Fechado para manutenção
Se sobreviverem, o blog será reaberto nos próximos dias, talvez com relatos do megaevento.
Pedimos aos leitores apenas que não nos invejem.
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Zethi
às
12:06 PM
Fred diz:
Eu sou mesmo um cara de muita sorte.
Marcelo diz:
Por quê? Comeu uma puta de graça?
Fred diz:
I'm the luckiest man in the world, probably.
Marcelo diz:
Ganhou hospedagem e abadá no Carnaval de Salvador do próximo ano em um sorteio que você nem se inscreveu? Ganhou dez ingressos VIPs para o show do AC/DC? Vai jogar bola com o Chico Buarque e ainda tocar na banda dele na palhinha pós-pelada?
Fred diz:
Don't play with silly issues.
Marcelo diz:
Ganhou um cursinho de inglês?
Fred diz:
Tive a maior noite sexual de minha vida.
Marcelo diz:
Espero que o senhor não tenha dado o rabo por aí.
Fred diz:
Não. Não tem nada disso.
Marcelo diz:
Conte-me, então.
Fred diz:
Disse-lhe há alguns dias que uma amiga toparia ir comigo a um clube de swing, lembra-se?
Marcelo diz:
Sim. E então?
Fred diz:
E então que a gente combinou uma maluquice de ir a um dos clubes de Curitiba. Porém, ontem à tarde, ela amarelou. Havia virado à noite trabalhando e viajaria hoje cedo.
Marcelo diz:
Porra! Que merda. E aí?
Fred diz:
E não é que eu me surpreendo com uma mensagem dela às 23h10? "Nossa saída ainda está de pé, mesmo que seja outro dia?" Eu disse que sim. E ela me respondeu: "É que uma amiga minha também quer ir". E eu respondi: "Então leva ela junto!" Ela riu e disse: "Ela quer ir hoje. Vamos?"
Marcelo diz:
Foram aonde?
Fred diz:
Eu pedi apenas uma meia hora pra me arrumar. E ela mandou. "Ok. No caminho, compre a tequila." Eu e ela havíamos combinado que ela teria de tomar tequila antes de entrar. E eu comprei, claro.
Meu amigo, fui pro tal Swing Curitiba Fest, que fica pertinho daquela churrascaria, na saída pra Floripa. Eu busquei as duas num barzinho. Elas já estavam bebuns, empolgadas. No caminho, tomaram duas doses de tequila cada uma.
Chegamos lá e o local é ridículo. Bem trash. Com umas 15 pessoas dentro, apenas. Um povo horroroso. Comecei a dançar com as duas, sem me importar com o resto. E a minha amiga (que eu já comi várias vezes) começou a me botar pra beijar a amiga dela, que dançava e roçava em mim, rebolando.
Em 15 minutos, obviamente, entrei com as duas para um quarto privativo. Tranquei a porta e a janela. E elas simplesmente começaram a se pegar loucamente. E a me chupar desenfreadamente. Comi as duas por mais ou menos uma hora.
Marcelo diz:
Do caralho! Gozou na cara delas?
Fred diz:
Calma, ainda não acabou. Aliás, não chegou nem na metade. Não gozei. Tava tão pilhado e tão decido a comê-las até elas pedirem arrego, que eu não gozei. Trepamos por uma hora e pouco mais ou menos. Foi quando eu disse, às 2h, que na próxima vez nós iríamos para aquela outra casa de swingue aqui de Curitiba, que devia ser bem melhor. Elas se entreolharam e disseram: "Ué, por que não vamos agora?"
Marcelo diz:
Hahahahaha... E aí? Vocês foram?
Fred diz:
Claro. Eu gritei: “Vambora!” Tive de cruzar a cidade, né? Esse outro clube é na estrada pra São Paulo. Demoramos uns 40 minutos pra chegar. É o maior buraco da cidade. Só mesmo com a chance de fazer outro ménage você pode ir tão longe, num lugar tão ermo. É uma chácara numa rua de terra, pra você ter uma ideia.
Marcelo diz:
Puta que pariu. Swigue de matuto!
Fred diz:
Isso.
Chegamos na porta e, confesso, tive certo receio. As duas já dormiam no carro. Acordei minha amiga e ela falou: "Estamos na porta mesmo, vamos entrar". O portão se abriu e nós entramos.
