quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Há sete anos... - final

Giovana leu aquilo tudo. Ficou estupefata. Estava atropelada com o convite. Milhões de pensamentos surgiram na sua cabeça. Emoção, medo, tesão, desejo, peso na consciência, ansiedade. Nunca sentira uma sensação tão gostosa e ruim ao mesmo tempo. Pensou no namorado. Já estavam juntos há muitos anos. Mas se lembrou daquele paulista que lhe fizera tão feliz por tão poucos minutos. E se ele fosse o cara? E, se não fosse, porque não viver uma aventura louca antes de se casar?
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Passou dias a pensar. Conversou com Maria. Recebeu um incentivo para viver a história. Uma segunda amiga chamou-a de maluca, destemperada. “Onde já se viu? Você tem namorado!” Não se importou. Chamou José para uma conversa quatro dias depois e foi taxativa: “Eu topo”.
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Dois meses se passaram até chegar o momento certo para os dois. A regra era não expor as pessoas. “Não temos o direito de expor ou machucar ninguém”, dizia José. “Temos de fazer tudo de forma que ninguém no mundo saiba disso”, completava. Encontraram-se em Fortaleza mesmo. Ficariam num bom hotel da capital cearense. Giovana preferiu assim. Seria mais fácil despistar o namorado assim.
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Giovana buscou José no aeroporto. Deram um abraço forte. Mas nada de beijo. Conversaram gostosamente no carro. Chegaram ao hotel e se acomodaram no quarto. No primeiro silêncio constrangedor, atracaram-se como jamais fizeram. Em segundos, estavam nus.Os dois corpos, excitados, encaixavam-se perfeitamente. Parecia que transavam há anos. As mentes pensavam naquele momento maluco, nas descobertas, refletiam sobre cada detalhe. José nunca teve tanto prazer em fazer sexo oral numa mulher. Transaram gostosamente durante aqueles dois dias daquele fim de semana. Uma loucura completa. SLEA atrás de SLEA.
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Despediram-se na segunda-feira cedo. Carinhos e afagos. Dias depois, mensagens, telefones, SMS. Tudo de bom. Trocavam mensagens sacanas. Gozavam à distância. Elogiavam-se e carinhavam-se. Declaravam-se. Ninguém assumia que aquilo poderia ser amor. E que poderia acabar com a relação de ambos. Há dois meses, José foi a trabalho para Fortaleza. Ao chegar na cidade, mandou uma mensagem para Giovana: “Estou aqui. Quero te ver hoje à noite”. Não recebeu resposta até às 20h03, quando o celular bipou. “Que horas? Em qual endereço?”
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Uma hora depois, ela estava lá. José abriu a porta. Como de costume, ela trajava um vestidinho delicioso. Eles não se beijaram. Não trocaram uma palavra. Ele apenas pegou Giovana pela mão e levou-a até a varanda do quarto, de frente para o mar. Encostou-a no parapeito, levantou a parte de baixo do vestido e começou a chupá-la como jamais fizera na vida com qualquer mulher... Ela enlouqueceu.
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Minutos mais tarde, estavam os dois nus a transar na varanda. Expostos ao luar, ao mar e aos vouyers dos prédios próximos. Ela, de costas, sentia José por trás. Num sexo frenético e gostoso. Certamente viveram a transa mais diferente de suas vidas. Dormiram juntos naquela noite.
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No dia seguinte, acordaram às 7h, tomaram banho juntos, transaram, saborearam um café da manhã pedido no quarto. Arrumaram as malas, vestiram-se, perfumaram-se. Ao abrirem a porta do quarto, depararam-se com três homens de terno. Parados na porta, fingiam uma conversa qualquer. Ao verem o casal, os matadores sacaram suas espingardas e mataram o casal. Cada um recebeu 18 tiros. Era o preço do adultério.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Há sete anos...

Giovana e José se conheceram naquele ano de 2002 de uma forma curiosa. Meio do nada. O rapaz viajou a trabalho para Fortaleza. Participaria de um congresso de juízes trabalhistas. Ela era do Ceará, ele era de São Paulo. Prestem atenção, é longa a cadeia de amizade: Giovana é amiga da prima de um colega de trabalho de José. Entenderam?


José tinha um amigo de trabalho, o Júlio, que por sua vez tinha uma prima em Fortaleza, a Maria. Maria era a melhor amiga de Giovana. Júlio organizou uma saída para um barzinho depois do primeiro dia de congresso. E assim se conheceram. Nada, porém, aconteceu naquela noite. E nem nos dois dias seguintes.

Na véspera da partida de José de volta para a paulicéia, um show de Ivete Sangalo fecharia o evento. José e Júlio conseguiram ingressos para Maria e Giovana. Era o dia do shark attack de José. A moça não passaria daquele dia sem beijá-lo. Mas ela fez doce. Fez que não queria. Chegou mesmo a amarelar.

José não é bobo. Afastou-se. Paquerou outras moças. Foi pastar em outra fazenda. No fim da noite, no entanto, a moça sucumbiu. Beijaram-se gostosamente por vários e vários muinutos. Não passou disso. Giovana era toda certinha. José não conseguira nem mesmo roçar os seios da moça por cima da blusa. Nada. Nenhuma olhadela. Zero.

No dia seguinte, José se mandou para São Paulo. Nunca mais se viram. Adicionaram-se no Orkut. Trocaram meia dúzia de mensagens. Prometeram visitar-se. Mas nada ocorreu. Quatro, cinco anos se passaram. E os dois se adicionaram no MSN. Começaram a conversar esporadicamente. Volta e meia, o bate papo levava os dois de volta para o show de Ivete.

Mas nada além de boas lembranças. Ela já namorava há quatro anos (logo depois da partida de José, conheceu um rapaz e com ele está até hoje). José namorou duas ou três mulheres desde então. O namoro atual dele já durava dois anos. Estavam os dois, portanto, bastante enrolados.

