terça-feira, 31 de março de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
É foda, mas...
Nunca fui superfã de sitcoms, aquelas comédias de situação ou novelinhas que, se fazem sucesso, logo ganham uma, duas, três, dez temporadas. De uns tempos para cá, no entanto, algumas delas têm tomado horinhas preciosas na rotina familiar. Algo estranho para um cara que é do tempo da Sessão Comédia, da TV Globo. Super-Vicky, Primo Cruzado e Caras e Caretas rolavam todas as tardes, cada uma no seu dia - o mais aguardado era a sexta-feira, quando ia ao ar mais um episódio inédito da robozinha de vestido de boneca.
Pois então, essas séries eram legais e tal, mas não passavam disso. Jamais foram imperdíveis ou geraram obsessões e neuras. Longe disso. Anos adiante, Friends, Frasier e That´s 70’s Show ainda tomaram um pouco de tempo em épocas de fim de segundo grau e de início de faculdade. Mesmo assim - e mais uma vez -, nada demais. Rendiam no máximo boas risadas, mas nada que pudesse desequilibrar os instintos do ser humano.
A primeira vez em que se acusou o golpe veio em uma série acompanhada somente em reprises. Sim, Seinfeld. Sorte que a estreia na paixão à primeira vista por uma sitcom surgiu em época em que as caixas e mais caixas de DVD ainda não existiam. Pelo menos pelas bandas de cá. Assim, acompanhava as loucuras de Jerry, George, Elaine e Kramer na Sony quando lembrava ou quando dava. Ótimo. Melhor desse jeito: economia em tempos de dureza completa.
De uns anos para cá, porém, a coisa mudou de figura. Felizmente, escapei do fenômeno Lost – tenho amigos que loucamente se reúnem semanalmente para acompanhar cada capítulo novo da série mais chata dos últimos tempos –, mas não resisti ao brasileiríssimo Os Normais. Ok, as loucuras de Rui e Vani são lá do início dos anos 2000, mas só comecei a gostar PRÁ CARALHO depois que começaram as reprises no Multishow. Dava tantas gargalhadas em casa que ganhei de presente todas as temporadas. Sensacional.
A primeira compra, no entanto, gerou outras. E o House e sua trupe tomou conta do lar. Esse, sim, tem pr
ovocado alguns estragos no orçamento. As caixas da primeira, segunda e terceira temporadas foram adquiridas a preços ainda promocionais. Enquanto assistimos aos episódios mais antigos, acompanhamos a 5ª temporada na TV a cabo. A quarta foi lançada em DVD, mas R$ 129 não rolam. Vai ter de esperar. Ou não...
Prevendo pressões sobre o cartão de crédito, decidi, mais uma vez sob a batuta do papel de macho alfa da residência, baixar uma ordem em casa. Mesmo que a série seja ducaralho, como são os casos de Law & Order e CSI, não há chance de ser vista - a exceção fica por conta de Two and a Half Men. Simples assim. A determinação ajuda a evitar obsessões, gastos desnecessários e perdas de tempo. É foda, mas...
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Guilherme Zé Gotinha
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10:22 PM
terça-feira, 24 de março de 2009
"Roger" na balada em BH
Marcão era a cara do Roger, à época jogador do Fluminense. Uma explicação rápida às mulheres: Roger é aquele jogador de futebol que namorou a Adriane Galisteu e depois ainda pegou a Deborah Secco.
Certa feita, um brother de Marcão chamado Nando, um dos caras mais criativos da galera, bolou um plano infalível. Um grupo de amigos viajaria para Belo Horizonte. Os oito machos passariam o fim de semana curtindo as baladas da capital mineira. Seria a ocasião perfeita para colocar o estratagema em prática.
Ao chegarem a Minas Gerais, Nando telefonou para a boate mais famosa de BH. Assim se deram as tratativas:
Nando: “Boa tarde, eu gostaria de falar com o gerente.”
Gerente: “Sou eu mesmo, senhor. Meu nome é Castro. Em que posso ajudá-lo?”
Nando: “Aqui é da assessoria do jogador Roger, do Fluminense. Meu nome é Fernando. Ele está de passagem pela cidade e gostaríamos de reservar o camarote da boate para hoje à noite.”