Eu previ que a noite seria uma merda. Eram 3h e o segurança disse que só havia 4 casais lá dentro. Mas, enfim, estávamos lá. Eu ia pelo menos olhar a casa e ir embora. A amiga da minha amiga queimou a largada. Ficou no carro, a dormir.
Eu e minha amiga entramos na casa. É infinitamente superior e mais maneira do que a outra. Essa é uma casa ajeitada, com pista de dança, dois andares, vários ambientes.
Eu já imaginei que entraria e comeria minha amiga de novo. Trivial. Quando chego na porta, aparece uma megagostosa. De top e uma calcinha com um véu. "Boa noite, vocês conhecem a casa?", disse a gostosa. Vi que trabalhava no local. A minha amiga ficou tarada nela. Virou-se pra mim e disse: "Eu quero ela com a gente". A moça nos mostrou toda a casa. Labirinto, quartos, piscina, banheira...
Marcelo diz:
Muito bom!
Fred diz:
A minha amiga, num certo momento, segurou na mão da gostosa, de nome Paulinha. Mas a Paulinha recuou. Disse que estava trabalhando. Riu e saiu. Eu já imaginei.
Eu e minha amiga, então, ficamos num quarto com janela para vouyers. Começamos a nos pegar. Ela começou a me lamber. De repente, parou e me disse: "Quero aquela gostosa aqui com a gente. Vai buscar ela pra mim. Ou ela ou a minha amiga que tá dormindo". Eu desci. Só de calça, sem camisa. Passei pela gostosa e não disse nada. Fui até o carro, tentei trazer a amiga, que não veio. Estava chapada.
Marcelo diz:
Hahahahaha... Fantástico.
Fred diz:
Na volta, passei de novo pela gostosa, que estava sentada, entediada. Naquele fim de expediente. Dei um beijo na cabeça dela e perguntei: "Tem certeza de que não quer subir conosco?" Ela disse que tinha certeza. E eu falei: “Que pena. Minha namorada ficou alucinada por você. Completamente alucinada. Virou-se pra mim e disse: ‘vá buscá-la pra mim’”.
E saí. Não insisti. Não fiz nada. Apenas plantei a semente. A vontade. Subi e comecei a me atracar com minha amiga. Cinco minutos mais tarde, a Paulinha surge na porta. "Vim só olhar", disse.
Eu, que não sou bobo, pensei comigo: "Só olhar é o caralho. É claro que ela quer foder". Então, eu disse: "Tudo bem. Mas vem olhar de pertinho. Deita aqui do nosso lado". A cama era gigante. Ela se deitou. No que ela se deitou, minha amiga pulou pra cima dela e começou a beijá-la vorazmente. Rapaz, nessa hora eu juro que pensei comigo: “Não é possível. Isso é um sonho”.
Comecei, então, a beijar a gostosa na barriga saradíssima... E já avancei sobre os peitos...
Queria dar um beijo triplo, como dei milhares na trepada anterior. Mas, curiosamente, a gostosa só queria beijar a minha amiga. No que eu não reclamei, obviamente. Aliás, isso me enlouquecia. Ela não queria nem que eu colocasse o dedo “dentro” dela. Mas como eu não sou bobo nem nada, comecei a chupá-la. E ela adorou. Uivava na cama. E minha amiga a beijava enquanto eu chupava a gostosa.
Num dado momento comecei a comer minha amiga de quatro, enquanto elas se beijavam. Ficamos assim por uns 15 minutos. A Paulinha virou-se e disse: “Tô muito travada ainda, vou pegar uma cerveja pra me empolgar”. E saiu do quarto. E sumiu! E eu fiquei mais 30 minutos comendo a minha amiga (inclusive, com a platéia de dois casais que ali, a nos admirar). Às 5h, eu fui embora. Feliz. Com o saldo de dois ménages, três mulheres, muitas gozadas e alucinações.
Marcelo diz:
Inacreditável. Isso é fantástico. Estou maluco aqui no computador...
Fred diz:
Não fique muito maluco, seu idiota. É tudo mentira. Acabei de inventar para você se irritar. É incrível como você acredita em tudo.
