quarta-feira, 28 de julho de 2010

It´s the end of the world of the world as we know it (and we feel fine)


Assim como acontece com grandes bandas, artistas e todo o tipo de gente que desenvolve, em maior ou menor grau, alguma atividade relacionada ao processo criativo, este blog chegou a um ponto de inflexão.

Após cinco anos escrevendo dois ou três textos por semana, muitos dos quais nos orgulhamos imensamente, deparamos com a inevitável barreira do ócio criativo. A necessidade de nos reinventarmos a cada texto publicado aqui sempre foi encarada por nós como um desafio alegre e estimulante para descrevermos em letras, muitas vezes cheias de emoção, ironia, sarcasmo, agressão ou deboche, um ponto de vista, uma reclamação, uma maluquice ou uma história que vivemos ou simplesmente uma grande invenção que, de tão detalhada, acabava virando verdade para muitos de vocês.

Mas chegamos a um momento em que uma pausa se faz necessária. Não queremos fechar o blog, até pelo carinho e afeto que temos com o site, com o nosso domínio recém-adquirido e, principalmente, com todos vocês, leitores cada vez mais anônimos (notamos que, infelizmente o número de comentários é cada vez mais reduzido, ainda que o fluxo de acesso se mantenha alto), mas fiéis e que, podem ter certeza, são a alma do site. Muito mais do que os nossos próprios textos ou qualquer coisa que tenhamos dito por aqui.

Nestes cinco anos de legado (sim, para nós, é um legado), fizemos muitos amigos leitores. Alguns bons inimigos leitores. Agüentamos comentários chatos, apagamos os mal criados, nos deliciamos com os divertidos, nos emocionamos com algumas declarações de que o blog – vejam só! – foi importante para esta ou aquela pessoa.

Estamos entrando numa espécie de hiato, em que oficializamos uma desobrigação (que sempre pautou este site ao longo de cinco anos) de publicarmos dois ou três textos por semana. Não quer dizer que iremos fechar o site. Pode ser que voltemos com tudo daqui a seis meses. Ou daqui a cinco anos. Ou nunca mais. Não dá para saber. Mas não é justo deixarmos nossos milhares de leitores na mão por tanto tempo sem darmos nenhuma justificativa. E, não, não brigamos, não discutimos, não deixamos de ser amigos. Nada disso. Estamos mais amigos do que nunca. É apenas um hiato.

Cada um de nós está com a vida cheia de outros projetos. Sejam pessoais ou profissionais. Mas somos jornalistas. Somos viciados em ler, escrever, pensar, debater, conversar. Está em nossas veias. Por enquanto, porém, uma pausa por aqui se faz necessária.

Talvez voltemos a qualquer hora.

Desde já, fica um imenso agradecimento, um carinho enorme e um abraço emocionado em cada um de vocês que sempre passou por aqui ao longo desses anos. A companhia de cada um de nossos leitores deixará saudade. O blog não é apenas um hobby. Durante cinco anos, foi parte importante da vida de todos nós.

Até mais.

Felipe, Thiago e Guilherme

P S: Felipe manda avisar que não é pegadinha de primeiro de abril. Podem acreditar no texto do começo ao fim.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Estádio Ellis Park: O Brasil já está preparado para sediar a copa

O Brasil já está preparado para sediar a Copa de 2014. Sério. Não precisa fazer nada. O Ellis Park, onde eu fui assistir a Brasil x Coréia do Norte, na última terça-feira, está recauchutado, mas em muitos pontos é pior até mesmo do que o nosso simpático Estádio Mané Garrincha, aí em Brasília.

O acesso ao estádio é tosco que nem no Morumbi ou no Mineirão. Nada de metrô ou ônibus fácil. Porra nenhuma. Tem que chegar perto e ir andando mesmo. Beleza, faz parte. O pior mesmo é lá dentro.

Para começar, o espaço entre os assentos é ridículo. Se isso é uma norma da FIFA, então beleza. Até aqueles númerozinhos que o GDF colocou aí pro jogo da Eliminatória de 2006 contra o Chi chi chi le le le tinham maior largura do que a cadeira onde você fica sentado. O acesso às caderias é outro martírio: todo mundo espremido e uma rampa igualzinha à do Mané.