Mas, curiosamente, ficou a memória vigorosa daquela noite de Fortaleza. O beijo, o carinho, o contato. Aquela coisa pura, ingênua até. Agora, a vida só lhes permitia uma recordação. Ou não.

Já havia sete anos do único encontro dos dois. Não eram mais tão jovens. Nem tão puros. Muito menos ingênuos. Mas a lembrança era enorme na cabeça de ambos. Um belo dia, José deixou um recado no testemunho de Giovana no Orkut: “Entre no MSN, tenho uma proposta para lhe fazer”. No dia seguinte, ela apareceu.

Ele disparou a teclar: “É o seguinte: eu acho que nossa vida é muito curta e precisamos viver o que há de melhor para viver. Acho que há momentos e histórias importantes na vida, quando temos de tomar fortes decisões. Então, eu quero lhe fazer uma proposta: vamos viajar juntos? Passar um fim de semana juntos em qualquer lugar que você quiser. São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Maceió. Não importa. O que eu não consigo é continuar com essa memória daquela nossa noite e nunca mais te ver. E se a gente se casar daqui a pouco e nunca mais tivermos a chance de viver a nossa história? E se um de nós morrer? O que será das lembranças e das memórias do outro? Eu não quero ter uma história inacabada na minha vida. Não uma história tão boa quanto a nossa. Não quero que você me responda agora. Nem hoje. Pense com carinho. Take your time”.
Continua em 48 horas...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Soldier of Fortune

Era sexta-feira da semana passada. Eu tradicionalmente dou uma cochilada quando chego do trabalho, lá pelas 19h. Durmo até umas 21h30, 22h, antes de tomar um banho, botar um DVD ou ler um livro até a hora de realmente ir às ruas para alguma balada rock´n´roll pelos inferninhos de Brasília. Estava quente. Muito quente. Olhei no rádio-relógio ao meu lado e vi a hora: 19h32. Cochilei.

Estava suando em bicas. Assim, bastante mesmo. O travesseiro estava molhado. Meu cabelo, cada vez mais escasso e curto, deixava uma poça d´água no travesseiro. Naquele estado transitório entre a lucidez e o universo onírico, só reparava no som do ventilador de teto rodando sem parar. Até que, de repente, senti algo ou alguém tocando o meu rosto.

Não, é um sonho, relaxa”, tentei pensar. Mas o toque ainda deixara uma temperatura diferente na minha bochecha esquerda. O coração palpitou mais rápido. Eu abri os olhos e ele estava ali. Ou ela. Uma sombra, um vulto. Ao lado da porta do armário. Fiquei olhando por uns cinco segundos e gritei: “Sai daqui, filho da puta, sai daqui”. Na penumbra, a visão continuava meio turva. Mas, recuperando os sentidos depois do susto, não vi mais nada. Ainda na cama, olhei ao redor do quarto e nada mais reparei. O rádio-relógio marcava: 20h57.

Deitei na cama de novo, debaixo das cobertas. Mas não tava mais conseguindo dormir. Sempre que isso acontece, eu tento me ligar ao mundo real. Sair daquela condição de breu que, no imaginário coletivo, favorece a presença de criaturas ou seres sobrenaturais, se é que isso existe. Saí do quarto e vim para a sala.

Liguei o aparelho de DVD. Coloquei um show do Metallica. “Cunning Stunts”, um dos meus primeiros DVDs. “O show começa de dia, então é bom para dar uma espairecida”, pensei. Apertei o play fui à cozinha pegar uma cerveja para terminar de me tranquilizar.

Estranhamente, porém, notei que a porta da geladeira estava aberta. Há algum tempo, digo. Porque as comidas e bebidas estavam quentes. Mas não fervendo. Tipo mornas. Estranho e chato. Não sei como aconteceu.

Conformado em adiar o consumo da bebida, peguei uma Devassa Ruiva e coloquei no freezer em potência máxima. Voltei para a sala. O DVD estava tocando. Mas começou a dar defeito. O James Hetfield não conseguia emendar dois versos sem saltar ou travar o aparelho. Pensando ser defeito no disco, decidi trocá-lo. Ou tentar trocá-lo, ao menos. Mas o botão de abrir não funcionava. Não conseguia sequer desligar o aparelho. E um som estridente saía das caixas. Agonizante. Só consegui abaixar o volume.

Quando apertei o interruptor para acender a luz da sala, um pipoco estourou e a lâmpada queimou. Daquelas fluorescentes compridas, que a gente nunca tem em estoque na despensa. Que preguiça. Sexta à noite tá se desenhando uma visão de inferno. Voltei para o quarto para pegar o livro do Charles Dickens.

O quarto, não sei porque cargas d’água, continuava numa paranóica escuridão. E as pás do ventilador no teto giravam emitindo um ruído intermitente cada vez mais enlouquecedor. Com um incômodo crescente do lado esquerdo do peito, me dirigi à mesa de cabeceira, vi que já passava de 22h45 e retornei à sala para prosseguir a leitura.

Não sem antes voltar à cozinha e retirar do freezer minha devassa. Pronto. Agora dá para relaxar. Abri a garrafa. Servi todo o conteúdo em um único copo e me sentei ao sofá, agora posicionado no centro da minha sala. Acendi uma das lâmpadas laterais pra ler enquanto esperava tomar alguma decisão sobre o que fazer ou para onde ir mais tarde.

Começou a ventar forte lá fora. Fechei a janela da sala. Quando deitei no sofá novamente, notei uma rachadura no texto. Uma linha reta que, tenho certeza, não estava ali cinco minutos antes. Ela rumava para a parede de gesso da cozinha. Esqueci o livro e percorri, com os olhos, centímetro a centímetro, aquele caminho de rato. Reparei que ele não tinha uma lógica, mas tinha forma. Não eram rachaduras entre as placas, o que seria natural no tempo seco de Brasília. Era uma vala semi-arredondada que parecia indicar algo.

