domingo, 29 de abril de 2007

Apaixonado por Albocresil


Odeio aftas. Não há nada mais insuportável do que uma afta naquele lugar estratégio da mordida da carne ou da bebida de um suco cítrico. Você toma o suco e sente aquela dor cortante por causa da merda da afta na sua boca.

Dia desses, revoltado com uma afta, falei a um amigo: "Fico puto com essa viadagem de hoje em dia. No tempo dos nossos pais, a gente ia na farmácia, comprava um ácido masculiníssimo e mandava brasa na porra da afta. O cara morria de dor mas a afta morria junto". Eis que meu amigo vira-se pra mim e diz: "Mas ainda existe um ácido! Você só precisa ir à farmácia e pedir". Fiquei boquiaberto. Um fio de esperança se descortinava no horizonte.
Me dirigi à farmácia. Estava decidido. "Se não tem pra afta, me dá ácido sulfúrico mesmo", seria minha resposta se o farmacêutico desmentisse meu amigo. Estava indignado. Olho de tigre. Pata de urso. Era eu e a afta. A afta e eu. O momento final estava a chegar. A ressurreição contra aquelas dores lastimáveis. Lembrei-me imediatamente de Star Wars. Veio à minha mente a imagem de Darth Vader sem braço, xingando o inimigo masculinamente. Rocky Balboa também povoou minhas idéias. Horroroso, de boca torta, sangrando, chamando a Andrian e feliz!

Desço do carro. Aciono o alarme. Olho para o farmacêutico, que vê minha fisionomia e percebe que não estou para brincadeiras (ou para "brinquedo", como diz o Galvão). Coloco a mão no balcão e dou logo o recado: "Companheiro, quero um remédio pra afta".

Sem que eu terminasse a frase ele foi logo pegando um desses remédios vagabundos e viadinhos sempre oferecidos. Bicarbonato de sódio e coisas do tipo. Antes que ele alcançasse a lantejoula, prossegui. "Mas não quero essas merdas viadas indolores. Quero um ácido masculino, que queime." Percebi que o farmacêutico era dos meus quando deu um sorriso e respondeu: "Você quer, então, o que eu uso pra afta. Mas dói pra burro." No que eu respondi: "Foda-se. Me passa aí".
Imediatamente ele me apresenta o Albocresil. Olhei para o remédio e disparei: "Essa merda é ácida mesmo? Se tiver que queimar a boca toda, foda-se. Quero matar essa maldita afta". Ele me garantiu que resolveria o problema.
Corri pra casa. Nem tirei o sapatos (automaticamente, ao chegar em casa, eu arranco o sapato). Fui ao banheiro. Abri o remédio. Peguei um cotonete e mergulhei no ácido-salvador-da-pátria. Parei solenemente e liguei a luz. Dei a importância devia àquele momento. Dobrei meu lábio e encarei a mardita. "Vai se foder, vagabunda."

Tirei o cotonete imbuído de Albocresil e fui direto nela. Pressionei alguns segundos. Doeu. Meu olho sentiu a lágrima (que não chegou a escorrer porque também não doeu tanto assim). Um minuto depois, tirei o cotonete e vi a afta branca. Agonizava, a féla. Troquei o cotonete. Eu não queria só matá-la. Eu queria defenestrá-la. Nova investida e ela simplesmente não se pronunciou mais.
É inacreditável. A afta estava ali. Branca. E eu não sentia absolutamente nada. Quer dizer, eu sentia algo no meu lábio inferior interno, mas nenhuma dor. Zero. Passados dois dias, não havia nenhum registro de algum dia houve uma afta naquele local. Criei uma comunidade no Orkut chamada "Eu amo Albocresil".