Marcelo diz:
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Zethi
às
10:21 PM
"As vitórias dos outros são simples, quase sem graça. Algumas beiram a banalidade, ao ridículo, as nossas não. As nossas são cardíacas. As dos outros são previsíveis, esquecidas ao apito do primeiro jogo do próximo campeonato, as nossas são inesquecíveis."
Nelson Rodrigues
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Felipe
às
7:38 PM
Alguém aí tem um amigo bandeirinha? Isso mesmo, daqueles sujeitos de roupa preta que ficam paradinhos que nem soldados ingleses à frente do Buckingham Palace e levantam a um pau com um pedaço de pano quando acham que alguém tá impedido, fez falta, fez gol irregular, essas porras? Hein? Pois é, eu tenho um amigo bandeirinha.
Não é um sujeito que veio do interior, do nada e que conheci por acaso nessas vicissitudes da vida. Não, nada disso. É um cara como eu. Como você. Que estudou e morou no Plano Piloto, em escolas normais. Que jogou futebol de botão na infância. Que era viciado na Revista Placar. Que vibrou com as vitórias do Senna. Que provavelmente deve ter ido às marchas dos cara-pintadas ou até dos sem-terra. Que passou no vestibular da UnB. Que teve um fusca. Que morou no Lago Norte. Que está naquela idade, sabe, de casar, ter o primeiro filho. E ainda arruma tempo para ser bandeirinha.
Ano passado, eu fui ver um jogo dele pela primeira vez. Era um Brasiliense x Gama no Mané Garrincha, válido por alguma rodada do Campeonato Candango. Um sol desgraçado no sábado de tarde. E lá estava o meu amigo, vestido de preto. Com gel no cabelo, provavelmente derretendo debaixo daquele manto de fazer inveja ao Cavaleiro das Trevas. Eu, claro, me posicionei atrás da lateral onde ele estava. E comecei a testar a seriedade profissional do amigão de infância ali.
Sim, porque, naquele instante, o cara que tava ali não era um sujeito trabalhador dando exemplo de profissionalismo em campo. Era o mané que passava dias e noite jogando futebol de botão comigo. Que, como eu, dedicava 150% do seu tempo livre na infância / adolescência pra falar de futebol na hora do recreio. E até por isso fiquei super à vontade para começar a provocação: “Ô filho da puta. Filho da puta. Bandeirinha ladrão. Desgraçado”. E nada. Nada dele me olhar.Mas eu sabia que ele tava me ouvindo. Não tinha ninguém naquela porra de jogo. Continuei: “Tá quente aí? Pode coçar o cu, seu viado. Ninguém tá vendo não. Quer água? Vai ficar querendo”. Quem me conhece sabe o nível de chatice que sou capaz de atingir. Eu não falava isso. Eu berrava. Ao ponto de, no começo do segundo tempo, estar sem voz.
Mas continuei irritando meu amigo. Principalmente quando ele anulou um gol de um dos times. E todo mundo voou em cima do coitado. Ele se manteve impávido. Com a bandeira erguida. E confirmou a anulação do tento. Minutos depois do jogo, ele me liga e diz: “Caralho, você viu o gol que eu anulei? Fiquei meio com medo, mas depois vi que acertei mesmo”. Mas eu só queria saber se ele tinha me ouvido xingando-o: “Claro que ouvi, porra. Uma hora eu quase virei pra mandar você calar a boca”, disse, resmungando e bem humorado.
Depois desse jogo, meu amigo passou a mandar a relação oficial dos “convocados” para as partidas do Candangão em que ele estaria presente, assim que a federação de futebol daqui divulgava as tabelas dos jogos. E olha, ele é muito guerreiro para bandeirar jogos do naipe de Esportivo x Unaí; Capital x Ceilandense; Legião x Brazsat. E alguns ainda eram tipo domingo de manhã.
Continuei achando que o meu amigo ainda era meu amigo da quinta série lá no Indi Bibia. Mas dia desses descobri que ele já apitou uns jogos da Série B esse ano. Apitou não. Digo, bandeirou. Acho que foi Paraná x Ceará. Lá no sul. Me contou até como faz para conciliar seu emprego de professor com a profissão de bandeirinha – a própria comissão de arbitragem, diz ele, recomenda que você tenha um emprego fixo e não largue seu trabalho para ficar esperando uma convocação. Um dos amigos dele já está apitando vários jogos da Primeira Divisão. Está em vias de entrar nos quadros da FIFA.
