimos anos, viajei oito horas em ônibus pau de arara para o interior do Equador, fiz um rafting com um guia de 17 anos e outro de 21 num dos rios que formam o Amazonas, no meio da selva equatoriana, viramos o bote três vezes, batemos em muitas pedras, nadamos bastante e ainda tivemos tempo, na volta, de subir parte de uma montanha que fica a mais de 4 mil metros de altitude. Quase morri.
A caminhada teria sido pior ainda se, em 2009, eu não tivesse tomado vergonha na cara e voltado a fazer algum esporte, depois de três anos de sedentarismo completo. Voltei a nadar, na hora do almoço, e isso se mostrou uma benção para mim. Por outro lado, só serviu para aumentar meu peso, pois agora como e bebo sem culpa por conta de uma nadadinha vagabunda de 50 minutos. Voltei a ter mais de 80kg. São quase 10 a mais do que tinha há um ano. E a conclusão cada vez mais inevitável é: fazer esporte não emagrece porra nenhuma. Melhor ficar em casa só no videogame, guitarra, livros, cerveja, futebol, seriados e, claro, muito sexo gostoso na companhia de uma pessoa querida e amada. Que, graças a Deus, eu tenho a felicidade, mais do que nunca, de ter por perto de mim hoje.