O bairro da Luz Vermelha
23h20
Entrei no carro e dei partida. Engatei a ré, depois a primeira, saí do estacionamento e segui pelo Eixo Monumental. “Vou ouvir Strokes. Tô curtindo o som dos caras no momento”. Sinal vermelho em frente ao Ministério Público. O primeiro deles. Abriu, viro à esquerda.
“I said please don't slow me down If I'm going tooooooooooooo fast”. Reptila é do caralho!!!Pé na tábua. Lá vem o palácio do Buriti. O sinal tá amarelo. Vou devagar. Paro nele. Afinal de contas, amarelo não é “atenção”. É “pare” mesmo.
Cruzo o eixo monumental. “Preguiça... Tem uma porrada de quebra-mola nesse caminho aqui.”. Contorno aquele bando de estacionamento. A essa hora não tem ninguém ali. “Opa, aqui não tem sinal. Dá para acelerar”. Que nada. Cheio de lombada e faixa de pedestre. O sinal, a uns 400 metros de distância, já perto do Ginásio Nilson Nelson, tá verde. Acelera, Felipão!!! Acelera!!! 300 metros... 200 metros... 100 metros... Amarelou.
Porra!!! “O pior é que esse é o sinal mais demorado de todos. Vou ficar dois minutos pelo menos aqui”. Bem, o raciocínio é otimista: mais tempo para ouvir mais música, aos berros. “Yeah, it hurts to say, but I want you to stay. Sometiiiiiiiiiiiiimes, sometimes”. Toca a música quase inteira. E nada de o sinal abrir. Strokes é fera. Cabeça chacoalhando. Socos no volante. Opa!!! Abriu. Vamos nessa.
Legal que esse é o trecho mais “sem sinal” até eu chegar em casa”. E, às 23h27, não deve ter ninguém. Vou ser um pouco irresponsável e enfiar o pé. “Everybody sees me. But it's not that easy. Standing in the light field. (standing in the light field). Waiting for some action. (Waiting for some action). Why won't you come over here? Why won't you come over here? We've got a city to loooooooooooooove!” Yesssss!!!! Run, Forrest, run!!!! O muro do autódromo ao lado só dá idéia de mais velocidade. Breu total. E Juicebox rolando. Cornoooooliooo!!!! Fire, fire, fire, fire!!!! Som na caixa, Mané!!!
Lá longe, perto do Ceub, vejo um sinal. Ele já tá vermelho desde sempre. Deve ter 1km ainda até lá. Então posso acelerar que ele vai estar aberto quando eu chegar lá. Será o Benedito? Doce ilusão. Juicebox na veia. “Cold, you're so cold, You're so cold, you're so cooold... No, no, no,”. Droga. Esse é pior trecho. Sinal fechado de novo.
Abriu. Dirigi 100 metros e.... outro sinal fechado!!!. 23h30 a essa altura. É um cruzamento, não tem ninguém vindo no outro lado. Não tem pardal. Mas eu sou muito certinho. Como aqui ainda não é São Paulo ou o Rio, dá para parar no sinal a essa hora. De vidro aberto. Sem traumas. OK, ok. Vamos lá. Abriu. Próxima parada? Mais um sinal de trânsito. Na W3 Norte.Tenho certeza que vai estar fechado para mim de novo. Eu o vejo de longe. Dessa vez, a tática é diferente. Ele tá verde, mas se eu for devagarzinho, vai amarelar, ficar vermelho e quando eu chegar lá, já vai estar abrindo de novo. Massa!!! Vai dar certo. Essa é a estratégia. Bem devagar. “I didn't take no shortcuts”. É, “barely legal”. Ficou vermelho. E eu ainda estou um pouco longe. Vai abrir. Dessa vez, vai dar certo. Vai abrir, tenho certeza que desse eu vou escapar. Carro em ponto morto. Faltam 20 metros. Sinal vermelho. 5km/h. O pedestre tá mais rápido que eu. 10 metros. 5 metros. “abre, caralho!!! Porra!!!! Buceta!!!”. Fui até o fim, até o último instante. Mas não deu. Pisei no freio. Na mesma hora, veio a luz verde.
OK, ok, ok... Vamos lá. Embreagem, primeira marcha, ponto morto e rumo à W3 norte. Virando à esquerda. E, o que vêm à frente, às 23h34? Sim, a maldita luz vermelha. Em outro cruzamento, perto do McDonalds. Mas que diabos... Abraça o capeta. Strokes no talo. “Was an honest man. Asked me for the phone. Tried to take control. Oh, I don't see it that way. I don't see it that way”. É, “it´s hard to explain. I just can´t remember”. Muita calma nessa hora. De longe, já vejo não um, mas dois sinais. Enquanto eu estou ali, na luz vermelha, os outros dois estão verdes. Mas a Lei de Murphy me faz ter uma resignação fatal: não importa o que eu faça, os dois outros sinais estarão fechados para mim. Não tem jeito. Ou tem? Genial. Tive uma idéia. Sacação. Vamos lá. Tem um sinal na altura da 507 / 508 que é só de pedestre. Não tem nada. Nem cruzamento. Nem entrada ou saída de carros. Nem ninguém atravessando. Nem flash. Nem pardal. Nem câmera. E todo mundo fura o dito cujo no maior bagaço. Eu vou furar essa porra. Está decidido. São 23h37. Ninguém vai ver. 60, 70, 80 km/h. “Hahahahaha!!! Vou me vingar. Sinal maldito!!! Te fode!!!”. Ele está perto, fechado, e eu não to nem aí. Hahahahaha... Serei um transgressor, pelo menos por um segundo. Foda-se tudo. Já estou sorrindo, de orelha a orelha... É agora. 5, 4, 3, 2, 1... e... Não acredito. O sinal abriu.
Merda. Inacreditável. Inconcebível. O sinal abriu. Nem furar o maldito eu consegui. “I caaaaaan´t winnnnn”. Strokes que serve de consolo. Ainda ressaqueado pela tentativa frustrada de virar um malfeitor, me deparo com o penúltimo martírio. Na esquina da 508 norte. O sinal perto do Pão-de-Açúcar. Droga. O olhar fixo naquela luz maldita. Tentando entender porque eu levei uma goleada de 8 x 0 dos semáforos candangos em um minúsculo trecho de 8km entre o meu trabalho e a minha casa. “The light is red, The camera's on.”. What a hell!!!! Lentamente, destruído emocionalmente não fosse o som rolando no ipod, me aproximo de casa. Não sem antes, na entrequadra da 308 e 309 norte, perto do Schloss, me deparar, a essa altura da noite, com um sinal de pedestre... fechado!!! Pronto. A última música eu mesmo vou escolher. Nada de Shuffle. “I wanna be forgottennnnnnnnnnn, and I doooon´t wanna be remindedddddd”.