Outra merda é o banheiro. Nos dois que eu fui, tinha três privadas e nenhum mictório. Fui mijar e levei 25 minutos na fila. Como malandragem sul-africana concorre com a brasileira fácil, vi a galera arrancando o cartaz que indicava que o banheiro feminino era feminino e invadiu o espaço destinado às moças. Tudo bem, se for ver, acho que 5% das pessoas no estádio, nesse dia, eram mulheres. Nem devem ter dado falta.

Fui comprar uma cerva em temperatura ambiente (na hora do jogo estava fazendo dois graus negativos aqui em Joburg) no intervalo e levei simplesmente trinta minutos. Perdi de 10 a 15 minutos do segundo tempo. Não devo ter perdido muita coisa, é verdade.

Ah, quando começou o jogo, ainda tinha vários assentos livres. “Há, a FIFA não conseguiu vender todos os ingressos”, diria rapidamente um incauto. Conversa. Vendeu sim. O que rolou é que faltou luz poucos minutos antes de começar a pelada. E aí as catracas eletrônicas não conseguiram registrar o ingresso. Isso foi resolvido rapidamente e logo as 54 mil pessoas que tinham que estar ali chegaram aos seus lugares.

A falta de luz ainda provocou cenas engraçadas, como um dos telões sendo resetado com aquela famosa tela azul de pau da Microsoft, com o inicio do Windows. Em seguida o telão foi desligado e metade dos holofotes de um lado do estádio ficaram apagados até o fim do jogo. Nada que comprometesse a iluminação, mas, sem dúvidas, algo tosco.

Dito tudo isso, ver um jogo ali foi bem divertido, apesar do frio desgraçado. Os sulafricanos são interativos demais e a felicidade é visível em todos os cantos. A copa é uma grande festa e a vuvuzela (principalmente as que trouxemos, que você não precisa soprar) são um mecanismo de integração absurdo. Pena que para os locais o chop acabou mais cedo, como diria um amigo meu.

Mas isso é tema para um outro post – tambem fui ver Africa do Sul x Uruguai.

Sobre o jogo, algumas consideracoes:

* Importante agora e vencer. O time vai melhorando com o andar dos jogos, tenho certeza.

* Robinho muito bem. Maicon idem.

* Luis Fabiano jogou mal demais. Kaka foi ridiculo.

* Daniel Alves tem lugar nesse time.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Vuvuzelas que quebram protocolos


Demorou, mas pegou com força. O povo sul-africano respira copa do mundo, só fala nisso o tempo todo. Adora qualquer oportunidade de falar no assunto e, sobretudo, de interagir com os torcedores de outros países, que não param de desembarcar na África.
Esse é o cenário que eu e meus comparsas vimos ontem no aeroporto, nas ruas, nos shoppings e em todos os lugares pelos quais passamos em Joanesburgo. Logo ao desembarcar, dei de cara com um grupo de torcedores do Chile, que se exibiam com monociclo no saguão do aeroporto. Não demorou muito para aparecerem vários camaroneses soprando suas vuvuzelas.
Aliás, as irritantes cornetas são um vício em todos os lugares. E, ao contrário do que se possa imaginar, os sul-africanos ficam impressionados e adoram rir e ver as pessoas tomando sustos quando aquele instrumentozinho chato é assoprado. No aeroporto, o clima é totalmente sem-noção: seguranás, aos nos virem com a corneta, se aproximavam e pediam para soprar também. O pessoal da imigração e da alfândega faziam piadas e comentários sobre a copa.
Mais tarde, ao andarmos pelas ruas do bairro de Kensington (sim, caminhamos dois quilometros aqui sem nenhum problema, ao contrario do que se alerdeia por ai), uma senhora gordinha da Suazilândia nos viu e quase implorou para soprar a vuvuzela (sem trocadilho) de um dos meus amigos. Dentro do shopping center onde fomos almoçar, o segurança, em vez de reclamar, também se aproximava e rachava de rir quando ouvia o barulho. ˜Brasil our second team. Brasil gonna win today two zero˜, diziam a maioria deles, sobre o jogo contra a Coréia do Norte.
Na pensão onde estamos hospedados, um povo do Cabo Verde, de Angola e do Zimbábue só falam em copa, ficam encantados com as ridículas perucas e ornamentos que estamos carregando para lá e para cá.
Ainda no aeroporto, dei de cara com um simpático famoso jogador de tênis, que esperava humildemente atrás de mim na fila para retirar os ingressos. Discreto, tive de olhar duas vezes e ainda perguntei, de maneira quase idiota: ˜Ei, você é o Guga?˜. Ele riu e disse: ˜Sim, amigão. Vamos vencer hoje˜. Troquei uma rápida ideia com ele, que nem sabia qual moeda era utilizada na África do Sul e ainda pediu dicas de como se deslocar até o hotel onde ele ficaria. Depois pedi pra namorada dele tirar uma foto minha com o eterno ídolo brasileiro. Mais tarde, depois do jogo, ainda encontramos eles comendo no McDonalds, completamente incólumes. Muito gente fina o camarada.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Operação Batalha na Savana