Absorto naquele cenário, já tinha até esquecido do ventilador ligado no meu quarto. Quando ouvi um barulho de nova rachadura se formando, seguido de um grunhido que durou uns 10 segundos. Vindo ali da sala. O som era muito presente. Alto até. Lembrava metais retorcendo. Vinham, acho, de alguma parede ou de dentro do teto. Repetiam-se a cada intervalo não constante de algo entre dois e cinco minutos. Pareciam, às vezes, socos de algo ou alguém que estava preso.

Não estava exatamente confortável com aquilo, mas, de novo – e cada vez mais –, tentei recobrar os sentidos daquela concentração forçada buscando algo que me trouxesse de volta à realidade. Voltei para a sala. Quando estava perto de ligar o videogame, veio um barulho ainda mais forte da cozinha. A geladeira estava aberta de novo. Mas não um pouco aberta. Tipo a porta formava um ângulo de uns 130 graus. Como se alguém tivesse realmente passado por ali. Dessa vez eu assustei. E decidi ir para o chuveiro, dar uma relaxada e colocar uma música bem alta.

Liguei o ipod no som. Taquei um Deep Purple no último volume. E liguei o chuveiro. O som de “Stormbringer” se dispersava com a ducha, quando comecei a ouvir vozes. Altas, muito altas. Pareciam estar ali, comigo. Nítidas. De uma mãe dando esporro num filho. “Já disse para você tomar banho logo. Obedeça a mamãe”. O moleque não deixou por menos e gritou “Vá tomar no cu, sua bruxa”, enquanto eu esfregava o xampu na cabeça. Em seguida, veio um som de um tapa estridente. Forte e seco.

A água continuava escorrendo. Cada vez mais quente. A ponto de incomodar. Mas eu não queria mais sair dali. Por nada no mundo. O barulho da água foi crescendo. A temperatura também. Ao fundo, eu ainda conseguia, com muito esforço, discernir Glenn Hughes entoando os versos de “Holy Man”. “Heard my mother crying. She was calling out my name”. A água esquentou tanto que o vapor tomou conta do box.

Subitamente, reparei que um vulto estava ali no banheiro, estampado, dessa vez, no espelho. Que, de dentro do box vaporizado, eu via ganhar forma de um rosto irreconhecível, embaçado em meio à fumaça. Fiquei olhando, estático, com a respiração ainda mais presa, querendo apenas me concentrar na água quente, pensar em qualquer outra coisa. Qualquer outra coisa. Eu já não conseguia respirar direito. Mas não me importava mais. A pele começou a arder com os 50 graus da água. I've been out in the cold too long. Won't you understand”. Mas não queria sair dali. Por nada. Fechei os olhos lentamente. E senti uma paz interior. Para sempre.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Perdas e perdões


Briguei com um amigo. Não de porrada. Não mesmo. Nunca tive paciência nem corpo para trocas de sopapos. Desentendemo-nos a partir de um conflito verborrágico, uma disputa enfadonha de sujeitos, predicados, objetos diretos, advérbios e, principalmente, adjetivos. Ele listou meus defeitos em um português impecável, isso tenho de admitir. Eu explorei a língua materna para acusá-lo de desequilíbrio, parcialidade e arrogância. Também o fiz com estilo, tenho cá para mim. Surgiram teorias de dúvida e práticas de certeza. Ataques desproporcionais, enfim, que não levaram a nada. Só a desgastes e incomodações.

Este amigo, o que briguei de ferimento de quase morte, é daqueles de longa data. Conheço-o desde a época do segundo grau, tempos em que pouquíssimos comiam alguém - ficávamos do lado dos que não comiam lhufas, mas isso não vem ao caso. O tal amigo, como dizia, é do tipo de troca de presentes de aniversário. Também conheço os pais e os irmãos. Sei os nomes e os sobrenomes deles. Ah, também tenho o telefone fixo dele, o de casa. Parece besteira, mas é coisa rara hoje em dia. É mesmo. As pessoas só se falam por celular, mesmo entre amigos. Teve uma vez que ele entrou em férias e desligou o aparelho de telefonia móvel. Queria se desligar de tudo. Mas o encontrei na casa da mãe, depois de arriscar o telefone residencial. Só para lhe desejar boa viagem. Masculino.

É engraçado (ou irritante), mas só depois que se briga com alguém a memória (pelo menos a parte preservada) resolve funcionar. Lembranças e mais lembranças agradáveis retornam como tromba d’água em terra seca. Conversas de boteco, confissões inconfessáveis, conselhos inúteis, bobagens úteis, bebedeiras clássicas, sacaneadas básicas no futebol, péssimas e excelentes dicas de música e de cinema, xingamentos, escatologias das mais diversas. Volta tudo de uma vez, só para deixar clara a mediocridade da briga. Até porque, no nosso caso, nenhum dos dois se revelou filho da puta ou mau caráter com o próximo. Bem pelo contrário.

Voltando ao foco inicial, lembrei de uma noite regada a tequila (“Quem bebe uma, bebe três!”), na qual um rodo não se mostrou suficiente para limpar a porcaria deixada para trás. Também recuperei imagens da Festa do Billy, lá por volta de 2003 ou 2004. Ele pegou uma megagostosa, e eu fiquei com uma bunduda massa. Confesso que nem lembro do rosto da moça. Normal... Também relembrei do porre insano de Bohemia Weiss no apê da mãe dele. Registrou-se o consumo de 13 garrafas. Resultado: ventilador de teto quebrado, equipamentos de piscina destruídos ou perdidos, som queimado e soneca molhada no tapete da sala. Que dia. Que tarde. Que noite.