Meu amigo tá indo bem também. Acho que no ano que vem já vai dar para vê-lo na telinha da Globo no domingo de tarde. Vai ser engraçado. Ainda mais que eu sei o quão fanático ele era como torcedor, quando moleque. E ainda é. Mas se o time dele for jogar contra o meu, ah, meu irmão, sou capaz de ir lá no estádio só para ver esse momento histórico. Porque, diz aí: não é legal para caralho ter um amigo que é bandeirinha?
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Felipe
às
9:57 PM
Essa porra dessa internet é muito bacana, né? Fácil de pesquisar tudo, saber um pouco de tudo e muito de nada, encontrar as coisas, as pessoas queridas, as não tão queridas, desconhecidas que não encontraríamos nunca anos atrás. Enfim, dá pra fazer tudo nessa joça.
Tenho dois blogs, uso muito e-mails tanto em casa como no trabalho e MSN (só em casa) eventualmente. Então converso muito com neguinho (a) pela web mesmo. Principalmente em horários fora da hora da etiqueta (depois de 22h), quando fica chato ligar para as pessoas, eu acabo me expressando melhor por e-mail mesmo. E também tem o lance da conversa descompromissada. Quantas pessoas você vê online no MSN altas horas da noite e jamais pensaria em ligar ou falar com elas caso elas não tivessem ali, onlines? Acho isso muito bom, já reforcei, renovei e cultivei várias amizades nesse esquema. Muito legal a tal da internet.
Algumas coisas, porém, eu não acho legais. E confesso, aqui, que sou uma das maiores presas e vítimas desse mundo virtual onde temos tempo, espaço e liberdade para desenvolvermos nossos raciocínios – corretos ou não – numa linha de pensamento em que dificilmente você acaba não sendo agressivo, arrogante, direto, excessivamente sarcástico e irritante.
Nesses últimos tempos, porém, acho que às vezes passo do ponto. Já me desentendi com vários amigos e amigas por conta de termos meio agressivos que eu usei ou que usaram comigo na internet. Também já fiquei extremamente magoado e sentido com coisas que me disseram com uma frieza siberiana pela web. Ou já me expressei de forma tão cruelmente precisa e verdadeira com outras pessoas pela internet que elas, tempos depois fui descobrir, ficaram magoadas comigo. Às vezes até mesmo a falta de resposta ou a expectativa que as pessoas têm em cima de uma resposta sua à altura daquele e-mail incomensurável que ela mandou são motivos de atrito.
Estamos vivendo um verdadeiro redirecionamento dos meios de comunicação. Telefone virou um detalhe. É mais um deles apenas. E longe de ser o principal. MSN, e-mail, redes virtuais (não sou fã delas, nem Orkut tenho), SMS, twiter (desse eu passo também), blogs, sites. Caralho. Muita nerdice. Não dá para lidar com tudo isso ao mesmo tempo.
Conheço gente que terminou relacionamento pelo MSN. Outros já se enrascaram porque deram resposta atravessada pelo SMS. Um simples “te ligo já” pode ser entendido de maneira diferente pelo destinatário da mensagem dependendo da TPM delas. Se alguém diz que tá com saudade de você (amigo, amiga, etc), é sinônimo de crise fraterno / familiar / sentimental você não responder na mesma moeda.
Não sei ainda lidar com minhas raivas cegas diante de provocações, de maus tratos e de grosserias que me falam - quer dizer, digitam. E reajo à altura imediatamente. O pior é que um mesmo fator é bom e ruim nesse novo ambiente comunicativo: o tempo que a gente tem para raciocinar. É bom por que podemos dar uma resposta elaborada, argumentar, pesquisar. Mas é uma merda porque a gente faz de qualquer provocação idiota ou resposta grosseira uma celeuma, uma chateação sem fim.