Gerente: “Claro, senhor Fernando. Será um prazer. Para quantas pessoas?”
Nando: “São sete amigos, além do Roger. Eu gostaria que o senhor reservasse, já sobre as mesas do camarote, duas garrafas de Absolut e quatro de Veuve Clicquot, por favor.”
Gerente: “Claro. Já estará em cima das mesas a partir das 21h30. O senhor quer mais alguma coisa?”
Nando: “Sim. Gostaria que dois seguranças da boate acompanhassem o grupo e ficassem por perto durante a noite. As pessoas bebem e costumam ficar inconvenientes.”
Gerente: “Lógico. Nem precisava falar. Deslocarei nossos dois melhores homens para fazer a segurança do grupo.”
Nando: “Ótimo. A boate enche muito hoje? Quero evitar filas e tumultos?”
Gerente: “A casa é bem cheia hoje. Mas os senhores poderão entrar pela porta do escritório da boate. Basta pedir ao motorista ou ao taxista para deixá-los na parte de trás da boate. Um rapaz chamado Edivaldo estará lá para esperar os senhores a partir das 21h30, ok?”
Nando: “Ok. Chegaremos por volta das 22h30. Obrigado, Castro. Até mais.”
Gerente: “Nós que agradecemos.”
Nando estava animadíssimo. O plano dera certo. Saiu correndo, encontrou os amigos no restaurante ao lado do hotel e deu a notícia. “Marcão, hoje será seu dia de Roger!” Ninguém sabia o que Nando planejava. O gatuno, então, contou toda a história. Os oito comparsas ficaram exultantes com a notícia.
Passaram o dia imaginando como seria aquela aventura. Marcão não levaria qualquer documento para o estabelecimento para não ter o perigo de ser desmascarado. Se algum atendente lhe pedisse a identidade, o grupo iria para o estilo “Você não sabe com quem está falando?”.
Mas nada disso seria necessário. Ao chegarem à boate, não só Edivaldo como o próprio Castro estavam na porta do escritório para recepcioná-los. Os dois, de imediato, reconheceram Marcão. “Roger, é um prazer recebê-lo. Antes de entrar, no entanto, gostaria de lhe pedir um autógrafo. Meu filho é tricolor!”, disse Castro, ao tirar de uma pasta executiva uma camisa do Fluminense. Como Marcão não era bobo nem nada, já havia treinado um autógrafo.
Entraram na boate e dois seguranças os esperavam. Foram direto para o camarote, onde as bebidas já estavam geladas a esperá-los. A casa já estava cheia. “Roger” e os amigos começaram os trabalhos abrindo a vodca e enchendo os copos. A essa altura do campeonato, a mulherada já estava em polvorosa.
Só os VIPs estavam no camarote. “Roger” e os amigos já conversavam com a maior galera. Os homens cumprimentavam, diziam que ele era craque e deveria jogar no Cruzeiro ou no Atlético (tecla SAP para as mulheres: em Minas, os dois grandes times de futebol se chama Cruzeiro e Atlético. O Cruzeiro joga de azul. O Atlético joga de listradinho preto e branco). As mulheres olhavam de longe, sorriam. As horas foram passando e o assédio ficou alucinado. Marcão já estava pegando uma das mulheres mais gatas da boate quando uma segunda chegou em seu ouvido e sussurrou: “Se você for levar essa mulher com você para o hotel, eu quero ir junto”. Marcão sorriu. Virou-se e beijou a segunda gata. A primeira nem ligou. O rapaz passou o resto da noite se atracando com as duas.
Logicamente, como previu Nando, sobraram gatas para todos. As duas vodcas se transformaram em cinco garrafas. As quatro champagnes já tinham se multiplicado sem que qualquer um deles conseguisse contar. Nando já tinha se pegado com uma 4 ou 5 gatinhas. Os outros brothers seguiam a mesma linha.
Eram 4h quando todos deixaram a boate mineira. Chamaram quatro taxis que levaram “Roger”, as duas gatas, e os amigos (parte deles com mulheres também) para o hotel. “Roger” havia reservado a suíte presidencial do hotel para o caso de o plano dar certo. No quarto, havia uma enorme banheira de hidromassagem, para onde levou direto as duas gostosas. Transaram loucamente até às 10h.
