sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Preparem-se


A partir das 7h04 de segunda-feira, o blog mais amado do Brasil presenteará os milhões de leitores ao redor do universo com uma publicação repleta de emoção, aventura e mistério. A história se passa na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) dos anos 60. É tempo de Guerra Fria. Época marcada pela influência da KGB, da espionagem e da contra-informação. Neste cenário, Dimitri Mikhailov e Tatiana Miller-Koeckert, antigos colegas da Academia Militar Russa, se deparam com uma trama capaz de abalar os alicerces do equilíbrio mundial.

Em uma experiência inédita no Totalmente Sem-Noção, domínio virtual carinhosamente chamado de TSN, dois autores assinam a produção. Guilherme G., popularmente conhecido como Goutas, e a jovem escritora Maniunka Zakharova levaram duas semanas para construir, editar e finalizar o texto. O resultado será conhecido em três dias, quando será colocada no ar a primeira das três partes da história. Boa leitura!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Frase do Dia


"Nem o inferno tem a fúria de uma mulher rejeitada"
William Congreve (1670-1729)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O retrato falado


Celestiano era um típico trabalhador brasileiro. Acordava cedo, ralava muito, ganhava pouco. Morava meio longe do centro da cidade, mas pertinho de uma estação do metrô. A minhoca de metal, como que por destino, sempre fora o principal meio de transporte do merendeiro. O rapaz, de 28 anos, não tinha maiores reservas quanto a vida pessoal. Era casado, comunicativo e se dava bem com tudo mundo. Só tinha uma obsessão, que fazia questão de esconder de todos: era um louco apaixonado por pezinhos femininos.

O lugar predileto de Celestiano para observações era justamente o metrô. Examinava as potencialidades alheias nos caminhos de ida e volta para casa. Só que a insanidade pelos pezinhos da mulherada - odiava aquelas que não cuidavam dos dedinhos com extrema dedicação - beirava a esquisitice. O merendeiro não perdia tempo olhando para o rosto da mulherada. Sentava-se perto das portas e mantinha sempre a cabeça voltada para baixo. Fingia concentração em leituras de jornais e de livros ou em joguinhos de celular. Mas, na verdade, estava mais atento do que uma ave de rapina. Sempre que podia fotografava discretamente os pezinhos mais bonitos. Depois, passava tudo para o computador. No último levantamento, contou 392 espécimes registrados. A mulher dele que não descobrisse...

Para mascarar a neurose, Celestiano se convencia de que era um caçador de talentos, Às vezes um cientista. Na cabeça insana do sujeito, o que catalogava, um dia, quem sabe, serviria até para o bem para a humanidade. Acreditava que a observação cuidadosa dos formatos dos dedos das mulheres poderia revelar traços de personalidade e futuras doenças. A bem da verdade, era uma forma de o merendeiro aliviar o peso que muitas vezes sentia ao admitir a si mesmo que não passava de um depravado. Afinal, sentia um tesão maluco antes de sair de casa ou do trabalho por conta da expectativa de ver novos pezinhos no metrô. Se precisasse confessar tal desejo a alguém, sentiria muita vergonha.

Há cerca de duas semanas, um episódio tirou o equilíbrio criado no sensível universo de Celestiano. Encontrava-se mais uma vez acomodado a fingir a leitura de um livro no momento em que, perto de uma estação, um par de pezinhos graciosos, repletos de dedinhos cadenciados, passou em frente a ele com a rapidez de um furacão. Nem dera tempo de tirar uma foto. Para piorar, um gordalhão ainda parou em frente à duplinha de beleza única. Em segundos, o trem parou, as portas se abriram e a mocinha saiu em disparada. Deveria estar atrasada para algum compromisso, pensou o quase trintão. A escapulida, no entanto, provocou uma crise de ansiedade. Precisava rever aqueles pés. E isso que nem sequer conhecia a cara da dona deles.
Celestiano elaborou um plano. Nas próximas duas semanas, repetiria o horário e o vagão do encontro com os pezinhos fugitivos. Teria de ser ao fim da tarde, às 18h14. Ele sabia da dificuldade. Afinal, poderia ser que a moça estivesse a usar sapatos fechados no dia do possível reencontro. Mesmo assim, "pelo bem de todos", orou . Por 10 dias úteis, mergulhou na tarefa de tentar rever tais exemplares tão lindos e generosos. Nada... Talvez a mulher tivesse usado o metrô naquele horário por conta de um compromisso inusitado.