Batalha na Savana: resumo do primeiro dia da missão. Vitória do Brasil; emoção indescritível no hino, sentimento de orgulho por ser o país mais querido - disparado - em Dubai e na África do Sul; curtição do clima de Copa do Mundo; diversão com as vuvuzelas; impacto com cultura muçulmana (em Dubai); impacto com a recepção calorosa e alegre dos sul-africanos. Incrível tudo isso.

Tô com muito pouco acesso a internet e computador. Poderei apenas mandar pequenos relatos!

Beijos.

domingo, 13 de junho de 2010

Dubai

Eu e o companheiro Theo Saad estamos um pouco (sic) bebados. Sao 3h28 em Dubai. Vimos os dois jogos de hoje no meio shopping do mundo: o Dubai Mall. Os animais fizeram uma pista de patinacao e um telao inacreditavel. Coisa de quem nada no dineheiro (apesar da crise). Inacreditavel. Nao sei o que acontece, mas minha camera nao baixa fotos no cpu. Parece que a proibicao de birita eh ampliada pra fotos no cpu.

em Joburg a gente atualiza.

Abracos

quinta-feira, 10 de junho de 2010

BREAKING NEWS: Redação do TSN se muda para a África do Sul

Sim, sei que muita gente não gosta e entra aqui esperando ler outras coisas. Mas, já dizia Galvão Bueno, “é Copa do Mundo, amigo”. Não tem o que fazer. Não tem pra onde correr. Não adianta espernear. Não adianta xingar os veículos de comunicação. Não adianta vir com papo-cabeça de que não podemos deixar o futebol encobrir o mundo real – foda-se o mundo real. Não, nada disso.

Então, meus amigos, paciência. Nos próximos dias e semanas, este espaço será abastecido com textos (e fotos, se Romário, digo, Deus quiser) enviados diretamente da África do Sul.

Afinal de contas, como disse um desses aí outro dia, “o futebol disparado é a coisa mais importante dentre as coisas que não têm nenhuma importância no mundo”. 

Sem mais para o momento.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O peido e o equilibrista

Criatura singela, o Artêmio. Trintão reservado, colega de muitos e amigo de poucos, prefere o aconchego do lar ao frenesi das ruas. Funcionário público de carreira, só ousa deixar a segurança de casa para ir ao trabalho. Não gosta de aventuras. Odeia calúnias. E rejeita qualquer situação que o deixe constrangido. Artêmio, sujeito conservador e representante fiel do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), tem 37 anos. Mas parece 57.

Mesmo diante de tantas manias e cuidados, Artêmio não conseguiria escapar de um episódio que mudaria ainda mais a relação de pavor com o mundo. O pior de dia da vida dele começa em uma longínqua manhã fria, iniciada como tantas outras. Artêmio acordou as 6h02, espreguiçou-se demoradamente, calçou os chinelos de couro legítimo, arrastou-os até o banheiro, mijou bonito, lavou o rosto e escovou os dentes. Pegou o jornal, preparou o café da manhã com ovos, salsichas e bacon. Pela primeira vez em 15 anos, acrescentou ao ritual do desjejum uma dedicada vitamina feita com abacates gentilmente cedidos por um colega de repartição. "São lá da chácara", avisou Peixoto.

Artêmio, econômico nas palavras, saiu de casa a assoviar Garota de Ipanema. Estava especialmente feliz e, assim, meio distraído, logo alcançou a parada de ônibus. A poucos minutos da chegada do transporte, no entanto, a sorte do servidor público começaria a mudar. O apontar da condução coletiva coincidiu com o primeiro sinal do que se tornaria em cinco minutos o rebolation de uma magistral caganeira. Mas a leve pontada inicial trairia o discreto Artêmio. Foi por causa dela - e só dela - que tudo deu errado depois que ele criou coragem para seguir viagem.