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Zethi
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11:04 PM
domingo, 15 de março de 2009
As 12 frases mais masculinas do cinema, ditas por mulheres
O Totalmente Sem-Noção, conhecido mundialmente como TSN, vez ou outra se lança em pesquisas aprofundadas com a intenção única e legítima de agradar a imensa horda de assíduos seguidores. Pois bem, desta vez o assunto é cinema. Em 19 de dezembro de 2005, José Thiago Vitale Jayme escreveu magistralmente sobre as 17 frases mais masculinas do cinema. Na época, 69 adoradores do blog interagiram para manifestar gozo, luxúria e excitação ao relembrarem frases que ficaram famosas no maravilhoso mundo dos longa-metragem.
12 - O filme O Nome do Jogo vale não só pela roteiro e a força dos personagens, como pelas interpretações estonteantes de John Travolta, Danny DeVito, Gene Hackman e Rene Russo. A intérprete de Karen Flores desfila sensualidade, principalmente quando deixa as pernocas de fora para usar uma camiseta larga de, se não me engano, algum tipo de futebol americano. Numa dessas, já indignada com a folga do gângster vivido pelo astro de Embalos de Sábado à Noite, solta essa: "So let me get this straight. You broke in again to apologize for breaking in yesterday. Well, make sure you lock it on your way out". Era a segunda vez que Chili Palmer invadia o adorável lar da moça.
a vem com essa, assim que recebe convite para conhecer a coleção de CDs dele: "Eu vou (na tua casa), mas não vou dar para você. Só vou dar para o cara que mudar a minha vida. E você, perdoe a sinceridade, é pobre. E ainda fuma". Não, Aparício, não!
este para comê-la em one-night stands. A mocinha recusa algumas vezes. E a conversa se torna meio agressiva. Tanto que o sujeito pergunta qual é o gosto da b* dela. Ela responde: "Like heaven". O diálogo continua masculino e o pregolino questiona se em algum momento ela falará a verdade. Ela, enfm, o massacra: "Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off. But it's better if you do." Falou, tá falado.1 - Básico Instinto inspirou gerações. A cruzada de pernas de Sharon Stone, então, confirmam a superioridade feminina. Portanto, a frase mais masculina só poderia ser da loura, que vive a escritora Catherine Tramell. No filme, dois policiais investigam o assassinato de uma estrela do rock (um tal de Johnny) e descobrem que Mrs. Stone trepou com o sujeito na noite da morte do infeliz. A dupla de investigadores vai até a casa dela e pergunta sobre o relacionamento deles. Masculinamente, ela responde: "I wasn't dating him, I was fucking him." Nada mais a acrescentar.
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Guilherme Zé Gotinha
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10:31 AM
quarta-feira, 11 de março de 2009
Haja intimidade!
Você é recém-casado. Aquela loucura total. Você e ela transam na cozinha, na área de serviço, na sala, na varanda, no carro estacionado na garagem, no quarto da Clotilde, na sala de TV, no home theater e até na cama. Paixão. Amor. Emoção. Novidades. Tudo-misturado-ao-mesmo-tempo-agora.
Empolgados, você e ela pensam uma vida em conjunto. Traçam planos, fazem contas, imaginam os filhos, cobram um do outro um pouco mais de economia no mês. Menos almoços com as amigas, menos churrascos com a galera do futebol. Um belo dia, você está acordando e sua esposa está no banheiro. Você aguarda mais uns 15 minutos até que ela sai.
Você sai correndo, pois está atrasado para ir trabalhar. O problema, amigo, é que quando você adentra o recinto banhal, sente aquele bafo quente, fétido, horroroso, com perfume de esgoto de praia em céu aberto. Sim, meu companheiro, sua esposa acaba de dar um cagadão no banheiro da suíte de casal. Se não bastasse o odor, a privada ainda está borrada com aquelas raspas de merda. Haja intimidade!
Você está face-a-face com a realidade nua e crua do casamento, da convivência, do dia-a-dia. E pensar que, quando se conheceram, você achou que aquela moça linda, cheirosa, delicada e dengosa nem sequer cagasse! E, se por ventura defecasse, sairia tudo perfumadinho e rosa.