Parei para pensar, num exercício de autocrítica. Já briguei com um amigo que mora na Espanha, pelo e-mail. E fiz as pazes pelo MSN. Já esculachei pelo e-mail uma menina que conheci pelo blog, e-mail, telefone, MSN e depois pessoalmente. Já briguei com um outro amigo gayúcho várias vezes pelo e-mail. Uma outra que ficou me chateando pelo MSN outro dia eu peguei preguiça de conversar. Até mesmo telas de comentários num outro blog que tenho (http://www.bolaetudo.blogspot.com/) viraram espaço para trocar farpas e venenos do mais estrondoso furor – nesse caso, porém, como são 19 escritores, uma dinâmica mutante e o tema futebol como prato principal, é mais do que compreensível.
Um outro amigo aí, nessa onda de provocar e tratar amigos com palavrões e xingamentos, consegue me tirar do sério toda vez que eu tento estabelecer alguma tratativa de negócios que temos em comum. A maior crise de relacionamento com seres humanos que tive na minha vida foi decorrente de mal-entendido que tomou proporções estratosféricas via blog, e-mail, sms e recados ameaçadores no celular. Ou seja: as pessoas se afastaram de mim sem nem sequer conversar comigo. A briga foi virtual, mas o rancor, o ódio, as mágoas, tudo foi bem real. Todas as partes envolvidas sentiram.
Seria um doido varrido virtual? Estaria eu sempre errado? E todo mundo sempre certo? Acho que não. Nem tanto ao céu como nem tanto à terra. Acho que todo mundo passou, passa e ainda vai passar por isso. Mas uma lição que eu tenho tirado ou tentado tirar – porque não consigo ter frieza para aplicá-las sempre – é: se você tá com muita, muita raiva de uma resposta babaca que te deram, tente, pelo menos, não responder na hora. Vá tomar um café, vá beber água, feche a janela do e-mail ou do MSN ou do site. De repente você consegue ignorar isso e deixar quieto. Eu dificilmente tenho sucesso nessa missão, mas juro para vocês: vou tentar ser mais legal e menos irascível no mundo virtual. Porque isso tá me deixando insuportavelmente chato também no mundo real.
Sem mais para o momento.
Atualização das 22h39: acabei de ser atacado mais uma vez por um amigo meio implicante. Tomei uma soda limonada e comi um salgadinho antes de responder, por mais que meus dedos tivessem coçando para dar uma resposta à altura da agressão gratuita. E consegui responder, pelo menos, educadamente. Não é o ideal - da próxima vez, vou tentar simplesmente não responder. Mas é uma evolução.
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Felipe
às
9:57 PM
Mikhailov parecia catatônico. Os olhos de azul intenso faiscavam. Deixara o chá de lado e ficara absorto nos próprios pensamentos.
– Dimitri, fala comi...
– Me dê um minuto, por favor!
Tatiana sabia domar o amigo como ninguém. Mas tinha noção de limites. E aquele era o dele. Definitivamente. Serviu-se de um pouco mais de chá de cereja e escorou as costas no sofá acolchoado.
– Tânia. Qual era a cor do pó que encontraram nas narinas de Dona Oksana?
– Azul...
O rosto de Mikhailov estremeceu, e o corpo afundou no sofá vermelho do salão de chá. Para ele, só poderia ser a mesma substância que dois meses antes matara um velho espião russo. Nenhum perito do governo a identificara, apesar dos inúmeros testes. Mikhailov consumiu mais alguns minutos para decidir que não contaria nada aos superiores. Pelo menos por enquanto. Preferia aprofundar melhor a investigação para depois passar alguma informação ao comando militar russo. Eram tempos de Brezhnev¹. Tempos de Guerra Fria e de instabilidade interna e nos países dominados pelos regime comunista.
Discretamente, Mikhailov colocou a mão por dentro do casaco. Destravou a arma e levantou-se da mesa em um pulo. Puxou Tatiana pelo braço e disse:
– Venha comigo, Tânia. Problemas sérios à vista. Você dirige. Para a casa dos seus pais.
O casal entrou no carro de Mikhailov, um Moskvich 412 verde-escuro, e acelerou pelas ruas de Moscou. Mikhailov aproveitou para falar sobre o espião assassinado. Disse a Tatiana que o velho morrera enquanto investigava o desaparecimento de uma espécie de diário. Ninguém sabia ao certo os detalhes das anotações nem de quem seriam. Mas pareciam ser segredo de Estado.
– Tânia, seu pai tinha um cofre ou algo parecido?