Deu início, então, ao plano B. Tinha noção do extremo perigo que corria, mas resolveu encará-lo. Mesmo colocando em risco o casamento. Celestiano usou a boa memória e um certo talento de desenhista para fazer um retrato falado dos dois desaparecidos. Rabiscou os pezinhos, atento a detalhes como uma tatuagem de borboleta e uma pequeníssima falha no esmalte vermelho do terceiro dedinho do pé esquerdo. Terminou, retocou e concluiu: o desenho era o retrato fidedigno da duplinha sumida. Em cima da imagem, escreveu, em letras garrafais: Procura-se. No rodapé, deixou o próprio número do telefone celular para contato. Finalmente, escaneou a obra-prima, fez várias cópias e colou nas paredes de todas as estações da cidade.

Celestiano percebeu o vacilo logo nas primeiras horas de exposição dos cartazes. Foram no mínimo 30 ligações seguidas. De engraçadinhos a babacas, recebeu manifestações de todos os tipos. Gozações, sacanagens, esporros. Passou a tarde quase sem poder trabalhar. Uma semana depois, continuava a receber chamadas das mais diversas. Em vez de ficar indignado, acabou triste. Até que, em um momento em que não tinha mais esperanças, recebeu a tão esperada ligação, identificada como de um número confidencial:

– Você é o tarado dos pés? – perguntou rispidamente uma voz feminina.

– Er... Sim.

– Olha aqui. Aqueles pés do cartazes são meus, apesar daquela borboleta ridícula que você desenhou apenas lembrar a minha. Pensei vários dias se ligava ou não. Queria só dizer que você é completamente maluco. Vou arrancar todos os cartazes. Ai de você se os pregar de novo. Vai se arrepender, pode ter certeza, seu MALUCO! – gritou a moça, pouco antes de desligar.

Celestiano derramou uma lágrima do outro lado da linha. A reação agressiva da dona de pezinhos tão lindos o assustara. Nunca mais colocou cartazes nem fizera nada parecido. Ficara resignado. Mas quem anda de metrô pela cidade pode reparar em um sujeito com cara de louco sentado ao lado das portas do terceiro vagão dos trens das 5h50 e das 18h05. O merendeiro se senta ali, de celular, livro ou jornal na mão, a viver da esperança de um dia reencontrar seus dois grandes e únicos amores.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A história de Bertrand

Bertrand era solteiro, lascivo e vadio. Comia todas as mulheres de Natal. Bon vivant, tinha grandes amigos, participava de grandes farras. Era daqueles companheiros leais, com o qual todos contavam nas horas difíceis. Era o melhor amigo de cinco em cada dez pessoas de seu relacionamento. Ele era o cara.

Já passava dos 33 anos e continuava solteiro. Vida mundana. Era vizinho de um de seus maiores amigos, se não o maior. Humberto era casado há dois anos. Isolda, uma linda morena capixaba. Esposa atenciosa. Humberto era advogado bem sucedido. Boa gente. Bertrand sempre foi íntimo do casal. Os freqüentava periodicamente. Saíam para jantar com amigos. Quando nosso protagonista arrumava uma namorada, os dois vizinhos eram os primeiros a conhecer a moça.

Certa feita, Humberto teve de viajar a trabalho. Natal já não era uma cidade tranqüila. Sempre que o marido viajava, Isolda ficava na casa da mãe. Mas, naquela semana, os pais da moça estavam fora. Férias. Sem alternativa, Humberto pediu ao grande amigo para posar na casa dele. Seria só uma noite. Isolda ficaria mais segura.

Esse pedido mudou a vida dos três. Bertrand chegou às 21h32 à casa de Isolda. Ela o esperava com um jantarzinho caseiro pronto. Era o mínimo que poderia oferecer por tirar o rapaz de casa apenas para lhe fazer companhia e lhe dar a sensação de segurança. Conversaram com Humberto ao telefone, no viva voz. Brincaram com a situação.

O jantar terminou com um belo Dom José para arrematar. Já passava das 23h. Zapeavam pela televisão e terminaram no Multishow. Um show de Robin Willians era transmitido. O britânico era paixão musical de ambos. O Dom José levou ao Hennessy, que levou a um Couvoisier. E ambos se inebriaram.

Era hora de dormir. Romantismo no ar. Mas só poderia ser coisa da cabeça de um dos dois, oras. Imagine. Humberto e Bertrand eram melhores amigos. Isso é maluquice! O rapaz vestiu sua tradicional calça de pijama xadrez, charmosíssima, elogiada pelas mulheres. Isolda trajou o tradicional baby doll dos dias quentes de Natal. Ficara deliciosa.

