Palavras do pai
Estevam cresceu com as palavras do pai na cabeça. Aos 44 anos, fazia parte do caráter dele o conselho de que em mulher não se bate. “Meu filho, haja o que houver, jamais levante a mão para uma mulher. Jamais, você está ouvindo?”, dizia o velho comunista. O filho havia decorado aquela frase como um católico devoto tem na cabeça cada salmo da Bíblia. Repetiu-a quase a vida inteira, como se quisesse agradar o pai em pelo menos alguma coisa.
Naquela noite, no entanto, a promessa havia sido quebrada. Sentado sozinho em uma mesa de bar, Estevam olhava com indiferença os respingos de sangue a manchar os dedos da mão direita. Tinha batido na namorada. Jussara, o nome dela. Acertou-lhe a boca com o punho fechado e viu a moça cair ao chão como fruta madura. Não ficou para ver o estrago. Deixou o apartamento dela e saiu a caminhar pelas ruas até encontrar o primeiro boteco aberto.
A depressão obrigava Estevam a manter a imagem do pai na memória. Parecia que o filho da puta barbudo estava ali, dividindo a mesma mesa com ele. Sentia, no fundo do coração, o olhar de reprovação dele. Tinha a ideia exata do que o velho falaria depois que soubesse da discussão com Jussara e dos detalhes da briga. Não saberia o que responder ao pai. Pedir desculpas? Não, não mesmo. Não cabia desculpas à porrada no rosto da mulher, pelo menos disso tinha certeza. Sentiu-se um imbecil.
Para Estevam, os ensinamentos do pai eram sagrados. Pelo menos o tinham sido até o ponto da vida em que se encontrava. Tentou justificar o erro com possíveis falhas do velho comuna. Mas sabia que ele jamais levantara a mão para uma mulher. Estevam fez um ligeiro esforço para lembrar daquelas que vieram depois de a mãe sair de casa. Todas o amaram e o respeitaram. As únicas reclamações que recordava passavam pelo jeito irremediavelmente mulherengo dele. Nada além.
Estevam reagiu aos pensamentos com um soco na mesa, gesto que chamou a atenção do garçom e dos últimos clientes da noite. Levantou-se para dar uma mijada. Ao voltar, reparou ao longe uma mulher no lugar onde ele estava há alguns minutos. Jussara, sem dúvida. Estevam mordeu os lábios, ajeitou os cabelos, se atrapalhou com as mãos e seguiu ao encontro da namorada. Sentou-se mudo diante dela. Mas soltou um suspiro de vergonha ao reparar no corte na lateral da boca de Jussara. Sentiu pena.
- Me desculpe – adiantou-se ela.
- Jussara, você não tem de pedir desculpas.
- A culpa foi minha, meu amor.
- Eu sei. Mas mesmo assim não deveria pedir desculpas. Eu te bati. E isso é imperdoável – lamentou Estevam, enquanto acendia um Carlton.
- Você tinha parado de fumar...
- Eu sei.
- Estevam, meu amor, vamos para casa. Vem comigo, por favor – pediu a moça, com uma lágrima a se formar no canto do olho.
- Não posso. Se você me perdoar, eu vou fazer de novo. Não pode ser assim. Meu pai... Foda-se ele, deixa pra lá – censurou-se, com o olhar cabisbaixo.
- Estevam... Estevam, olha para mim, por favor. Isso não vai acontecer de novo porque eu te amo e você me ama. Quero que a gente fique junto. Nunca mais vou ficar com outro homem que não seja você. Eu prometo.
- Você... Eu não aguento mais, sabe? Não tenho culhão para esse tipo de vida que você leva. Não dá mais, entende?
- Eu também não aguento mais. Vou largar essa vida por você. Agora, vem comigo, vem.
Estevam se levantou da mesa como se erguesse toneladas de peso nas costas. Teve de usar os dois braços como alavancas para ficar em pé mais uma vez. Sentia-se derrotado e sem forças. Passou o braço por trás da cintura de Jussara e caminhou lado a lado com ela até a porta da rua. Ao passarem pela fachada, Estevam se assustou com um estampido e estranhou uma queimação na altura do peito. Olhou para baixo e viu sangue. Sangue dele. Virou-se apavorado para Jussara, em busca de respostas. E encontrou uma arma fumegante na mão dela.
- Isso é para você aprender a não bater em uma mulher, seu canalha de merda!
Estevam ali caiu e ali ficou, com o pai diante dos olhos e as palavras dele a latejar nos últimos instantes de vida.