Apesar dessas e de outras, nos desentendemos mais uma vez. Sim, porque houve outras discussões parecidas no passado, mas não no nível desta última. São as diferenças, não adianta, são as diferenças. Um dia teremos de resolvê-las. Mas acho que somos idiotas demais para tanto. Acredito, sinceramente, que ele também deva deve ficar puto porque sou melhor no futebol, no videogame, no Master, no War, no Imagem & Ação, no futebol de botão, no tênis, no paintball... Aí, tenta me boicotar. Também deve indigná-lo o fato de eu ter mais conhecimento em informática, jornalismo, música, artes e entretenimento. Sabe como poucos das histórias de Led Zeppelin, Black Sabbath, Guns N´ Roses e Joan Baez por conta única e exclusiva de nossa amizade.

Mas, antes que me acusem de arrogante, também sou capaz de reconhecer a influência do nobre conviva em alguns pontos da minha vida, como a descoberta do AC/DC e a adoração por Iron Maiden (serei eternamente grato pela metade do ingresso pago para ver o show dos caras em Brasília). Agradeço ainda de coração pelos amigos feitos por intermédio da presença do sujeito e pelo companheirismo e dedicação demonstrados ao longo de quase duas décadas.

Sendo assim, o que posso fazer aqui é pedir publicamente que ele me perdoe pelas palavras de baixo calão empregadas no calor da discussão. Também peço que esqueça as bobagens sem fundamento, as verdades sem discernimento e as mentiras sem movimento. Se não houver o perdão, adianto que vou sentir falta das mensagens via celular sobre o tamanho, a cor e a consistência de certas produções intestinais.
Mas, como um bom escorpiano, também não descarto uma momentânea - ou eterna - perda da razão, já que não devolverei as duas últimas temporadas de Two And a Half Men. Vou ficar com elas. Foda-se. Exijo, porém, que me entregue o DVD do Tangos e Tragédias. Não é meu. É da minha mulher. Vai ficar braba comigo e vai acabar sobrando para os dois. Também vou querer de volta a camiseta com o desenho do Pica-Pau (aquele que se amarra em LSD), o DVD triplo do Iron Maiden e os rolos de papel higiênico do Flamengo. Foram todos presentes, mas pouco me importa.
Enfim, é isso. Aos que leram até aqui, agradeço a atenção. Desconfio que o nobre conviva não lerá este texto, pois raramente passa por este espaço. Confessou-me uma vez que não tem muito saco para tanta putaria e escatologia, temas recorrentes no TSN. Faz parte, né? Cadum, cadum. Mas obrigado a todos, mais uma vez. Precisava desabafar. E perdi, pelo menos por enquanto, um dos amigos que me ouvia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ride the lightning

Zacarias esfregou os olhos. Abriu-os devagarinho, com uma preguiça gigante pela própria natureza. Olho o rádio-relógio ao lado de sua cama e viu a hora: 7h da matina. “Droga, que preguiça, tenho que levantar”. Pensou em ficar mais umas horas rolando por ali, quando, de repente, o contato com a coberta fez com que sentisse um estalo de energia estática. Foi um pequeno choque. Que o acordou subitamente. “Que porra é essa?”, falou alto. Não deve ser nada.

Foi tomar banho. Ligou o chuveiro. Ouviu novos estalos. “Caracas, parece que tô levando uns choques estranhos hoje”. Depois que entrou embaixo da ducha, a coisa piorou. Foram vários estalos. Tzc. Tzc. Tzzzz. Pá. Pá. “Chega, vou desligar essa porra”.

Botou a roupa. Terminou de se arrumar e pegou o carro para dirigir de sua casa, em Brazlândia, pela via Estrutural até o Plano Piloto, onde trabalha num escritório de advocacia no Setor de Autarquias Sul. Estava chovendo de leve. Mas o suficiente para o percurso casa-trampo, que já é feito em cerca de 50 minutos em dias “normais”, levar mais de hora e meia para ser concluído.

Na altura do Viaduto Ayrton Senna, começou a chover forte. A angústia só era minimamente aplacada pelos rifes de “Creeping Death”, que tremiam os alto-falantes do Verona de Zacarias. “Pelo menos vai dar para eu escutar o disco inteiro”, consolou-se.

Quando fazia a curva para descer o viaduto, começaram a pipocar raios e trovões no céu. “Eita porra!!!”. Zacarias tomou um susto com o carro que freara repentinamente à sua frente. E chapou o é esquerdo no pedal com toda a força que tinha às 8h52 da manhã. Viu o carro da frente crescendo em sua frente e gritou “putaqueopariuaralhobocetamerdaaa!!!!”. Ká. Tchi. Bum. Katuf. Pou. Veio um clarão. "Flash before my eyeeeeees"

Fom-fom. Fom-fom. Ele abriu os olhos e se virou para trás. Era um velho numa Belina buzinando para ele ir logo, que estava empatando o tráfego. Sem entender muito, pisou no acelerador – nem morrer o carro tinha morrido. Estava intacto. Nem viu o que tinha acontecido com o automóvel à sua frente. Só via pista livre. Acelerou. Entrou no Eixo Monumental. Eram 8h58.

Seu assento estava quente. O volante começou a arder. Exatamente onde ele encosta os dedos. Tava vermelho, em brasa. Quando passou pela torre de TV, o rádio ficou louco. Começou a pegar freqüência de avião. De rádio da polícia. De walkie talkies de jipeiros. Mais surpreendente foi a Kiss FM e a Rádio Cultura pegarem direitinho. Sem nenhum chiado. Zacarias ficou de cara. “Agora, definitivamente, tem alguma coisa errada”. Chegou rapidinho ao Setor Comercial Sul.