Encontraram-se na porta do banheiro. Ele estava a sair, escova de dentes à mão. Ela tentava entrar, cremes faciais à tira colo. Olharam-se fixamente. E atracaram-se. Uma noite louca de tesão e sexo seguida de uma manhã de enorme ressaca moral. Uma noite e nada mais. Humberto jamais saberia. Não valeria à pena estragar uma história de amizade por causa de um erro de percurso. A saída era óbvia e clarividente.

Passaram-se dois meses. Isolda, então, procurou Bertrand. Era uma tarde calorenta de sábado. Humberto dormia pós-almoço quando a moça tocou a campainha do vizinho. Precisamos conversar urgente. Tem de ser agora. Sentaram-se à sala e Isolda não mediu as palavras.

- Estou grávida. E é seu. Eu tenho absoluta certeza.

Silêncio sepulcral. Será mesmo? Como você pode saber? Não tinha erro. Isolda fizera as contas. Nas semanas anterior e posterior à noite fatídica, não transara com o marido. Estava na oitava semana. Só pode ser seu.

Bertrand teve uma reação inesperada. Sobretudo a um vadio lascivo. Abraçou Isolda e prometeu lhe dar todo o apoio do mundo. Gostaria de criar o bebê. Se responsabilizar por ele. Falou até mesmo, sem tanta convicção, em casamento.

Isolda só queria uma coisa: sigilo.

- Amo o meu marido e com ele quero viver minha vida. Não é justo que eu o perca por uma noite, por um erro. Quero que você não conte nada a ninguém, jamais. Vou ter o filho e registrá-lo como se fosse do Humberto. Ele jamais descobrirá. Nunca fará as contas das semanas. E você é muito nosso amigo, poderá estar sempre por perto.

Bertrand pediu dois dias para pensar em tudo aquilo. Terminada a reflexão, chamou Isolda para conversar.

- Eu aceito. Mas com uma condição. Quero ser o padrinho da criança. Preciso de um motivo para tratá-la de uma forma diferenciada das outras pessoas. Um motivo para dar uma atenção especial a ela, fora do comum, acima dos padrões. E é acima dos padrões que vou tratar meu filho.

Isolda aceitou na hora. Cristiane, a bebezinha nascida sete meses mais tarde, seria afilhada de Bertrand. Assim foi feito. O padrinho acompanhou e chorou ao lado de Humberto o nascimento da menina, dentro da sala de parto. Comprou a primeira roupinha da menininha. Tratou de cuidar do bebê desde os primeiros dias.

Humberto ficava satisfeito e emocionado com o envolvimento do melhor amigo no cuidado da filha. Prometera o mesmo carinho aos futuros rebentos de Bertrand, quando viessem.

Seis anos mais tarde, Bertrand se mudou para Brasília. A carreira de administrador evoluiu. Na capital, se apaixonou perdidamente e se casou. Tem hoje três filhos. A atual esposa é a única pessoa na vida para quem Bertrand contou a história de Cristiane. A “afilhada”, por sinal, costuma passar alguns dias de férias com o “padrinho”, em Brasília. Isso quando não viaja de férias com Bertrand e os irmãos que nem sabe que são irmãos. Humberto e Isolda tiveram mais dois filhos. Em alguns réveillons, as duas famílias se reúnem e abraçam-se na virada do ano. Estouram Chandons juntos. A ligação de todos é fortíssima. Não poderia ser diferente.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Lição de vida: uma análise sobre o discurso (genial) de Fernando Vanucci

Amigos, quem dentre vossas almas não viu, nessa leva de vídeos com supostas bobagens do You Tube que nos é oferecida todos os dias, um dos maiores clássicos do audiovisual na internet, em que o protagonista é o nosso folclórico Fernando Vanucci? Pois bem, eu tenho para mim que esta é uma obra de referência, uma espécie de filosofia de vida. Um discurso de ensinamentos para toda o sempre. De doutrinas. Uma visão, uma orientação sobre como devemos ver nossa presença neste planeta. Em todo e qualquer momento de nossa breve existência. Várias mensagens são transmitidas na fala de nosso nobre colega jornalista, em rompante de desabafo, de pura sinceridade, no momento em que este vídeo foi gravado – mais precisamente, ao vivo, instantes depois da Itália ter conquistado a Copa do Mundo de 2006 em cima da França.