– Não que eu saiba, Dimitri. Você sabe que a gente não se falava.
Por orientação de Mikhailov, Tatiana estacionou o veículo em uma rua adjacente à dos pais. Os dois desceram. O militar olhou para todos os lados antes de entrar no prédio, um belíssimo embora mal-conservado edifício dos anos 40. A fachada deixava os tijolos à vista e ostentava algo que lembrava colunas bizantinas. Dimitri tinha a sensação de que alguém o seguia, mas preferiu ignorar o instinto profissional.
Mikhailov e Tatiana entraram no apartamento por volta das 23h. O imóvel estava há cerca de um mês desabitado. Com o pai desaparecido e a mãe na UTI, nem mesmo ela voltara ali. Fazia, aliás, anos que Tatiana não pisava naquele lugar. Ela reparou com ternura que a decoração permanecia a mesma. Móveis pesados de madeira escura e sofás e poltronas de estampa florida, agora desgastada, permaneciam distribuídos da mesma forma nos quatro cômodos do apartamento.
Mikhailov perguntou pelo escritório. Tatiana apontou uma porta espessa de madeira trabalhada. Estava trancada. Mikhailov deu-lhe um pontapé, sem perguntar nada à herdeira. Tatiana evitou protestos, mas não deixou escapar a oportunidade:
– Você poderia ter me pedido a chave. Está aqui comigo. – disse ela, com um sorriso no canto da boca.
Mikhailov ficou envergonhado, mas não deu ouvidos à provocação da amiga. Deu uma olhada em volta do ambiente. Eram livros e mais livros, de vários assuntos e tamanhos. Também reparou na mesa do dono da casa, perfeitamente organizada. Em cima, uma agenda de capa preta, uma caneta dourada e um peso de papel feito de vidro. Em silêncio, mexeu em quadros, tirou livros do lugar e usou a bota pesada para dar pancadas no chão de madeira. Bem no centro do cômodo, ouviu o que queria: um estampido oco.
– Eu sabia. O velho Andrei não deixaria de ter um cofre em casa. É o que pateticamente fazem todos os antigos membros da KGB.
Aquelas três letras
instantaneamente fizeram o ar sair dos pulmões de Tatiana. Era chocante ouvir o nome do pai associado à sigla da maior agência de informação e segurança do mundo, influente internacionalmente a partir dos anos 1950.
– O quê? Papai era da KGB? Por que eu nunca soube, Dimitri?
– Depois eu te explico. Agora, a gente precisa descobrir uma sequência de números capaz de abrir esse cofre aqui – apontou Mikhailov, ao levantar o tapete do escritório e retirar seis pedaços de madeira do piso.
Tatiana respirou fundo. Estava confusa, com a cabeça à deriva em um turbilhão de memórias e lembranças. Agora, sim, algumas atitudes do pai faziam sentido. Mesmo assim, se concentrou:
– Deixa eu dar uma olhada, Dimitri.
– Precisamos de quantos números, Tânia?
– Não sou uma especialista no assunto. você sabe. Mas... Talvez precisemos de seis números.
Tatiana arriscou várias combinações. Tentou aniversários, datas importantes da Revolução Russa, mas nada deu certo.
– Qual era a palavra que Dona Oksana repetiu tantas vezes na UTI? – pensou alto, Mikhailov.
– Temniy. Por quê?
– Me dê um pedaço de papel.
Tatiana rasgou uma folha da agenda do pai e a alcançou a Mikhailov junto com a caneta dourada. O militar escreveu as seis letras no papel, rabiscou mais alguma coisa e mostrou a Tatiana.
T = 20
E = 05
M = 13
N = 14
I = 09
Y = 25
– Não entendo, Dimitri.
– É aparentemente simples, Tânia, apesar de todo o conhecimento matemático do teu pai. Cada letra corresponde numericamente à posição dela no alfabeto ocidental, se eu estiver certo. Por alguma razão ele contou isso à sua mãe.
Tatiana tomou o pedaço de papel de Mikhailov e testou os números no segredo do cofre. Gotas de suor escorriam pelo lindo rosto da moça a partir dos cabelos escuros e encaracolados. Ao fim do sexto número, a caixa de metal deixou escapar um estalo. Estava destravada. Mikhailov tomou a frente e pegou a única coisa que jazia no fundo do esconderijo. Não havia joias nem dinheiro. Mas um livro. Ou melhor, um diário.