Quando estacionou, ainda chovia a cântaros. Viu no retrovisor do motorista, já do lado de fora do carro quando trancava a porta com a chave, que não tinha mais um fio de cabelo. “Mas que... b*#$$% é essa? O que tá rolando?”. Não deu nem tempo de pensar direito em sua nova condição de homem-ovo, quando não pôde deixar de notar uma rabuda descendo a calçada. Tipo a uns cinco metros de distância. “How easy!!!” (NR: não entenderam? traduzam literalmente e pronto), pensou. No que olhou para a moça, suas mãos soltaram um feixe de luz que torrou a calça dela. A mulher ficou desnuda, sem entender nada, na chuva, com aquele traseiro delicioso à mostra, para deleite de nosso amigo. E saiu correndo rumo à marquise do primeiro prédio que vira. Zacarias, rindo como uma criança, ainda gritou para a moça. “Ei, morena, vou te mostrar que é de chocolate!!!!”. E continuou, rumo ao seu escritório, encharcado e dando choques em todo mundo a torto e a direito. E morrendo de rir.

Vou fazer aquele ali dar uma coçadinha no rabo”. Apontou o dedo e soltou uma faísca na calça do flanelinha que tentava extorquir mais uma motorista desesperada por achar vaga naquele caos matinal brasiliense. E, ainda com a música que vinha ouvindo no carro ecoando em sua cabeça, cantou em voz alta “Die. By my hand. I creep across the land. Killing first-born man. Die by my hand”.

“Die! Die! Die! Motherfucking Die!”.

“Die! Die! Die! Motherfucking Die!”.

“Die! Die! Die! Motherfucking Die!”.



..

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Então, abriu o olho de novo. Amaldiçoou aquele que fez o dia e, principalmente a noite, terem de caber num espaço de apenas 24 horas. Olhou para o rádio-relógio. 8h05.Puta merda. Tô atrasadão”. Arrancou a coberta e jogou-a no chão. Acendeu a luz abruptamente. Olhou-se no espelho. Gritou para o irmão mais novo: “Didi, cadê mina peruca?”. E foi tomar seu banho normalmente. Para depois pegar seu carro e dirigir pela Estrutural. E ouvir seu iPod. Até chegar ao trabalho. Para mais um dia de labuta. Como qualquer outro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Hell ain´t a bad place to be

“Você quer quarto misto ou masculino?”, perguntou a recepcionista do albergue. “Misto, claro”, pensei. E falei. Que homem em sã consciência não vai querer ficar num quarto junto com mulheres que fatalmente vão trocar de roupa na sua frente? Sejam elas gatas, mais ou menos ou mukissarras? Pois lá fui eu para o meu quarto. Girei o cartão magnético e adentrei o meu recinto pelas próximas cinco noites. Estava no sétimo andar do Auckland Central Backpackers, na cidade homônima, na Nova Zelândia.

Abri a porta. Sete beliches. 14 camas. Deitei em cima de uma das beliches. Eram 15h. Saí para dar um rolé na cidade. Fui até um cais que tem a uns 20 minutos de caminhada dali. Voltei no fim do dia. Tem um pub no subsolo do albergue. Tá rolando uma festa da espuma. Gente do mundo inteiro, com orçamento apertado, espírito desprendido e empreendedor sexualmente falando. Tomando muita cerveja barata e morna. E banho de espuma sem parar. Gatinhas com camisa molhada. E o biquinho do peito durinho por debaixo da blusa. Loucura, loucura, loucura. Festival de tombos. Uma lambança só. Sexo. Drogas. E rock´n´roll. Em versões mais lights, é claro.

Saí dali e fui para o quarto. Deviam ter umas cinco pessoas apenas lá. Dormindo. Um roncando alto. Subi para o meu leito e deitei. Enrolei na cama, bêbado, umas duas horas. Peidei a vera. Levantei uma hora e fui para o banheiro comunitário dar um cagadão. Fui de cueca e descalço mesmo. Mijei pelo cu. Mas tudo bem, era só a cerva. Não uma caganeira. Acontece até hoje. Pois bem. Cruzei com duas mulheres no caminho de volta para o meu quarto. Voltei para a cama.

Em cinco minutos, ouvi barulhos. Uma pessoa entra. Mulher, pelo que pude perceber na penumbra. Tava junto com um cara. Subiram na beliche. Fiquei olhando pelo escuro, de frente. Acho que as outras pessoas do quarto também. Já eram mais de 3h. Os dois tavam se engalfinhando ali em cima. No bom sentido. Fornicaram até. Cool. “Youuuuuu shoook me allll night looong!!!”.

De repente, ela despenca da cama. Do alto da beliche. Na minha frente. E rasteja para a cama debaixo da onde tava o cara que a fodera todinha segundos antes. Eu chapei. Entre uma rolada (sem trocadilho), uma peidada e outra na cama, vi o cara saindo fora, com mochila e tudo às 7h e pouco. Voltei pro meu sono.

Às 10h30, acordei com o sol de verão neozelandês queimando as orelhas. Tava até fedendo com uma suvaqueira debaixo do braço. Abri os olhos, olhei para baixo e lá estava ela. A moça holandesa, tipo uns 10kg acima do peso, todos na perna, sentada e gemendo de dor na cama. Perguntei, como se não soubesse de nada: “Ei, o que houve? Precisa de ajuda?”. Com um mau hálito que só não era pior o que dela.

A rapariga falou: “Eu não sei o que aconteceu. Minha perna está doendo horrores. Só sei que fui para a festa, fiquei com um cara. Aí viemos para cá... Não lembro de mais nada. Você viu alguma coisa?”. Solícito e prestativo, eu disse: “Bem, você veio com um cara e ficou na mesma cama que ele aí em cima. Acho que estavam tipo transando, sabe como é? E aí você caiu dali de cima. Despencou no meio da noite”. Ela colocou a mão no rosto e disse, incrédula: “Sério? Não é possível.... Meu Deus!!! Eu fiz sexo com um cara? Cadê ele? Foi embora? Ai meu Deus... Meu namorado / noivo chega amanhã da Holanda. Vamos passar um ano juntos aqui. Merda de bebida... Aiiii... Puta merda... minha perna...Tá doendo para caralho”.