Se tu tivesses seguido a minha teoria, talvez a realidade fosse mais condescen
dente contigo. É o que eu digo aos meus amigos e tenho a confirmação empírica de alguns recém-casados: o lance é banheiro separado! Sem essa de o macho cagar enquanto a mulher toma banho, a mulher passando pomada nas partes enquanto o cara escova os dentes, o sujeito lavando o rabicó no bidê enquanto a moça passa creme na cútis.
“Ah, mas e a cumplicidade? E a intimidade do casal?”, dizem alguns puristas. Porra nenhuma. Cumplicidade e intimidade são conquistados na cama, na hora de deitar no colo um do outro no sofá da sala para assistir um DVD, nos momentos de doença de um ou do outro, naqueles desabafos noturnos, onde se chora, se ri, se diz o que se passa na cabeça e no coração. Cumplicidade se cria quando o marido toma as dores da esposa na briga com a vizinha e ainda sai na porrada com o esposo da fulana.
Isso, sim, é cumplicidade, intimidade, vida de casal. Esse negócio de cagar na frente do outro não está com nada. Se o senhor, que acaba de voltar do banheiro ainda inebriado com o odor fétido do bolor marrom expelido pelo ânus da esposa, tivesse seguido a minha dica, jamais teria esse problema. Não haveria de ficar ali, escovando os dentes e sentindo o cheiro ácido daquela feijoada devorada no almoço. Deixe a intimidade para o sexo e a cumplicidade para as brigas de vizinho e os planos de filhos do casal.
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Zethi
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10:32 PM
segunda-feira, 9 de março de 2009
Os caçadores de mitos
Entre mentiras e verdades, exploradas de forma consciente ou não, o Totalmente Sem-Noção (TSN), o blog mais amado do Brasil, aceitou a difícil missão de derrubar - ou reforçar - algumas exposições alegóricas que se apresentam indiscrinadamente na relação carnal entre homens e mulheres. Os mitos, enfim, muitas vezes mais atrapalham do que ajudam as relações interpessoais. Mas rendem boas risadas na mesa do boteco, isso é verdade.
Mulher dá quando se sente preparada
MENTIRA. Mulher dá quando quer, mesmo que não sinta a menor atração pelo carinha ao lado. Mulher dá para se vingar, dá para tirar o atraso, dá porque as amigas deram, dá por dar. Essa história de sentir-se segura e preparada serve apenas como desculpa para se livrar de uma trepada potencialmente sem graça. Não cola nem em papo de virgem. Quem se sente preparada é pizza de muçarela minutos antes de cair no forno.
Todo homem é canalha por natureza
MENTIRA. O homem não é canalha. Só se dedica diariamente a comer o máximo de mulheres possível. Se der para traçar um exemplar de cada DNA, então, sensacional. Prima, melhor amiga, melhor amiga da amiga, colega de trabalho, desconhecida, famosa, pouco importa. Quanto mais experiências adquiridas e somadas antes do casamento, melhor. Isso, sim, é aprimoramento. E a futura mulher que agradeça.
Não existe ex-viado
VERDADE. Nada contra, mas o sujeito que dá ré no quibe, pisa no tomate, amassa o cocozinho e escorrega no quiabo vai, no máximo, virar bissexual. Basta uma vez para o carinha liberar o brioco deliberadamente para não ter mais volta. Gosta da coisa e pronto. Fato. Muitos, porém, são bastante engraçadinhos e pegam amigas que insistem em acreditar que não há perigo. Porrada neles.
Mulher (ou ex-mulher) de amigo meu é homem
MENTIRA. É tão "homem", que come até o c*, dizem por aí. O negócio é simples. Não dá para ficar dando mole com mulher. Não por fraqueza delas, não mesmo. Mas pela agressividade inconsequente da maioria dos machos. Mesmo o parceiro mais próximo não perderá a chance de pegar e comer aquela gostosa que um dia passou pela vida do amigão. Simples assim. Ou complicado assim?
Meu amor, eu mudei, juro que mudei
MENTIRA. Mudou p* nenhuma. Talvez no primeiro dia, na primeira semana ou no máximo no primeiro mês. O sujeito é nervosinho, desequilibrado, teimoso, agressivo? Vai continuar do mesmo jeito para todo o sempre. A perda da mulher talvez consiga amolecê-lo por alguns, digamos, minutos. A coisa volta logo a ser (ruim) como antes. That´s the law. Só cai nesse papinho quem quer.