Sob o olhar atento e incrédulo de Tatiana, Mikhailov leu as iniciais gravadas no pequeno livro de capa de couro preta. J.S. Não precisou de muito esforço para entender que se tratavam de Josef Stalin. Mikhailov e Tatiana sentaram-se lado a lado no piso de madeira do escritório de Andrei Miller-Koeckert e se dedicaram à leitura do material. Os batimentos cardíacos de aceleravam a cada linha escrita em letras elegantes e discursivas.
Uma passada de olhos logo nas quatro primeiras páginas os deixou chocados. Entendiam, naquele instante, o valor do diário e o perigo que ele representava para os alicerces do comunismo no mundo. Se caíssem em mãos norte-americanas, representaria a desgraça para o equilíbrio de forças da Guerra Fria. E uma coisa era certa: a balança certamente penderia para a bandeira listrada em vermelho e branco.
Antes que pudessem continuar a leitura, um homem corpulento e barbudo, de olhar agressivo e frio, apareceu na porta do cômodo. Deu três batidas no pedaço de madeira, o suficiente para assustar de quase morte o casal de militares. Mikhailov e Tatiana ergueram os corpos de supetão.
– Quem é você? – reagiu Tatiana.
– O anjo da guarda. Vamos, me dêem esse diário. A brincadeira de vocês acaba por aqui – disse, sereno e tranquilo, o vulto parado na entrada do escritório, ao mesmo tempo em que apontava uma AK-47 em direção ao casal.
– De que lado você está? – adiantou-se Mikhailov.
– Do mesmo lado de vocês, caso me entreguem o diário. Mas uma coisa eu posso te dizer, caro Dimitri Mikhailov, você não deveria estar aqui – explicou o intruso.
Tatiana interferiu na conversa. Estava ansiosa por respostas.
– Sei que você é um de nós, camarada. Mas quero e preciso saber do meu pai. E o que houve com a minha mãe?
– Esqueça, Tatiana. Seus pais estão mortos. E até agora não sabemos como esse diário foi parar nos domínios do seu pai, que há anos estava aposentado. Provavelmente, alguma aluninha gostosa dele o encontrou perdido em casa e entregou a ele como uma espécie de recompensa pelos favores sexuais. Seu pai, aliás, não era apenas um bom espião, sabia? Soube morrer com dignidade. Até agora não entendo por que ele não quis dizer onde estava essa porcaria.
Tatiana perdeu o equilíbrio diante de tais palavras. Em poucas frases, o sórdido visitante fora capaz de falar sobre a morte dos pais da maneira mais desrespeitosa e nojenta possível. Era demais para uma filha.
– Olha aqui, seu filho da puta. Você não pode entrar na minha casa e...
O espectro a cortou secamente, sem desviar os olhos da bela russa:
– Tatiana, entendo que você esteja com raiva. Mas as coisas são como são. Se seus pais tivessem destruído o diário, eu não teria que acabar com eles nem acabar com vocês, agora, neste momento. Se os dois fossem inteligentes, me entregariam esse pequeno livro. É a vida de vocês que está em jogo, apesar de perceber que já têm informações demais... – sentenciou o sujeito, com ar
es de ameaça.
Mikhailov, confuso com a presença do estranho, teve poucos segundos para pesar o passado, o presente e o futuro. Amava o regime. Amava os ideais de Vladimir Ilychi Ulianov, o Lênin. Mas não nutria o mínimo respeito por Josef Stalin e aqueles que o sucediam no poder. Tinha raiva. E da mesma forma se dirigiu ao colega de corporação:
– Sim, sabemos de tudo, meu caro. Mas acredito que, se Josef Stalin era homossexual...
Um estampido aterrorizante tomou conta do escritório da família Miller-Koeckert antes que Mikhailov pudesse terminar a frase. O intruso frio e insano só teve tempo de arregalar os olhos. Um fio de sangue escorreu pela testa do agente da KGB, e o corpo desabou sobre o piso de madeira. O invasor estava morto. Pelas mãos de Tatiana, que escondia uma arma por debaixo do casaco.
– Vamos embora, Tânia. Antes que seja tarde.