A mensagem de Vanucci é tão recheada de verdades que merece ser esmiuçada trecho a trecho. É fundamental que você assista e ouça este vídeo para que a análise sobre tão valioso discurso seja melhor compreendida e, assim, mais facilmente adotada para que possamos todos viver num mundo melhor.



JORNALISMO DE VANGUARDA

“Alô você, Alô Brasil, chegaaaando, é você mesmo.... Itália campeã mundial divudibol! Com todos os méritos, COM TODAS AS JUSTIÇAS”

Vemos aqui um exemplo de new journalism, em que o locutor não se restringe a identificar a notícia ("Itália campeã mundial divudibol"), como também emite um juízo de valor ("com todos os méritos, com todas as justiças") de maneira tão sutil que isto não compromete de forma alguma a informação principal. Poucos fazem isso com a sobriedade e genialidade de Vanucci.

RESISTÊNCIA E SINCERIDADE


é claro, É CLARO que eu também estou inconformado com (o) você. Porque poderia ser hoje... o Brasil... comemorando... o título..........”

Neste trecho, Vanucci é contundente ao afirmar que não devemos aceitar as coisas ruins simplesmente porque elas aconteceram desta forma. É preciso deixar clara sempre nossa indignação com algo que nos aflige. Sinceridade sempre.

AUTO-CRÍTICA E AUTO-ANÁLISE


“Seeeeeeeeee..... Se é fácil perder, perder do jeito que nós perdemos, HEIN?! Ainda é MUITOBAIS difícil, mas MUIDOBAIDIFICIL MEESMO. É difícil perder, sabendo queeeeeee A GENTE NÃO PODE ESQUECER, é difícil esquecer isso.”

É preciso aprender com nossos próprios erros. E Fernando Vanucci, em sua sempre sábia fala, nos leva a uma análise geral de uma situação desastrosa. Por que erramos? Como erramos? O que devemos apreender de nossas falhas?

SERENIDADE, REFLEXÃO E LIÇÕES DO PASSADO


“Tempo, nós vamos ter pa esquecer, sem dúvida. ESTA COPA DO MUNDO DE 2006. Mais 4 anos no mínimo ela vai ficar aqui com a gente, e talvez para sempre. 1950 que jamais foi esquecida, pelo grande favoritismo do Brasil e pelo desastre na final no Maracanã."

Vanucci nos lembra da importância de analisarmos nossas vidas com calma e sobriedade. Com tranqüilidade para que equívocos previsíveis não se repitam. O locutor da Rede TV! também realça a importância de caminharmos para frente sem jamais esquecermos de nossos erros do passado.

TODA AÇÃO GERA UMA CONSEQUÊNCIA: LIÇÃO DE RESPONSABILIDADE

“Agora, que os craques decidiram não jogar é verdade, MAS MUITA VERDADE, não teve espetáculo e o resultado PODERIA SER o que aconteceu exatamente”

Ao dissecar o problema central em questão (“os craques decidiram não jogar”), Vanucci nos lembra com muita maturidade e sobriedade sobre o que acontece em decorrência desta problemática (“o resultado PODERIA SER o que aconteceu exatamente”). Fica aí uma lição para que não sejamos inconseqüentes em nossos atos. Para que ajamos sempre com a noção clara da conseqüências de nossas atitudes mesquinhas.

HUMILDADE E RECONHECIMENTO

“Agora é hora de REVERENCIAR CANNAVARO, TOTTI, ZAMBROTTA, AAAAAAAA ITÁLIA CAMPEÃ MUNDIAL.”

A vida não é perfeita. Nem sempre podemos ganhar. Nem sempre perdemos. Elis Regina já cantava estes versos: “aprendendo a jogar”. E Vanucci é bastante enfático neste ponto de seu discurso: é preciso valorizar os feitos e qualidades dos outros. Ter a humildade de reconhecer as virtudes do próximo. Congratular quem é hábil e capaz em sua função. Sem nenhuma vergonha.

PLANEJAMENTO, PREPARAÇÃO E DESPRENDIMENTO AOS CONCEITOS RETRÓGRADOS

“PRA NÓS, é hora de pensar no futuro, O FUTURO, É HORA DA GENTE REFORMULAR, REFORMULAAAAR. É hora da gente MUDAAAAAAAAR......... OU....... MUDAR DE VEZ.”

