quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Como cagar em locais públicos

Cagar é uma arte. Nem todos conseguem defecar com maestria em locais distintos do doce recanto do lar. Certa vez, me deu vontade de ir ao banheiro quando terminava minha visita pelo Palácio de Versailles, na França. Não tive qualquer constrangimento. Fui ao banheiro e fiz todo o serviço que precisava ser feito. Não é qualquer um que se senta no trono em Versailles.
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Tenho um amigo, o Juliano, que tem um bloqueio e não consegue cagar em locais públicos. Não sei bem o motivo. Na época da faculdade, era muito engraçado. Quando eu saía para o intervalo e me dirigia à lanchonete, procurava Juliano entre os amigos. Quando não o encontrava, era batata. Tinha ido cagar em casa. O sujeito saía da faculdade, pegava o carro, ia até a sua residência, subia, cagava em seu banheiro e voltava. Chegava atrasado para a segunda aula, mas não tinha problema. O que importava era defecar num lugar conhecido e familiar.
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Se você não for tão radical quanto meu amigo Juliano, pode cagar com absoluta dignidade em locais públicos. Sim, porque é preciso dignidade para cagar. Sentar-se em um vaso sanitário que não tem porta, por exemplo, é inaceitável.
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Algumas dicas são fundamentais para manter a dignidade em locais públicos. A primeira e mais importante informação é a seguinte: jamais, em hipótese alguma, cague no andar térreo de locais públicos. No térreo, o movimento é absolutamente superior aos dos outros andares. As pessoas que estão no recinto, de passagem, costumam parar no banheiro do térreo na saída ou na entrada. O ideal é procurar um andar menos movimentado.
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Se a empresa tem um presidente, certamente ele está instalado em um andar isolado, acompanhado de no máximo mais dois ou três vice-presidentes. E cada um desses tubarões têm um banheiro privativo na empresa. Logo, o lavatório público desse andar será usado apenas pelos poucos visitantes da cúpula da empresa. O mesmo serve para órgãos públicos. Basta ir ao andar de ministros, secretários ou seja lá qual for o mandatário daquela repartição.
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Outra boa forma de escolher um banheiro é apostando naquele meio escondido, ainda que fique no andar movimentado. Se o lavabo fica à frente de um elevador, meu amigo, esqueça. É mijo na tampa, no chão, no papel higiênico. É pia sem papel, é sabão escorrendo por todo lado. Esqueça. Procure aquele banheirinho menor, acanhado, menos conhecido. De repente, do lado da copa, naquela curva no final do corredor. Esse ninguém conhece direito, só o pessoal que trabalha ali do lado. Se o prédio tiver uma biblioteca, ótimo. Brasileiro é tudo iletrado. Ninguém vai às bibliotecas. O banheiro delas é sempre impecável.
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Uma vez escolhido o banheiro, é hora de preparar a privada para o cagadão que vem a seguir (se houver tempo para preparar qualquer coisa, né...). Meu amigo Guilherme (que não é o Gotinha), grande cagador público, me ensinou sua técnica: "Primeiro, dê uma boa descarga. Depois, olhe a tampa da privada. Veja se há respingos de xixis alheios. Em seguida, pegue dois papéis daqueles para lavar as mãos, cuspa no ‘sentador’ da privada e limpe bem. O cuspe é um detergente natural. A privada fica brilhando. Depois disso é só se sentar e curtir o momento...", ensina.
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Se você é uma pessoa extremamente neurótica com limpeza, ainda tem a básica teoria do papel. Depois de cumprir as determinações de Guilherme, forre o vaso com papel higiênico. Trata-se de uma prática abominável do ponto de vista ambiental, já que o desperdício se multiplica. Mas, às vezes, não há saída. É preciso proteger sua saúde contra banheiros horripilantes.
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Uma outra dica importante vem do Malucelli, um ex-professor meu da época do cursinho. Ele sempre falava que a pior coisa de se cagar em banheiro público era o respingo do mergulho da bosta. Ele tem toda razão. Sobretudo se o banheiro for público. A dica de Malucelli era colocar uma folhinha de papel dentro do vazo. Uma, apenas. Essa lâmina de papel já é suficiente para impedir que o contato da merda com a água faça subir tantos respingos. Qual é a explicação? Quando a bosta cai, a folhinha de papel "abraça" a dita cuja, reduzindo o impacto e dando suavidade ao mergulho. Coisa de profissional!
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Para se cagar com dignidade, é preciso também de privacidade. Além das portas com trancas, é necessário tomar cuidados para que seus colegas de trabalho não saibam que você está ali no trono. Sim, meu amigo, porque se você entra no cubículo da privada e tranca a porta com um colega sacana dentro do banheiro, fique certo de uma coisa: o babaca vai sacaneá-lo antes mesmo de você voltar para a sua sala, pelas costas. E quando você chegar à sua mesa, a sacanagem será geral.
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O grande lance é o seguinte: entre e saia do vaso sanitário apenas quando o banheiro estiver vazio. Jamais o faça com outros presentes ao recinto. Se o cara for mesmo um babaca, vai lhe dar um apelido desagradável. Sua imagem será arranhada e aquela gostosa do trabalho que você quer pegar vai ficar meio "assim" de sair com você. Afinal de contas, quem quer sair com um sujeito que é chamado pelos colegas de "o cagão"?
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Claro que isso não é um impeditivo para ninguém pegar ninguém, mas vai dizer que uma "marca" como essa não tira qualquer um do sério? O melhor, então, é aguardar o banheiro esvaziar. Se você entrou no banheiro e aquele colega de trabalho babaca está presente, faça qualquer outra coisa, menos cagar. Lave a mão, lave o rosto, mije no mictório. Qualquer coisa. Logo o sujeito sairá do banheiro e você terá caminho livre. É se sentar e cagar.