– Meu Deus, por que eu fiz isso? Estamos perdidos, Dimitri! Perdidos!
Em menos de seis horas, os dois militares se acomodavam dentro de um dos vagões do principal trem de carga russo, prestes a alcançar a Hungria.
– Dimitri, isso tudo é uma loucura... 
– Eu sei, Tânia, eu sei.
– Será que em algum dia poderemos voltar ao nosso país?
– Talvez em algum outono menos vermelho – encerrou Mikhailov, a balançar, confiante, o diário de Josef Stalin.
Em breve o mundo descobriria os segredos de um dos maiores ditadores da história da humanidade.
_____________
¹ N.A.: Leonid Ilyich Brezhnev, sucessor de Nikita Khrushchev como secretário geral do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Também chefe de estado por dois períodos: 1960-64 e 1977-82.
Publicado por
Guilherme Zé Gotinha
às
7:05 AM


Publicado por
Guilherme Zé Gotinha
às
7:04 AM
Não havia espaço para o medo. Entorpecido pela coragem, o militar Dimitri Mikhailov avançou o cavalo sobre o bispo inimigo e gritou:
– Xeque!
O adversário de tabuleiro tinha sobrenome famoso. Era um mestre do xadrez, acostumado às intempéries dos menos experientes. Vassili Medved descansou o queixo sobre a mão esquerda e se entregou aos próprios pensamentos por cerca 10 minutos. O calor do início do outono russo incomodava as ideias, e a sinfonia urbana ao redor do principal parque de Moscou tampouco ajudava na concentração do velho sociólogo, campeão mundial de xadrez na década de 1950. Medved, enfim, protegeu o rei negro com o auxílio de dois peões e um cavalo e, em quatro jogadas, decretou, sereno:
– Xeque-mate.
Mikhailov reconheceu a genialidade do oponente com um cumprimento resignado de mão. Esperou Medved se levantar, os curiosos se afastarem e ficou sozinho a contemplar o tabuleiro montado sobre a mesa de concreto. Era quase fim de tarde, mas o sol se mantinha firme no céu. Mirou as peças, relembrou as últimas jogadas do adversário e ficou imaginando em que momento teria perdido a concentração e, consequentemente, a partida. Só retornou à realidade no momento em que, à esquerda, um pouco ao fundo, ouviu as batidas do salto alto de uma mulher.
– Há quanto tempo você está por aí, me olhando? – perguntou Mikhailov, sem tirar os olhos das peças restantes.
– O suficiente para te fazer perder.
Tatiana Miller-Koeckert e Dimitri Mikhailov se conheciam desde os tempos da Academia Militar Russa. Foram colegas, parceiros, amigos e confidentes. Oito anos depois de formados, em 1967, seguiam caminhos
diferentes dentro da instituição. A belíssima mulher, de cabelos negros e encaracolados, se limitara ao serviço interno. Tinha talento, mas era incapaz de pegar em uma arma. Ele, pelo contrário. Era um dos melhores atiradores da turma. Também um homem fechado e rude, apesar dos 34 anos. O temperamento lhe rendeu pouquíssimos amigos na academia. Mas o ajudou a se especializar em serviços de espionagem. Amava as tarefas mais complicadas.
Os dois não se viam havia um ano e meio. Mesmo assim, a relação construída de forma passional e intensa os unia e os mantinha fiéis, apesar da distância e das diferenças. Essas não eram poucas. Tatiana parecia ser a única capaz de decifrá-lo. Mas odiava os destemperos de Mikhailov. Já ele não tinha a menor paciência com o que definia como “as frescuras de Tatiana”. Em épocas de Guerra Fria, no entanto, toda característica pessoal servia de alguma forma ao bem-estar do país.
– O que você quer? – rosnou Mikhailov, enquanto colocava o casaco por cima da camisa escura.
– Em primeiro lugar, educação. Mas me contento com um olhar.
– Desculpe, Tânia¹. Não perdia daquele velho salafrário havia cinco partidas...
– Entendo. Mas agora preciso de você. Mais do que nunca – disse ela, sem disfarçar as lágrimas.
– O que houve?
– Meu pai, Dimitri. Desapareceu há 45 dias.
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Guilherme Zé Gotinha
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7:04 AM