Em poucas palavras, Fernando Vanucci nos brinda com uma filosofia positivista, arrojada e rompedora de paradigmas. Não devemos nos prender a conceitos, idéias ou situações a que estamos acostumados somente porque elas são cômodas. Temos de mudar (“OU...... MUDAR DE VEZ”). Nos prepararmos para novos desafios (“é hora de pensar no futuro, O FUTURO”). Romper com tudo o que fazíamos e que nos deixa hoje apenas em uma situação medíocre (“REFORMULAR, REFORMULAAAA”).

TRABALHO EM GRUPO, MENSAGEM REFORÇADA, CONFIANÇA E CAUTELA

“Vamos colocar o castelo de areia ABAIXO, ABAIXO, e reiniciar uma construção sólida para 2010, COPA 2010” ÁFRICA DO SUL TAMBÉM NÃO É ASSIM TÃO LONGE, É LOGO ALI!!!” Caso contrário nós seremos comiiiiiidas... de leões.. (CORTE DA REDETV!)

Mesmo diante de um cenário negativo e nada animador, Vanucci nos incentiva a não deixar a peteca cair. Ele nos estimula a – em grupo, reparem a primeira pessoa do plural na fala (“Vamos colocar...”) – ser ousados. A esquecer tudo o que foi feito de forma equivocada. Sem hesitarmos (ABAIXO, ABAIXO). Vanucci vai além. Ele não se deixa vencer nem mesmo pela distância física e temporal de nossos próximos desafios (“ÁFRICA DO SUL TAMBÉM NÃO É ASSIM TÃO LONGE, É LOGO ALI!!!”). Mas sem nunca nos deixar esquecer dos percalços e riscos que corremos em nossa jornada. (“Caso contrário nós seremos comiiiiidas de leões”). Um verdadeiro ensinamento não só para esta, mas para muitas gerações futuras.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Meus Deus, que cidade linda!"


Antenor Azevedo tinha motivos de sobra para comemorar. Fora aprovado em concurso público para um cargo de técnico no Ministério da Fazenda, em Brasília. Em breve, trocaria o interior do Paraná pelo Distrito Federal. Além de melhorar o salário e a qualidade de vida, ia ter a chance de conhecer e morar na cidade cantada por Renato Russo. Antenor tinha 29 anos. Era fã incondicional do líder da Legião Urbana desde a adolescência, quando ouviu pela primeira vez Faroeste Caboclo. Enlouquecera desde então.

Ficava horas imaginando que mundo era aquele criado pelo ídolo. Estranhava nomes como Asa Norte, Ceilândia, Taguatinga, Planaltina... E dedicava parte do tempo para ilustrar em quadrinhos e fazer anotações a partir da poesia de Renato Manfredini Júnior. Quando soube do resultado do concurso, Antenor avisou: “Mãe, tô me mudando para Brasília! Vou conhecer a terra do Renato, a senhora acredita???”. Dona Genoveva ficava com o coração apertado, mas sabia que a inteligência do filho o levaria longe. Tinha certeza que o primogênito merecia tal conquista. E melhor ainda se iria para a cidade na qual sempre quis conhecer.

Antenor deveria se apresentar no novo emprego em fevereiro. Mas se programou para chegar dois meses antes, na época das festas de fim de ano. Dizia que precisava de tempo para escolher um apartamento legal e perto do trabalho – nas primeiras semanas ficaria na casa de uns primos. Mas todos sabiam que ele estava mais do que ansioso. Queria enxergar e tocar naquilo que ouvira por toda a juventude. “Mãe, vou de ônibus, viu? Quero saber o porquê de o João (o de Santo Cristo, de tão íntimo) gritar ‘Meu Deus, que cidade linda!’ ao ver a Esplanada dos Ministérios enfeitada pelas luzes de Natal!”. Dona Genoveva, às vezes, não sabia como lidar com a empolgação de Antenor. Preferia, assim, vibrar junto com o filho. Queria curtir a felicidade dele.

Em meados de dezembro, Antenor deixou o Paraná em direção ao Planalto Central do Brasil. Nem dormiu ao longo da viagem. Era excitação demais para descansar o corpo e os olhos. Parecia um menino, de tão radiante. Conversou com todos os passageiros do ônibus. Todos sabiam de cor e salteado a loucura de Antenor pela trupe do Renato Russo. Alguns mais solidários cantavam com ele as canções preferidas. Geração Coca-Cola, Tempo Perdido, Faroeste Cabloco, Eu Sei, Pais e Filhos... Terminava uma e logo engatava outra. Transformou a viagem em excursão de segundo grau.