Homens preferem as louras
VERDADE. Desculpem-me as morenas (obrigado, VM), mas mechas louras são fundamentais. Até mal vestidas as mulheres de cabelos amarelados ou caramelados são atraentes. Arrumadinhas, então, tiram qualquer sujeito mais sério do sério. Louras encantam, brilham e fazem de qualquer ambiente lugares mais agradáveis de se dividir. Que sejam elas as princesas. Que sejam elas as rainhas.
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Guilherme Zé Gotinha
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8:15 PM
quinta-feira, 5 de março de 2009
Fantasma por detrás dos olhos – Parte III
Um mês se passara. Mendonça, mesmo ciente das pressões vindas do poder público, estranhava a letargia do delegado Alcântara. A lentidão, claro, aparecia como prato cheio para a imprensa, que continuava com a carga de acusações sobre a suposta incompetência da polícia brasiliense. O caso era delicado, mas alguns repórteres não queriam entender esse pequeno grande pormenor. Frustração maior, porém, o investigador sentia por conta da cúpula da Polícia Civil. Diretores e delegados pica-grossa tratavam o caso internamente como resolvido. Mesmo assim, um detalhe, talvez dos mais importantes, incomodava o experiente investigador: a facilitação da fuga do homem que assassinara o jovem Daniel Schmitt.
A motivação e as circunstâncias do assassinato, essas estavam mais claras do que folha de papel. A polícia descobrira que Carlinhos e Daniel estavam atolados no crack e em poucos meses se viram endividados e, pressionados por traficantes, corriam risco de morte. Por serem filhinhos-de-alguém, ganharam uma semana para acabar com a pendência. Tinham sete dias para levantar R$ 55 mil ou teriam as cabeças esmagadas a pedradas. A busca pela pequena fortuna começou e terminou em casa. Os pais nem se deram conta do carro e das jóias que sumiram dos lares endinheirados.
Na madrugada de 12 de fevereiro, os dois se encontraram perto do Setor Comercial Sul para se livrarem da enrascada. Continuaram a empreitada em um único carro até perto do lugar do encontro, onde estacionaram em frente a um dos shoppings mais movimentados da capital federal. Daniel levava a dinheirama em uma espécie de bolsa de couro escondida na altura da cintura, por dentro da calça jeans.
De lá, seguiram a pé. Passaram por malucos, trambiqueiros, travestis e prostitutas das mais variadas cores e sabores. A cerca de 100 metros do local marcado para o encontro com a trupe dos traficantes, Daniel estranhou uma mão a apalpar freneticamente a sacola improvisada. Era Carlinhos, em plena crise de abstinência e armado com um canivete suíço vermelho-sangue.
- Que isso, Carlinhos? Te acalma! - gritou Daniel.
- Me dá essa porra desse dinheiro! Eles não passam de uns merdas, que se fodam. Não vamos pagar nada para eles. Vamos comprar mais e foda-se!
- Porra, velho, para com isso. Vamos resolver essa porcaria de uma vez. Eles vão nos matar, caralho!
- EU vou te matar se você não me der essa merda toda!
- Sai fora, Carlinhos!
Um gesto brusco de Carlinhos se seguiu às suplicas de Daniel. E a lâmina do canivete do playboy encontrou abrigo no estômago do amigo. O jovem ferido arregalou os olhos, grunhiu e tombou no asfalto sujo e fedorento do Setor Comercial Sul. Carlinhos arrebentou a alça da sacola de couro, olhou o amigo pela última vez e correu ao perceber a aproximação de uma mulher vestida de mini-saia preta e top de oncinha...
Sentado na sala da investigação do 4º Distrito Policial, Mendonça lia e relia sem parar o terceiro e último depoimento de Carlinhos. Tinha conseguido a confissão num hábil movimento que só a experiência poderia ensinar. Mas agora devora-se por dentro diante da demora do delegado Alcântara em acusar formalmente o filho do deputado alagoano. Era isso e enviar de uma vez o inquérito à Justiça. Pronto. Acabavam os ataques do desembargador aposentado (mas sem mais tanta influência assim), as manchetes provocativas e a sensação de impotência.