Ela tentou levantar e eu vi a perna cambaleando. Torta mesmo. Quase fazendo um 180 graus. Ela não conseguia ficar em pé. Falei para ela ir para o hospital de Auckland, que ela ali perto. Ela foi, com a ajuda do pessoal de apoio do albergue. Eu deixei quieto.

Dei mais um rolé na cidade. É inclinada para cacete. Ladeira o tempo todo. Calor lancinante. Ainda bem que eu posso andar. Tá cheio de lourinha na cidade. Bela paisagem. Quero fazer nada. E não faço nada. Aí volto pro albergue. E encontro a holandesa. Com uma bota de gesso que vai do pé até a virilha. Fraturou o fêmur. Quase deu hemorragia interna. Mulher tosca essa.

Que coisa. Essa noite foi foda. Um cara me comeu e eu não lembro nem o nome. Não sei de onde veio, para onde vai. Bebida é foda”. Eu aquiesci. E emendei: “É. Bebida é foda”. E abri a janela do quarto do albergue. E pulei. Estava no sétimo andar. Tipo a uns 30 metros de altura. Saltei de cueca dali. Montei num albatroz que dava bobeira. Dei um sobrevôo pela cidade. Vi praias com uma areia bem branca ao fundo. "Too many woman with too many pills". Fui mais alto. E vi fiordes. A ilha do Sul. Montanhas. Cordilheiras. Frodo Baggins. Ovelhas. Geleiras. O Oceano Pacífico. Vi vulcões ao longe. Cinzas. Vou mergulhar lá. E fui. De ponta a cabeça. Lembrei da holandesa freaking out enquanto estava voando em direção à cratera, a toda velocidade. E ansioso para chegar lá.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O profissional do sexo

Marcos tinha jeito com as mulheres. Sempre foi assim. Quando criança, dançava quadrilha no colégio Estrela Cadente com a menininha mais linda. Aos sete, já distribuía plocs entre as coleguinhas. Aos 13, comeu a primeira das seis empregadas da família que levara para cama até a maioridade: Val e Lulu trabalhavam na casa dele, Beth era a mulatona boazuda da casa da avó Mariquinha, Judith e Tetê eram as secretárias do lar da tia Maria Eugênia e, finalmente, a Dona Vavá, 53 anos, governanta da casa do Tio Antônio.


Na adolescência, as meninas sempre davam mole pra ele, mesmo não sendo o mais bonito da turma (nessa idade, só se avalia beleza, mas ele transcendia o critério). Ao chegar à vida adulta, Marcos formou-se em engenharia. Atuava na área. Ocupava um cargo júnior em uma construtora média, onde recebia R$ 5 mil mensais. O sucesso com as mulheres aumentara.

Recebia elogios sem reivindicá-los. Certa feita, uma moça com quem transava ocasionalmente elogiara seu pau. “Tem a grossura perfeita. Nem grande, nem pequeno. É demais”, disse a rapariga. Outras duas confessaram-no, sem que ele tocasse no tema, do prazer exclusivo em chupá-lo. Com outros, faziam por dever de ofício. “Eu só gosto com você”, disseram as duas.

De quando em vez, mulheres diziam a Marcos que ele sabia tocá-las. Sabia tirar delas safadezas que elas jamais se imaginaram capazes de cometer. Menages, anal, locais públicos, carro em movimento, swingue. Com ele, elas tinham vontade de fazer de tudo. “Você consegue o que quer de mim”, revelou uma secretária do escritório do pai, abatida pelo rapaz.

Marcos, aos poucos, começou a refletir sobre esse sucesso incrível com as mulheres. Sabia não se tratar de nenhum Brad Pitt. E jamais sentira falta de qualquer atributo físico no relacionamento com elas. Nessa mesma época, percebeu: a carreira de engenheiro não lhe preenchia a alma. Fazia aquilo por pura obrigação.

Teve, então, a brilhante idéia. Tornar-se-ia michê. Sim, venderia o corpo por dinheiro pesado. Sabia de seu potencial. Comia as mulheres como ninguém. A pegada era famosa entre as amigas. Certa feita, uma prima lhe pediu para beijá-la só para experimentar aquela pegada notória. Era o seu dom. Nascera praquilo. Não tinha erro. Era sucesso garantido.

Começou a pesquisar sobre o tema e descobriu o point dos michês na região. Na investigação, constatou que esses profissionais topam “meninos e meninas”. Colocou, então, uma condição básica: jamais comeria um macho.

Nos primeiros dias de ponto, percebera que 80% dos clientes eram velhos babões casados e atrás de um pinto amigo. Recusava-se a prestar o serviço. Optou, então, por anunciar-se em sites eróticos. A coisa melhorou. Recebia ligações de mulheres várias vezes por dia. Atendia as moças das 14h às 3h. Tirava as manhãs para dormir e malhar. Tinha de descansar e cuidar do instrumento de trabalho.

Começou a fazer dinheiro e a ter clientes fixas. Duas coroas milionárias tornaram-se fiéis. Apaixonaram-se por aquele pau de grossura perfeita e tamanho “no ponto”. Três meninas de vinte e poucos anos o contrataram para suas despedidas de solteiras e mantiveram-no como amante durante os respectivos casamentos. Dessas cinco mulheres, tirava quase os R$ 7 mil mensais. Com as demais clientes, em meses animados, chegava a R$ 22 mil em rendimentos.

Fora convidado para orgias e viagens, nas quais dobrava o cachê de R$ 300 por hora. Em viagens, tirava R$ 2 mil, R$ 3 mil. Comprava carros. Fazia grandes viagens. Comprou dois belos apartamentos. Era bom no que fazia. Aplicou R$ 200 mil em ações. Já tinha quase sete anos de profissão. Adorava aquilo. Marcos amava as mulheres. Tratava cada uma de suas clientes como se fossem sua Helena de Tróia. Sua Vênus de Milo. Era pago com dinheiro, carros, relógios e roupas. Fora pedido em casamento mais de uma vez. Mulheres prometiam largar os maridos para viver aquele amor maluco.