O futuro funcionário do governo federal só ficou em silêncio ao avançar do ônibus sobre o Eixão Sul. Pronto. Estava encantado com os prédios (“parecem caixas de sapato, são todos iguaizinhos, você não acha?”), o verde abundante e a avenida de sete faixas, três de cada lado e uma central. Em quatro, cinco minutos, estava diante da Rodoviária do Plano Piloto. À direita, enxergou, finalmente, o que só a imaginação até então lhe trouxera: a Esplanada dos Ministérios, em concreto e ferro. “Meu Deus, Meu Deus, gente, que cidade lindaaaa!”, parafraseou João de Santo Cristo, aquele que não tinha medo. Antenor Azevedo chorou. Chorou como criança.

Antenor viveu intensamente a capital federal até o primeiro dia de trabalho. As impressões, as admirações e as estranhezas - fora difícil assimilar os números, o trânsito, a falta de nome nas ruas - pararam em cartas e mais cartas escritas para a mãe. Disse que fora ao Parque da Cidade, só por causa de Eduardo e Mônica – coitado, ainda adolescente, demorara meses para descobrir que o “camelo” do Eduardo não passava de uma bicicleta. Contou à Dona Genoveva que visitou o Bloco B da 303 Sul, onde morou Renato Manfredini Júnior e família. Explicou à mãe as diferenças entre o Plano Piloto e as cidades-satélites, “que nem mais se chamam assim, mãe! Agora é região administrativa, sabia?”.

O paranaense também expandiu os conhecimentos sobre Brasília. Visitou museus, prédios públicos e monumentos. Descobriu Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Marx. Ficou maravilhado com o Teatro Nacional e as obras do artista plástico Athos Bulcão, do qual nunca ouvira falar ("uma injustiça!"). Andou de ônibus (“mãe, o transporte público daqui é horrível, mas tudo bem, a gente se vira”). Pegou a linha 106, a clássica Grande Circular, e rodou e rodou a Asa Sul e a Asa Norte. No fim das contas, conhecia mais da cidade do que muito brasiliense, tão acostumado ao carro. E prometeu à mãe, que, tão logo alugasse “um apê no Sudoeste Econômico”, a traria para fazer “um city tour de primeira”. Antenor Azevedo, o filho da Dona Genoveva, estava realizado. Morava na terra adotada pelo carioca Renato Russo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A fantástica fábrica de loucuras – parte II


Tenho me dedicado nas últimas semanas a organizar no iTunes as milhares de músicas gravadas no computador de casa. Não é tarefa fácil, apesar de o programa da Apple se mostrar deveras eficiente. Tem de ter saco para dar uma filtrada nas canções e, a partir de então, montar as playlists. A minha preferida, que tem consumido mais horas de dedicação, é a que reúne os principais representantes do rock n´n roll e do heavy metal mundial.

Pois bem, assim que passei a minha discoteca do metal, do progressivo, do melódico etc. para a nova playlist, descobri um problema, ainda em busca de solução. Não por idiotice digital, mas por falta de tempo mesmo. O iTunes oferece uma lista gigante de informações para uma única música. Nome, duração, artista, classificação do gênero e até quantidade de execuções. A minha “dificuldade” surgiu no quesito álbum.

Talvez metade das canções gravadas no PC não tinha o nome do disco gravado na memória do arquivo MP3. Como odeio espaços em branco, aos poucos preencho esses vazios dos títulos. Pode parecer meio sacal, mas é um exercício que tem proporcionado prazer. Além de muita informação, claro. Meu principal parceiro de trabalho tem sido o Google. Jogo ali os nomes do grupo e da música e mergulho na pesquisa até achar o álbum correspondente à canção. Privilegio sempre a primeira gravação.

Tal busca tem me oferecido agradáveis surpresas. Algumas informações também chamam a atenção pelos detalhes das gravações de discos clássicos ou até por erros históricos – eles aparecem inclusive nos sites especializados em download. Para não torrar muito o saco (é muita história para contar), separei algumas curiosidades encontradas e confirmadas ao longo da pesquisa.

Engraçado, por exemplo, descobrir a primeira banda da Janis Joplin. O nome? Big Brother and the Holding Company. Ela gravou dois álbuns com o grupo loucamente psicodélico (a capa de Cheap Thrills é sensacional), nos quais estão clássicos como Down On Me, Piece Of My Heart e Summertime. Janis também se destacou com a banda Full Tilt Boogie Band, com quem lançou Pearl, seis meses antes de morrer por overdose de heroína, em 1970, aos 27 anos. Coisdilouco. Ou dilouca.