Até então, o devoto funcionário do poder público federal acreditava que o bostão em erupção poderia ser resolvido com um peidinho honesto e imperceptível. Isso se fosse necessário, pois o local de trabalho ficava a 25 minutos dali. Era esperar um pouco mais e largar a obra barrenta no discreto banheiro dos serviços gerais. Simples assim, pensou ele. Artêmio pagou a passagem, avançou a catraca, estufou o peito e rapidamente se dirigiu para os fundos do busão. Aconchegou-se ao lado de uma mulher assaz simpática. A moça cedeu a ele o lugar ao lado do corredor, o que obrigou Artêmio a um abafado “obrigado, senhora”.

O que ele não esperava, porém, eram as três fisgadas repentinas que se seguiram ao primeiro sinal de relaxamento social. A barriga estufou, e Artêmio só não soltou um gemido mais alto porque se encontrava entre estranhos. Sem alternativa, optou por colocar em prática o plano original. O reservado Artêmio se acomodou um pouco melhor no banco duro do veículo, apertou com as duas mãos a barra de ferro logo à frente, entrefechou os dois olhos e pediu a Deus que tornasse aquele momento imperceptível. O pobre homem talvez tenha orado baixo demais. O peidinho virou peidão ao ressoar no plástico azul, assustou a vizinha de viagem e ainda envolveu o coletivo em uma bolha fedorenta. Não havia ali nenhum ponto de equilíbrio capaz de contornar o problema.

Não bastasse a vergonha, Artêmio calculou mal a quantidade de enxofre expelido e um pedaço liquefeito de merda lhe sujou as cuecas da marca Zorba. Para uma criatura comum, tal situação seria o caos. Para o singelo Artêmio, representava o fim. O sujeito quedou paralisado. Até então, mantinha-se na mesmíssima posição desde a incauta peidorreia. A visão ficara turva, como se tudo ao redor tivesse se tornado preto e branco. Não enxergava um palmo à frente. E uma gota de suor lhe escorreu a face.

O chorume lançado ao ar, obviamente, logo gerou protestos na condução pública. Alguns passageiros exigiram a parada completa da aeronave, o que de bom grado aceitou o motorista. Em segundos, Artêmio se viu abandonado no veículo. Amaldiçoou o ovo, a salsicha, o bacon, o abacate e, principalmente, o solidário colega de escritório. Artêmio, o nobre cidadão, precisava sair dali. Não havia outra saída. Tomou fôlego, levantou-se do banco, ajeitou a roupa como se nada houvera e, com o resto da dignidade que lhe sobrara, desceu do veículo. Não olhou para os lados nem para ninguém. Seguiu com o nariz empinado ao longo da calçada, com as mãos nos bolsos e a sentir os rastros da bosta sujarem os sapatos espartanamente envernizados.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Meio milhão de visitantes

Meio milhão de visitantes únicos, 824.884 page loads, muita emoção. Brigas, elogios, cantadas, e-mails de fãs, tentativas de homicídio e suicídio, festas, glamour, debates, convites presidenciais esnobados, apelos de estrelas para escrever neste espaço recusadas. Sim, tudo isso se passou muito rápido, ao mesmo tempo, durante os últimos EXATOS 5 anos de existência do blog.

Nosso primeiro post? Dia 2 de junho de 2005, quando a formação original deste prestigioso espaço (com André no lugar de Goutas, atual e indispensável titular) postou um "olá" que mudaria a história do bloguismo mundial. A internet jamais foi a mesma. O Google saiu do ar com o lançamento do blog. O Facebook foi imaginado naquele dia - "Como conectar tantas pessoas que tentam acessar o mesmo espaço? é preciso criar uma rede", pensou-se, à época.

Falamos de política. Falamos de mulheres. Falamos de bibas. Falamos de leões. Falamos de futebol. Falamos de caganeiras. Falamos de pés irresistíveis. Falamos de assassinatos. Falamos de sangue no cemitério. Falamos de viagens. Falamos de cidades do mundo inteiro. Falamos de motéis. Falamos de traições. Falamos de corrupção. Falamos de pessoas idiotas. Falamos de amigos. Falamos do Orkut. Falamos do Facebook. Falamos até do BBB. Falamos de roquenrol. Falamos de filmes. Falamos de mãe, pai, filhos, irmãos e até de sobrinhos. Falamos de vômitos. Falamos de porres. Falamos de sexo.