A bonança, no entanto, não chegou a uma década. Uma vida mundana não o deixaria livre dos males mais perversos. Logo contraiu uma terrível Sífilis. O tratamento não foi feito adequadamente. Marcos voltava ao serviço antes de se curar e a doença retornava. A má higiene local e a insistência em não se curar da Sífilis lhe renderam um enorme câncer no pau. O diagnóstico maligno obrigou os médicos a amputar aquela jeba abençoada.

Marcos entrou em depressão. Pensou no suicídio. Conversou com dois amigos michês e decidiu: deu entrada no INSS por incapacidade profissional. Hoje, vive do aluguel de seus dois apartamentos e dos rendimentos dos recursos aplicados na bolsa de valores. Já não transa há dois anos, quando perdeu o maior e mais precioso instrumento de trabalho. Hoje, é uma lenda viva. Um mártir das mulheres casadas e infelizes. Um herói dos michês brasileiros.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Brasília, 3 de setembro de 2009



Queridos amigos,

desculpem-me se não me despedi. Estou em férias. Relaxado e tranquilo. Não me vejo na obrigação de nada. Nem de dizer adeus por conta de alguns dias fora de Brasília. Buenas, escolhi Porto Alegre para curtir parte deste mês de descanso. Chego amanhã, sexta-feira. Desembarco no Aeroporto Salgado Filho no início da noite. Espero ser recebido pelo mesmo calor agraciado das últimas semanas. Odeio frio, vocês sabem. É talvez a única coisa que eu não tenho saudade da capital dos pampas.

Desta vez, vou aproveitar para viver a antiga Porto dos Casais com mais intensidade. Quero caminhar no centro da cidade. A pé mesmo. Pode parecer esquisito para quem mora em Brasília, mas na maioria das
cidades do mundo longas caminhadas exploratórias são normais. E assaz aprazíveis, como diz um amigo blogueiro. A pernada imaginada por mim deve começar pela Rua Doutor Flores. Fica bem no início do centrão, pelo menos para quem chega pela Avenida João Pessoa. Depois de descê-la, a ideia será seguir pela Rua da Praia (apelido carinhoso da Rua dos Andradas), prestando atenção a tudo o que for possível. Ver o que mudou e o que não mudou em relação aos meus tempos de Porto Alegre. Grande chance de encontrar conhecidos.

Depois de vencê-la (a Rua da Praia), pretendo dar uma subidinha até o Theatro Sã
o Pedro. Lindo de ver. Se um dia vocês forem a Porto Alegre, não deixem de conhecê-lo. Chama a atenção pela beleza e imponência. Ali, vi duas vezes Tangos e Tragédias. Vocês conhecem, né? A peça... Bom, se rolar um belo dum sol, certamente a esta altura estarei suando como um porco. E o rosto estará mais vermelho do que o normal. O caminho natural será dar uma paradinha estratégica para tomar um chopp no Odeon, boteco aconchegante bem pertinho da Rua da Praia. Meu pai ia ali com freqüência, sabiam? Era na época em que trabalhava como correspondente do Estadão. O prédio da sucursal fica bem em frente. Eu o acompanhava quando adolescente, principalmente durante os plantões dele e as minhas férias. Isso faz tempo. Mais de 20 anos, tempos em que existia comunicação entre pai e filho. Mas isso não tem nada a ver com vocês. Desculpem-me.

Caros amigos da capital federal, se a tarde continuar deveras agradável, vou querer dar uma passadinha no Mercado Público, que também fica no centro da cidade. É um belo passeio, podem confiar. Cheiros deliciosos estarão à espera do visitante. Erva mate, carne, peixe fresco, especiarias d
iversas, vinhos, queijos, presuntos, um turbilhão de cores e sabores capaz de deixar tontos locais e forasteiros. É tanta coisa ao redor, que não é difícil salivar como um cão esfomeado.

Pode ser que dê uma vontade louca de tomar uma salada de frutas, daquela com suco de laranja e uma bola de sorvete de creme no topo. Se sobrar espaço na barriga, pretendo gastar mais uns reais para comer um pastel de queijo, talvez dois. Também quero sentar em uma das bancas e escolher uma mesinha bem de canto só para acompanhar o movimento. De lá para cá, de cá para lá. Quero sentar ali e ler a Zero Hora. Só para ver os nomes dos repórteres e dos editores e lembrar dos tempos da redação. Quanta lembrança boa.

Ao fim da tarde, pretendo seguir a pé pela Praça da Alfândega, enveredar pela Avenida 7 de Setembro, passar em frente à fachada rosa da Casa de Cultura Mário Quintana, atravessar a área dos quartéis e curtir o pôr-do-sol na Usina do Gasômetro. Quero sentar no gramado, às margens do Guaíba, e sentir a lambida dos últimos raios de sol em solo gaúcho. E lá se vai ele, devagarinho, a emergir ao fundo das ilhotas ao redor das águas de cor todynho. Em poucos minutos, a brasa sumirá para dar lugar a um luão capaz de nos lembrar que a vida é b
ela. Também nos faz relembrar com ternura e saudade daqueles que se foram há muito tempo ou recentemente (muito obrigado por tudo, Tia Nydia!). Dá vontade de agradecer pelo espetáculo, juro. Já o fiz algumas vezes, em voz alta. Parece coisa de maluco. Mas quem é da terra entende.