Outra da Janis Lynn Joplin. Mas, desta vez, não por culpa dela. Não sei como, mas aparece em tudo quanto é canto da grande rede que a canção Sun Of A Preacher Man é dela ou cantada por ela. Talvez até tenha gravado a música, mas a versão mais famosa, que aparece na trilha sonora de Pulp Fiction, do Tarantino, é creditada à cantora britânica Dusty Springfiled. A clássica gravação, aquela que todos conhecem, é de 1969. Confesso que não foi muito fácil descobrir isso, putz...

Outro ponto que intriga o pobre ouvinte passa pelos nomes das canções e os títulos dos álbuns. Em dois casos, sabia dessas pequenas diferenças antes da pesquisa virtual. Mas vale a pena aproveitar a ocasião. Envolvem Pink Floyd e Led Zeppelin. Primeiro: não existe a música Dark Side Of The Moon. Esse é o nome do álbum. A expressão, porém, aparece por duas vezes na letra de Brain Damage, a quarta faixa do lado B do LP Dark Side Of The Moon. “And if your head explodes with dark forbodings too/I’ll see you on the dark side of the moon”. Só isso.

Em outras ocasiões, nem sempre a música de mesmo nome está no disco homônimo. Isso rola no quinto disco do Led Zeppelin, Houses Of The Holy. A faixa de mesmo nome chegou a ser trabalhada durante as sessões de gravação do álbum, em 1973, mas o lançamento só ocorreu dois anos depois, no duplo Physical Graffiti. Por quê? Não faço a menor ideia, desculpem-me, de coração.

A coisa não para. David Bowie, por exemplo. Comecei a ouvi-lo faz bem pouco tempo e logo me chamou a atenção a obsessão do cara com o espaço sideral. Entre odisséias espaciais e aranhas de Marte, o andrógino criou um tal de Ziggy Stardust. Trata-se de um alienígena rock star que aterrissa em um mundo predestinado a acabar em cinco anos. Barbaridade! É muita substância psicotrópica para um sujeito só. Segundo Bowie, Ziggy é um dos poucos nomes cristãos que começam com a letra Z. E Stardust ele pegou emprestado de um amigo cantor country. Vai entender. Ou melhor não.

Para encerrar, historinha da capa do álbum Paranoid, o segundo disco do Black Sabbath. Uma das grandes canções do disco é a própria faixa-título, criada e gravada de última hora porque não havia faixas suficientes para fechar os lados A e B. Surgiu em 25 minutos, ´na finaleira do estúdio, a partir de uma dedilhada do guitarrista Tony Iommi. Outra curiosidade do disco, lançado em 1970, fica por conta da capa. A foto de sujeito com espada, escudo e capacete, solto em um cenário obscuro e tremido, foi tirada para ilustrar o nome original do disco, que deveria se chamar War Pigs (nome da música de abertura). Mas o medo de críticas em relação aos apoiadores da Guerra do Vietnam(1959-1970) forçou a mudança do nome para Paranoid. Tudo improvisado no último segundo. Como também pode e dever ser o rock n´roll.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Hoje é dia

De:Hoje é o Dia
Para: felipecampbell@uol.com.br
Assunto: BLOG ESCOLHIDO NO SITE "VIVA HOJE E SEMPRE"
Data: 07/10/2009 10:26

Olá Felipe!

A equipe do site “Viva Hoje e Sempre” selecionou seu blog, "JOSELITANDO" (NR: o nome correto do site é Totalmente Sem-Noção), como sendo o melhor blog para o dia 18 de outubro, dia de "Não ter noção". Nosso objetivo é fazer com que as pessoas se lembrem de que a vida é cheia de pequenos momentos especiais e que não podemos deixá-los passar em branco. O seu blog nos ajuda a transmitir essa mensagem, por isso ele faz parte de nossa galeria de dicas para viver melhor hoje e sempre.

Parabéns!

Equipe “Viva hoje e sempre!”

http://www.vivahojeesempre.com.br/
vivahojeesempre@gmail.com
http://twitter.com/hojeeodia

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Rei e rainha

É comum o homem fazer um balanço da vida de tempos em tempos. Reverberaldo sabia disso. Mais do que ninguém. Tinha 38 anos e uma beleza que não atraia em demasia a mulherada. Mesmo assim, não passava maiores necessidades do ponto de vista sexual. Teve algumas namoradas na adolescência e adentrou à vida adulta em um bom ritmo. Nunca, enfim, faltou comida na mesa. Dois namoros marcaram os 20 anos. Um com Juliana; outro com Maria Carolina. Ficou uns dois anos com cada uma, mas se casou com uma terceira moça assim que rompeu a barreira dos 30.