Falamos, enfim, da vida. Felipe, Zé Gotinha e Zethi (e André, nos primeiros poucos meses) fizeram deste espaço uma ode à vida. Uma homenagem ao jeito masculino escrachado de ver o mundo. Com exageros, é verdade. Com idiotices, é verdade. Mas, sobretudo, com bom humor e a vontade sempre contagiante de fazer nossos leitores entretidos - ainda que irritados, foda-se.

Cinco anos de muita emoção.

Como forma de comemoração, seguem 5 textos de destaque de cada um dos 3 escritores do blog (escolhidos por eles mesmos):

Zé Gotinha:

Um bolo de merda


Um vômito, dois vômitos, três vômitos, assim*

As mulheres que dão; e as outras que voam

A Cantada Infalível – 1ª parte

A Cantada Infalível – 2ª parte

O macho alfa

Felipe:

Eu não levo a sério quem nasceu nos anos 80

Orkut: Eu não quero ter um milhão de amigos

Modelos de gestão de relacionamentos

Os repolhinhos

O bairro da Luz Vermelha

Zethi:


As 17 frases mais masculinas do cinema

Como Fazer sua Mulher Feliz com 10 Iniciativas - adote este guia

“Aqui jaz uma mulher que quase não trepou na vida”, diz mulher gostosa, 28 anos, tarada e desesperada

Serviço Surreal de Atendimento ao Consumidor

Começou Ivete, terminou Preta Gil

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Shoot To Thrill - A história antecipada de um linchamento moral

Hoje, 27 de maio de 2010, estamos a exatos 44 dias do final da Copa do Mundo. Possivelmente até antes desse tempo, estaremos diante do linchamento nacional de um sujeito hoje convicto, coerente e eficiente - e nada mais do que isso.  Mas que, conforme o resultado obtido – e julgando-se apenas por isso, para o bem ou para o mal – entrará para a história de forma desgraçada como cabeça-dura, turrão e incompetente.

Sim, o nosso Dunga sustenta suas convicções baseado nos resultados incontestáveis obtidos ao longo de quatro anos. Conquista da Copa América com um time B que goleou o time A da Argentina. Conquista da Copa das Confederações de forma aguerrida, tendo humilhado a Itália e sem ter precisado enfrentar a patética Espanha – que foi banida pelos Estados Unidos, veja só. Liderança tranqüila e folgada nas Eliminatórias, com resultados bem expressivos, como goleada histórica no Uruguai no Centenário e vitória inapelável sobre a Argentina em Rosário. Para não dizerem que só jogamos com bambalas, o Brasil também abotoou Itália, Portugal, Argentina (de novo) e Inglaterra em amistosos.

Os resultados vitoriosos, claro, serviram para esconder partidas grotescas, como os empates contra Bolívia e Colômbia em casa pelas eliminatórias, o empate contra o Equador (na melhor atuação da vida de Júlio César) em Quito e uma derrota ridícula para a Venezuela em amistosos. E, mais do que isso, serviram para firmar um monte de volantes ou meias sem habilidade no time, calcados nos resultados vitoriosos da equipe – sim, no saldo, o time do Dunga é muito mais vitorioso do que se imagina.

Eu absolvo o Dunga de boa parte das críticas. Assim como absolvia o Telê, o Felipão, o Parreira, o Zagallo, o Luxemburgo, o Carlos Alberto Silva (Lazaroni e Falcão não!!!). Porque eu sei, e isso me parece óbvio, que as reclamações ferozes, por mais bem argumentadas que possam parecer, são muito mais por uma indignação por não termos hoje condição alguma de ver um time jogar bonito e ganhar do que por realmente ver defeitos grotescos na forma de trabalho do treinador.

Vejo opiniões da crítica especializada e de amigos meus cujos pensamentos respeito muito destruírem o Dunga por motivos opostos. “Será um absurdo se o Dunga convocar o Adriano e o Kleberson”, me diziam dois amigões há alguns dias. Nesta semana, por exemplo, outro amigo mandou essa, cheio de convicção: “Achei um absurdo ele não convocar o Adriano. Ele está jogando para caralho. Não tem sentido o Dunga não levá-lo para a Copa. É um erro imperdoável”.