Por volta da meia-noite, o policial fechou a pasta rosada do inquérito 32/09 e a jogou displicentemente sobre a judiada mesa de trabalho. Mais uma vez levou as mãos à nuca e apoiou os cotovelos na mesa. Ao levantar os olhos, encontrou a figura decrépita do delegado-chefe. O titular do 4ºDP entrara na sala da investigação e se postara firme em frente ao subordinado. O delegado olhava o agente com agressividade, mas sem esconder um certo constrangimento.
- Mendonça, meu querido, chegou a hora de encerrarmos esse inquérito - disse, maneando a cabeça em direção à pasta cor-de-rosa. Antes que você fale qualquer coisa, porém, assimile bem o que vou te dizer: a puta matou o filho do desembargador.
- Mas...
- Mas é o caralho. A puta matou o filho do desembargador porque ele reagiu no momento em que ela tentou roubá-lo. Ele estava no Setor Comercial Sul porque o pneu do carro furou. Tá tudo arranjado com o pessoal da perícia. Também esqueça a história do crack. Aliás, não esqueça, não. Apenas entenda que a mulher tava tão doidona dessa porcaria que nem percebeu o que fez. Como o nome do Carlinhos não apareceu oficialmente ao longo da investigação, nem mesmo na imprensa, a coisa tá resolvida do jeito que te falei. É ordem lá de cima. Não temos mais o que fazer, nada mesmo. Estamos entendidos?
- Sim.
Doutor Alcântara, o delegado-chefe que um dia provocara admiração ao agente, deixou a sala batendo a porta. Mendonça parou um instante e repetiu o gesto de baixar a cabeça e apoiar os cotovelos sobre a mesa. Encheu os pulmões de ar e soltou um longo e revigorante suspiro. Permaneceu imóvel por mais alguns segundos, quando levantou os olhos e encontrou o celular. Ligou imediatamente para um amigo repórter, de quem fora fonte de casos de tan
ta repercussão quanto o dos playboys do Setor Comercial Sul.- Paulinho? Paulinho Ferreira? Sou eu, Mendonça, do 4º DP. Estou te mandando um fax agora. Veja aí. É uma cópia do inquérito do caso Daniel Schmitt. Faça o que quiser com essa porra. E não esqueça: não tenho nada a ver com isso.
Mendonça interrompeu a ligação sem esperar a reação do jornalista. Envergou-se na cadeira, mirando o olhar para o teto repleto de infiltrações. Aos poucos, relembrou passagens da vida como policial, da época da aprovação no concurso para policial civil e dos dias difíceis de trabalho em comunidades carentes do Distrito Federal. Também veio à memória os tiroteios frequentes e dos inúmeros tabefes que dera na casa de vagabundos de merda.
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Guilherme Zé Gotinha
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6:49 PM
terça-feira, 3 de março de 2009
Fantasma por detrás dos olhos – Parte II
- Bom dia, deputado. Meu nome é João Cláudio Mendonça, da Polícia Civil do Distrito Federal - apresentou-se o investigador mostrando o distintivo da corporação. Estes dois são meus colegas Silveira e Diniz. Gostaríamos de falar com o senhor, se não for muito incômodo, claro.
- Entrem, por favor – indicou doutor Albuquerque.
Sua excelência vivia em um apartamento que ocupava metade da cobertura do edifício. Era maior do que as casas dos três servidores públicos juntas. A sala-de-estar era igualmente ampla e escancarava uma predileção por artesanato internacional. O deputado orientou o trio de investigadores a se acomodar em um dos três sofás de estofamento bege e madeira trabalhada. Como era de se esperar, o alagoano não fazia questão de esconder a estranheza e o ultraje pelo inconveniente.
- Então, senhores, em que posso ser útil? - suspirou.
- Acho que o senhor sabe por que estamos aqui - arriscou Mendonça.
- Não, não sei. Para falar a verdade, não faço a menor idéia do porquê desta invasão.
