Briguei com um amigo. Não de porrada. Não mesmo. Nunca tive paciência nem corpo para
trocas de sopapos. Desentendemo-nos a partir de um conflito verborrágico, uma disputa enfadonha de sujeitos, predicados, objetos diretos, advérbios e, principalmente, adjetivos. Ele listou meus defeitos em um português impecável, isso tenho de admitir. Eu explorei a língua materna para acusá-lo de desequilíbrio, parcialidade e arrogância. Também o fiz com estilo, tenho cá para mim. Surgiram
teorias de dúvida e práticas de certeza. Ataques desproporcionais, enfim, que não levaram a nada. Só a desgastes e incomodações.
Este amigo, o que briguei de ferimento de quase morte, é daqueles de longa data. Conheço-o desde a época do segundo grau, tempos em que pouquíssimos comiam alguém - ficávamos do lado dos que não comia

m lhufas, mas isso não vem ao caso. O tal amigo, como dizia, é do tipo de
troca de presentes de aniversário. Também conheço os pais e os irmãos. Sei os nomes e os sobrenomes deles. Ah, também tenho o telefone fixo dele, o de casa. Parece besteira, mas é coisa rara hoje em dia. É mesmo. As pessoas só se falam por celular, mesmo entre amigos. Teve uma vez que ele entrou em férias e desligou o aparelho de telefonia móvel. Queria se desligar de tudo. Mas o encontrei na casa da mãe, depois de arriscar o telefone residencial.
Só para lhe desejar boa viagem. Masculino.
É engraçado (ou irritante), mas só depois que se briga com alguém a memória (pelo menos a parte preservada) resolve funcionar. Lembranças e mais lembranças agradáveis retornam como
tromba d’água em terra seca. Conversas de boteco, confissões inconfessáveis, conselhos inúteis, bobagens úteis, bebedeiras clássicas, sacaneadas básicas no futebol, péssimas e excelentes dicas de música e de cinema, xingamentos, escatologias das mais diversas. Volta tudo de uma vez, só para deixar clara
a mediocridade da briga.

Até porque, no nosso caso, nenhum dos dois se revelou filho da puta ou mau caráter com o próximo. Bem pelo contrário.
Voltando ao foco inicial, lembrei de uma noite regada a tequila (“Quem bebe uma, bebe três!”), na qual um rodo não se mostrou suficiente para
limpar a porcaria deixada para trás. Também recuperei imagens da Festa do Billy, lá por volta de 2003 ou 2004. Ele pegou uma megagostosa, e eu fiquei com uma bunduda massa. Confesso que nem lembro do rosto da moça. Normal... Também relembrei do porre insano de Bohemia Weiss no apê da mãe dele.
Registrou-se o consumo de 13 garrafas. Resultado: ventilador de teto quebrado, equipamentos de piscina destruídos ou perdidos, som queimado e soneca molhada no tapete da sala. Que dia. Que tarde. Que noite.
Apesar dessas e de outras, nos desentendemos
mais uma vez. Sim, porque houve outras discussões parecidas no passado, mas não no nível desta última. São as diferenças, não adianta, são as diferenças. Um dia teremos de resolvê-las. Mas acho que somos idiotas demais para tanto. Acredito, sinceramente, que ele também deva deve ficar puto porque sou melhor no futebol, no videogame, no Master, no War, no Imagem & Ação, no futebol de botão, no tênis, no paintball... Aí, tenta me boicotar. Também deve indigná-lo
o fato de eu ter mais conhecimento em

informática, jornalismo, música, artes e entretenimento. Sabe como poucos das histórias de Led Zeppelin, Black Sabbath, Guns N´ Roses e Joan Baez por conta única e exclusiva de nossa amizade.
Mas, antes que me acusem de arrogante, também sou capaz de
reconhecer a influência do nobre conviva em alguns pontos da minha vida, como a descoberta do AC/DC e a adoração por Iron Maiden (serei eternamente grato pela metade do ingresso pago para ver o show dos caras em Brasília). Agradeço ainda de coração pelos amigos feitos por intermédio da presença do sujeito e pelo companheirismo e dedicação demonstrados
ao longo de quase duas décadas.
Sendo assim, o que posso fazer aqui é
pedir publicamente que ele me perdoe pelas palavr

as de baixo calão empregadas no calor da discussão. Também peço que esqueça as bobagens sem fundamento, as verdades sem discernimento e as mentiras sem movimento. Se não houver o perdão, adianto que vou sentir falta das mensagens via celular sobre o tamanho, a cor e a consistência de certas produções intestinais.
Mas, como um bom escorpiano, também não descarto uma momentânea - ou eterna - perda da razão, já que não devolverei as duas últimas temporadas de Two And a Half Men. Vou ficar com elas. Foda-se. Exijo, porém, que me entregue o DVD do Tangos e Tragédias. Não é meu. É da minha mulher. Vai ficar braba comigo e vai acabar sobrando para os dois. Também vou querer de volta a camiseta com o desenho do Pica-Pau (aquele que se amarra em LSD), o DVD triplo do Iron Maiden e os rolos de papel higiênico do Flamengo. Foram todos presentes, mas pouco me importa.
Enfim, é isso. Aos que leram até aqui, agradeço a atenção. Desconfio que o nobre conviva não lerá este texto, pois raramente passa por este espaço. Confessou-me uma vez que não tem muito saco para tanta putaria e escatologia, temas recorrentes no TSN. Faz parte, né? Cadum, cadum. Mas obrigado a todos, mais uma vez. Precisava desabafar. E perdi, pelo menos por enquanto, um dos amigos que me ouvia.