Reclamaram a todos os cantos que em 2006 as estrelas foram à Alemanha fora de forma, descompromissadas e nada jogaram. Um a um, todos foram sendo banidos da Seleção. Roberto Carlos e Ronaldo sequer foram convocados por Dunga. No geral, pouca gente reclama da ausência deles na lista que vai à África do Sul - apesar de que na lista de alguns cronistas para 2010 aparecia o nome deste cidadão que auta na lateral-esquerda do Corinthians. "Experiência é importante", disseram. Bah!

Ronaldinho Gaúcho? Jogou em 2006. Em 2007. Em 2008. Em 2009. E foi execrado pela crítica, que acabou também com Dunga quando este teve de convocar o já decadente ex-jogador do Barcelona para a Olimpíada de Pequim e, de novo, nada fez em campo. Bastou deixar de ser convocado (sua última partida pela Seleção foi no começo do ano passado) e fazer uma meia dúzia de gols pelo Milan – boa fase esta que, ressalte-se, durou não mais que um mês e meio – para já acharem absurdo sua não-convocação. Adriano? Nem preciso comentar, ne?

Outros supostamente talentosos que nem foram ao Mundial também são vistos por um como salvação da lavoura. “É um absurdo ele convocar o Julio Baptista e deixar o Diego de fora”, diz um amigo meu, revoltado. Outro emenda: “Diego? Só pode estar de brincadeira. Diego é jogador de clube. O Dunga tinha mesmo é que dar nova chance ao Alex que jogou no Palmeiras”. Um outro conviva condenou veementemente Dunga por não ter chamado Denílson do Arsenal. Ou ter dado poucas chances a Lucas. Mas pergunto: quem são eles no jogo do bicho?

A lista de jogadores de meio-de-campo é absolutamente sonolenta e desanimadora, concordo. Mas pergunte para a maioria das pessoas quem elas chamariam para o primeiro volante? Pode até não ganhar, mas Gilberto Silva certamente será bem votado. Desde quando a gente teve algum volante craque nas últimas copas? Emerson? O próprio Gilberto Silva? Dunga? Mauro Silva? Alemão? Elzo? Não botem a culpa no primeiro volante. Nosso problema é de criação.

Em 2006 reclamaram do oba-oba e do acesso ilimitado dos torcedores aos treinos da Seleção Brasileira na Suiça. Atribuíram o descomprometimento do time em boa parte a algazarra dos treinamentos. Os sabidões ficaram fulos da vida com as fotos dos craques na night européia, com o excesso absurdo de peso dos supostos melhores atacantes do mundo. E pediram ordem na casa.

Missão dada a Dunga é missão cumprida. E o que ele fez? Agora limitou o acesso a concentração e aos treinos. Restringiu a presença de público no ambiente onde se encontram os jogadores. E aí? Ontem li o resultado e os comentários em vários sites e jornais: Vaias. Babaca. Chato. Turrão. Antipático. Enquanto isso, Neymar e Ganso chegam bebuns três e meia da manhã na concentração do Santos, tocam uma algazarra e todo mundo acha engraçado.

Ganso aliás que, em fevereiro deste ano (já depois do último amistoso da Seleção possível antes da Copa), era absolutamente desconhecido por muita gente. "PHG? Alguém sabe quem é?". Depois de várias elucubrações, alguém lembrou: "Eita, é o Paulo Henrique Ganso, do Santos". Que deu a sorte de não ter sido convocado antes. O tivesse e talvez tivesse jogado mal numa meia dúzia de partidas (estilo Alexandre Pato) e ninguém mais falaria nada. Ou não. Poderia ter arrebentado e virado um novo Pelé.
 
Citam o nome dele (e do Neymar e até mesmo do Tolentinho Gaúcho) por carência, pelo motivo que citei láááááa no primeiro parágrafo: a vontade (legítima, ressalte-se) de termos um time jogando bonito e ganhando. Racionalmente, porém, a chance do moleque estourar na copa é muito menor do que a dele entrar e não fazer porra nenhuma. De se deslumbrar ou mesmo se queimar porque vai entrar na fogueira. Ainda assim, ressalto, seria legal levá-lo. Mas não acho condenável - muito pelo contrário - deixá-lo de fora.

Todos têm o direito de pensar diferente. De ver as coisas da maneira que melhor lhes convir. Mas o que estou dizendo é que, justamente por essa oscilação de opiniões (todas elas detratoras), não levo a sério essa destruição moral que estão fazendo e farão até o fim com o nosso simpático anão.