- (...) O seu filho, Carlinhos, foi visto na cena de um crime em que a vítima é filho de um desembargador. Coincidência ou não, são amigos desde a infância. Estamos aqui porque queremos saber o que o seu filho fazia no Setor Comercial Sul às 3h50 de hoje e por que ele fugiu assim que foi visto por uma prostituta que passava pelo local do crime - cuspiu o experiente policial.
- Caro senhor...
- Mendonça.
- Caro senhor Mendonça, acho que o senhor está enganado, além de me deixar entender que a sua acusação é muito grave.
- Doutor Albuquerque, veja bem. Eu não estou acusando o seu filho de nada. Muito pelo contrário. A nossa presença aqui não passa de uma visita, digamos, inesperada. Justamente por isso gostaria de apenas conversar com o garoto.
O deputado ficou furioso, mas se conteve. Forçou o maxilar, cerrou os punhos e virou-se ao gritar o nome de uma mulher.
- Dona Madalena, faça-me um favor. Chame o Carlinhos.
- Dotô, o Carlinhos acabou de se deitar. Chegou agorinha há pouco. Ele vai brigar comigo, tenho certeza.
- AGORA - falou alto o deputado, após encher os pulmões de ar.
Os investigadores Mendonça, Diniz e Silveira e o deputado Carlos Albuquerque ruminaram 10 minutos de completo silêncio até a chegada de Carlinhos. Um rapazola alto, de aparentes 21 ou 22 anos, adentrou ao ambiente desconfiado. Vestia apenas um calção surrado de futebol. E revelava olheiras típicas de noites mal dormidas.
- Sente-se - ordenou o pai.
- Carlinhos... - Mendonça tentou começar.
- Meu filho... - cortou o patriarca. Você já sabe o que aconteceu com o seu amigo Daniel?
- Sei, pai.
O deputado parecia estar prestes a sofrer um ataque do coração. O rosto ficou avermelhado como o crepúsculo. Baixou os olhos antes de voltar o olhar furibundo ao filho. Virou-se para ele como se estivessem sozinhos em casa:
- Posso saber por que você não me falou nada? Por que foi dormir como se nada tivesse acontecido? Você tem alguma coisa a ver com isso? O que está acontecendo, meu filho? – metralhou o deputado.
- Pai, não tenho nada a ver com isso. Confie em mim. É tudo invenção dessa gente.
Doutor Albuquerque encarou o filho por alguns segundos. Cerrou parcialmente os olhos e se virou para os representantes da polícia de Brasília.
- Senhores, por favor, vão embora. Só nos falamos a partir de agora com a presença do meu advogado.
- Tenha uma bom dia, caro deputado - disse Mendonça, despedindo-se por todos.
Silveira e Diniz tentaram argumentar, mas o experiente investigador fez um sinal com a mão dando a entender que se calassem imediatamente. Sem alternativas, o acompanharam em direção à saída.
- Que porra é essa, Mendonça? Não estamos te reconhecendo - invocou-se Diniz.
- A coisa aqui é mais complicada do que parece, meu amigo. E esse merda desse deputado de merda pode nos acusar de invasão de privacidade e por tudo a perder. Juro que achei que daríamos com a cara na porta, mas até que conseguimos bastante coisa. J
á sabemos que Carlinhos está envolvido no crime e que a vaca da Valesquinha estava falando a verdade. Pelo menos em parte. Se Carlinhos não está ligado diretamente ao homicídio do melhor amigo, pelo menos sabe o que aconteceu.O velho policial tirou o celular do bolso, discou rapidamente um número de telefone fixo e pediu a sala do delegado Alcântara.
- Doutor, o Carlinhos sabe de alguma coisa. Devemos intimá-lo o mais rápido possível.
- Deixa comigo, Mendonça. Agora, por favor, me deixe atender a imprensa. A porra da história vazou. Quando eu descobrir o filho da puta...
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Guilherme Zé Gotinha
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8:45 PM
domingo, 1 de março de 2009
Fantasma por detrás dos olhos – Parte I
- Artístico ou de batismo?
- Por favor, moça. Nome completo.
- Maria Paula da Silva Alencar.
- Idade.
- 21 anos.
- Idade...
- 25.
- IDADE!
- 31.
- Endereço.
- 916 Norte. Bloco L. Apartamento 104.
- Profissão.
- Puta.
- Nome da mãe.