Noivado. Festa de casamento. Lua-de-mel. Apê novo. Filhos. Até que antes dos 40 a coisa degringolou. O casal se separou, e Reverberaldo não se adaptou à solteirice. Crise. Crise geral. Dos pés à cabeça. "Quem sou eu?", "De onde vim?", "Para onde vou?". Perguntas que repetidamente incomodavam o sujeito. O desequilíbrio se acentuou por meio da bebida. Tomou porres homéricos, que serviriam só para piorar a situação. Alcançou o limite da decadência ao ingerir medicamentos sem supervisão médica. Parou no hospital. Optou, então, por uma medida drástica: terapia.

Passou a frequentar o consultório de uma psicóloga indicada pela ex-mulher, duas vezes por semana. Pagava R$ 150. A boa condição financeira não arranhava a renda pessoal. Gostava de conversar com a tal profissional, de pernas longilíneas, braços delgados e paciência de Jó. Se alguém tivesse a chance de acompanhar uma das sessões de Reverberaldo, ficaria de saco cheio com os excessos de chororô, lamentos e angústias por conta dos relacionamentos. Dois meses depois, a terapeuta sugeriu um exercício extra-classe: o paciente deveria relembrar de todos os casos amorosos mais duradouros e avaliar o porquê do fim de cada um.

Reverberaldo resolveu, por conta própria, ir além. Teve a ideia de ligar para as duas mulheres mais marcantes dos 20 anos e ouvir delas explicações sobre cada separação. Primeiro, arriscou Juliana. Havia 10 anos que não ouvia falar dela. Tentou levantar telefones e endereços, mas nada. Soube dias depois por um amigo em comum que a moça mudara de país. Morava agora na China, o que dificultaria bastante um contato. Desistiu. Com Maria Carolina, a coisa caminhara com mais facilidade. Os dois tinham a mesma profissão - administradores de empresa - , e ele sabia para onde ela havia se mudado depois de se casar.

O sujeito criou coragem e ligou. Sabia que o marido dela poderia atender a ligação, mas a curiosidade bateu mais forte. Ligou e, dito e feito, o marido atendeu:

- Alô?!
- Oi, aqui é o Rever. A Maria Carolina, por favor?
- Rever? Rever de onde?
- Sou amigo da Carol...
- Sim, mas de onde?
- (..) Sou um ex-namorado dela.
- Por que não falou logo? Carol, telefone para ti. Se vira.

Carol atendeu, diante de um marido a segurar o riso. Ela conhecia como poucos a veia irreverente do companheiro e tinha certeza que uma saia-justa se aproximava. Reverberaldo ouviu a voz dela e deu uma breve explicação sobre a atual situação dele, do tal balanço de vida e blá-blá-blá. Carol não sabia o que dizer. A esta altura, o marido rolava de rir por conta das reações desajeitadas da mulher. Ela estava envergonhada, desconsertada e, acima de tudo, atrapalhada. Nem lembrava do Reverberaldo. Muito menos do porquê do fim do namoro deles. Pediu estrategicamente um tempinho para pensar e avisou que responderia por e-mail. Desligou.

Depois de enfrentar pacientemente as gozações do marido, Carol dedicou alguns minutos ao passado. Rapidamente, descobriu o que tinha determinado a separação do ex-casal. Reverberaldo tinha poucas características - ou quase nenhuma - de um macho alfa. A administradora de empresas era uma mulher forte, decidida, mas acreditava que a força de um casal deveria sair do homem. As decisões de vida, as mudanças cruciais e as reviravoltas familiares precisavam estar sob o controle masculino. Não era submissa. Nem machista ou feminista. Só gostava do conforto de ter uma referência masculina forte e agressiva. Era assim que se sentia segura e confiante para tocar a vida. Gostava de ser rainha. Mas exigia do companheiro a postura digna de um rei.

Para Carol, Reverberaldo não tinha a atitude que se aguarda de um homem. Não encaixava no perfil dela. Sentou-se em frente ao computador e escrevou tudo com zelo e cuidado. Não queria humilhá-lo. Mas o ex que resolvesse o problema com outra ou nas sessões de terapia. Ela tinha convicação de que mulheres não dedicam muita paciência a homens sensíveis, chorões e de pouca iniciativa. Mas também sabia que elas não dispensam o romantismo. Amam os que abrem a porta do carro, dão flores e fazem mimos. Está errada? De jeito nenhum. Do homem, o que se espera.