Ah, também quero ir, nobres companheiros, ao Gigante da Beira-Rio, estádio do Sport Club Internacional, meu time do coração. Quero comer um xis no Cavanhas. Encher a cara no Bier Keller. Tomar cervejas que não existem por aqui ou em qualquer outro lugar do mundo. Helles, Slava, Coruja, Polar, La Brunette, Dado Ilex... Pretendo, enfim, conhecer a Fundação Iberê Camargo. Parece que o prédio é lindíssimo. Por dentro e por fora. Quero passear e fazer exercícios na Redenção, no Parcão e na Praça da Encol. Passar em frente ao prédio da Zero Hora, encravado nas esquinas das clássicas avenidas Ipiranga e Erico Verissimo. Pretendo tomar chimarrão pela manhã e catua
ba Taimbé. Assistir a um show do Wander Wildner, o rei do punk brega. Sei que tem dois marcados para o período em que eu estarei por lá. E, claro, rever os amigos de longa data e os que são da família. Todos esses fazem uma falta tremenda, barbaridade!

É isso, convivas de Brasília, vou ficando por aqui. Daqui logo mais embarco para Porto Alegre. Preciso terminar de arrumar as malas. Tarefa meio complicada, pois tenho de levar roupas de frio e de calor. Nunca se sabe, né? Se alguém quiser alguma encomenda, é só falar. Não se acanhe, pois os gaúchos se orgulham de tal hábito. Será um enorme prazer.

Abraços,
G.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Say, say, say

Pode anotar: a próxima vez que você, com idade entre 25 e 40 anos, estiver em uma reunião de amigos, ou num almoço de trabalho ou mesmo num encontro familiar, fatalmente alguns destes assuntos que listarei abaixo virão á tona. Não quer dizer que você está sem assunto para bater papo. Não quer dizer que você é repetitivo. Não, não é nada disso. Apenas é uma realidade com a qual nos deparamos em nosso cotidiano na atual conjuntura de nossas vidas.

Para começo de conversa – e isso em uma cidade que não seja Brasília até poderia ser sintoma de falta de assunto ou de pobreza de criatividade, mas aqui não é bem assim –, alguém vai falar do clima. Vão dizer, com toda a certeza, que o calor está insuportável nesta época do ano, que ninguém agüenta tanto tempo seco assim. Para desespero de quem acha que todo ano a gente bate o recorde de desidratação, choveu miraculosamente depois de “apenas” 68 dias de seca em Brasília semana passada. Mais: choveu quase uma semana seguida. Quando normalmente a gente fica entre 100 e 120 dias “na seca”. Tá vendo? Já tô aqui eu mesmo fazendo colocações sobre o clima. Tema inevitável nas paragens candangas.

Agora, se você se enquadra no perfil acima – entre 25 e 40 anos – certamente o assunto “imóvel” aparecerá cedo ou tarde na conversa. Mais que isso. O assunto “nossa, como os imóveis em Brasília estão com preço fora da realidade” será debatido com ardor por quase todos envolvidos na conversa. Porque praticamente todo mundo está pensando, pensou ou vai pensar em comprar um imóvel. E vai falar com nojo e horror dos preços de uma casa própria no Plano Piloto. Alguns, notadamente os mais incautos que não cresceram por aqui, vão defender a compra de um apartamento em Águas Claras, dirão que lá não é tão longe assim, que tem metrô etc. E aí alguém vai dizer que outro dia levou uma hora e meia para chegar ao trabalho pela EPTG. E que o metrô já está saturado nos horários de pico.

De onde rumamos para mais um assunto constante na pauta dos “jovens de 25 a 40 anos”: o trânsito. Até há uns 5 anos, não tinha muito problema de tráfego em Brasília. Hoje em dia, porém, se não estamos na mesma situação que a capital do caos, São Paulo, estamos na liderança absoluta do ranking de carros colocados em circulação por dia nas ruas. E, claro, com tanta gente ganhando tanto dinheiro, sobram carros, financiamentos e faltam vagas, faltam estações de metrô em bairros de classe média, faltam ônibus em vários pontos da cidade, faltam estacionamentos e etc. Já tenho todo o discurso na ponta da língua. E você? Ah, e alguém vai falar também que pegar táxi aqui é bem caro. Claro, com toda a razão.

E fatalmente a conversa vai descambar para o tema da Lei Seca. Que, cada vez mais percebe-se, está sendo levada a ferro e a fogo em Brasília, ao contrário do que ocorre em outras capitais, onde a proibição de beber e dirigir funcionou por alguns meses e depois nego relaxou de novo. Você vai contar e ouvir histórias de amigos ou conhecidos seus que pararam em blitz e deram sorte. Ou que passaram aperto porque tinham bebido e passaram pela blitz sem terem sido parados. Ou ainda de alguns que inventaram as histórias mais escabrosas do mundo para escapar de ter a carteira cassada, o carro apreendido etc. Sem falar, claro, nos que se foderam de verde e amarelo porque foram ganhos dirigindo depois de terem bebido.

Mais um assunto inevitável para nossa geração atualmente, caros amigos, é outro “tema do dia” em Brasília: os concursos públicos. Ah, sim. Todo mundo que está numa profissão que não paga exatamente uma fortuna, depois de uns cinco ou dez anos de atuação no mercado privado, acaba enchendo o saco de levar cacetada, trabalhar como um corno e ganhar pouco. E percebe que o tal concurso público, antes visto como uma prisão, hoje é sinônimo de liberdade para fazer o que gosta, traçar planos, bolar viagens, casar, ter filhos, fazer um curso fora, enfim, pensar no futuro. Alguns mais angustiados vão falar horas a fio sobre o tema, de como estão no cadastro de reserva de tal lugar, de como estão por aguardar o recurso, dos fóruns em que entram para saber a posição de todos que fizeram o exame, das provas que estão esperando, blá blá blá. E todo mundo vai contar do dia em que desistiu de trabalhar na iniciativa privada e decidiu “prestar” (como se diz em Sampa) concurso.

Então, se você sofre com a timidez, se tem dificuldade em iniciar algum assunto, se a conversa não tá engrenando de jeito nenhum, experimente lançar mão de um desses temas. Não são os assuntos, digamos, mais animadores de se debater, mas, certamente, todo mundo vai ter algo a dizer. Pode reparar. Sem papo furado.