- Vagabunda de Marca Maior.
- Minha querida, eu vou te dar um toque: mais uma gracinha e eu te sento a mãozada na cara. Simples assim.
- Maria Aparecida da Silva.
- Nome do pai.
- Filho Duma Puta de Merda.
- (tom sereno) Olha aqui: acho que você não está entendendo a gravidade da situação. Você foi encontrada doidona de crack no Setor Comercial Sul, ao lado do corpo de um jovem da classe média alta de Brasília, morador do Lago Sul e filho de desembargador. (mais nervoso) Se já não bastasse essa merda toda, as suas mãos estavam sujas de sangue. De sangue da vítima. (alterado) Afinal, que porra é essa que tá acontecendo? – gritou o policial.
O agente José Cláudio Mendonça pertencia à velha guarda da Polícia Civil do Distrito Federal. Tinha 55 anos, sendo que 35 dedicados à profissão. Passara dois terços da carreira mergulhado na escória da civilização brasiliense, sobrevivendo como rato em delegacias barra pesada de Ceilândia, Santa Maria e Samambaia. Há dois anos, o homem barrigudo e de cabelos grisalhos fora promovido para o 4º Distrito de Polícia, na área central de Brasília. Pensara que o novo ambiente lhe daria uma folga da podridão humana. Errado. A chegada do crack à capital federal tinha transformado o centro de Brasília em lugar propício para seres rastejantes, maltrapilhos e destroçados pela pedra da morte. Crimes violentos, então, eram uma possibilidade em alta. E a volta à rotina de violência tirara, mais uma vez, o brilho do olhar daquele sujeito já sem alma. Não tinha mais tempo nem saco para brincadeirinhas de ordinárias como Valesquinha.
- Eu não sei direito, já te disse antes de entrar aqui nesta sala imunda. Eu estava passando, ouvi alguém se contorcendo de dor e estiquei o pescoço para ver o que era. Encontrei aquele moço lá com um buraco no estômago, vazando sangue com a mesma força de um cano de água estourado. Tentei ajudar, mas não deu tempo. Morreu logo em seguida. Também vi um sujeito tão bem vestido quanto ele correndo assim que eu me aproximei. Acho que eram conhecidos, sei lá. É isso. Posso ir embora agora?
- Não. Ele falou alguma coisa?
- Ele quem?
- A vítima, porra!
- Falou.
- (...)
- Bom, ele disse um nome: Carlinhos.
- Desapareça daqui.
O velho investigador sabia que aquele caso cheirava mal. Fedia à merda, essa era a verdade. Afinal, gente rica e influente envolvida em crimes violentos ganha espaço no noticiário. Local e nacional. O chefe, doutor Alcântara, também tinha percebido o tamanho do problema. Desligara o telefone indignado, assim que o experiente policial lhe contara parte da história. O titular do 4º DP chegaria em breve, furioso como gorila enjaulado.
so do jovem-riquinho-assassinado-a-facadas-a-cinco-quilômetros-da-Esplanada-dos-Ministérios. Não seria a primeira vez. Imaginou câmeras, gravadores, empurra-empurra, telefonemas insistentes de jornalistas em busca de informações que a polícia sequer tivera tempo de levantar. Entre uma e outra manchete, anteviu as pressões do governador, do juiz, do presidente... Caralho, pensou alto. Fudeu. Mendonça ainda massageava as têmporas, com os dois cotovelos apoiados sobre o tampo da mesa, no momento em que ouviu os passos pesados do delegado Claudiomir Alcântara.- Porra, Mendonça, que história é essa?
- Ainda não sei, doutor, mas a merda é grande. Filho de desembargador assassinado por filho de deputado. O que o senhor acha? Até rimou.
- Guarde os sarcasmos para você, por favor. E vá investigar essa porra direito. Nada de detalhes para a imprensa. Não te quero como fonte de ninguém. Só eu falo sobre o caso. Também anota aí: por enquanto, a única suspeita do homicídio é a vaca da Valesquinha. O nome do filhinho do deputado fica entre nós. Muito menos ouse colocá-lo no histórico da ocorrência. Boa sorte. Você vai precisar.
Publicado por
Guilherme Zé Gotinha
às
3:34 PM