Voltando ao tema inicial da minha conversa – e se você chegou até aqui, agradeço pela paciência –, poderia enumerar milhares de argumentos favoráveis ao Dunga. Poderia justificar todas as atitudes dele de forma consistente. Ou até mesmo criticá-lo (ainda que, de novo, seus resultados sejam argumentos mais do que fortes para detonar críticas destrutivas ao seu trabalho). No fim das contas, toda a análise vai ser guiada exclusivamente pelo resultado que o Brasil apresentar nos próximos dias.

O caso de Dunga é mais complicado porque mesmo ganhando a Copa, tenho certeza que a petulância, cegueira e orgulho de alguns críticos os impedirão de fazer qualquer menção de reconhecimento ao trabalho do nosso capitão do tetra. Estilo rancor e ódio gratuito mesmo. Mesmo que jogue lindamente – nesse caso, o mérito terá sido dos jogadores (criticados por ele). Ele está em campo de guerra sem colete diante de uma horda de soldados raivosos munidos de metralhadoras cheias de mágoas (as ideias deles não correspondem aos fatos).

Caso perca nas quartas ou nas semis, o que acho o cenário mais provável hoje, mesmo jogando barbaridade, Dunga também será execrado. A vontade de escrotizar com ele é enorme. Alguns chegam até mesmo a derrapar e transparecer uma torcida aberta para que o time perca, exclusivamente para manter suas convicções. Se o Dunga perder na segunda fase, como já aconteceu com tanta gente, cara, eu tenho realmente pena dele. De verdade. O discurso já está pronto: “Dunga feriu a honra do futebol brasileiro que, mais do que a obrigação de vencer, tem que vencer e dar espetáculo. Ao preterir os talentos (NR: me diga que "talentos extraordinários" foram preteridos?) em favor dos seus homens disciplinados, Dunga mostrou o quão despreparado estava para enfrentar uma competição cheia de imprevistos e improvisos como a Copa”. Vai ser algo assim. Daí para baixo. Porque o moral de Carlos Caetano Bledorn Verri será ridicularizado anos a fio.

Não gosto de jogar feio. Não gosto de assistir jogo feio. Nem vou entrar nessa discussãozinha sem fim entre os losers de 1982 e os craques de 1994. Se o Brasil tiver pagando vexa, vou ficar com raiva, claro. Vou xingar o Dunga e a última geração do Felipe Mello como xinguei muito nos jogos contra a Bolívia e a Colômbia. Mas tenho a consciência tranqüila de que o cara teve todos os motivos e respaldos para chamar quem ele chamou. E para jogar do jeito que ele for jogar. Ele tem meu respeito e, sobretudo, minha torcida.

Sorte, Dunga. Você vai precisar e muita. Tanto na África do Sul como principalmente na hora da volta.

PS: Texto também pubilcado, com pequenas adaptações, em nosso outro site, sobre futebol, o "Com Bola E Tudo"

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ela pagou o preço pela indiferença

Ele era doente por futebol. Mais ainda pelo Grêmio. Mas Marlene não entendia muito a paixão do marido. Naquele dia 20 de junho de 2007, o tricolor gaúcho tinha uma missão duríssima: reverter uma vantagem do grande Boca Juniors, maior clube argentino, na final da Taça Libertadores da América. A derrota de 3x0 em Buenos Aires obrigara os brasileiros a meter quatro gols nos hermanos.

Guigo acreditava piamente na virada. Sabia da capacidade do Gremião de alma castelhana, das viradas incríveis, da torcida fanática, do Olímpico lotado... Ele esteve na primeira partida, na Bomboneira, o lendário estádio do Boca. O Grêmio seria capaz de tudo. Monotematicamente, falou durante toda a semana sobre o jogo. Marlene reclamava e Guigo não dava ouvidos. “Você só fala do Grêmio. Futebol não tem a menor importância”, disparava.

O jogo começou. Guigo, na geral, cantava loucamente. “Vou torcer pro Grêmio bebendo vinhoooooo...” Berrava. Enlouquecia com a galera. Mas, naquele dia, o Grêmio cairia como um time comum diante do grande Boca Juniors. O implacável Juan Román Riquelme (foto) acabaria com o sonho de Guigo: Boca 2x0 Grêmio. Lágrimas, lamentações, iras, aplusos orgulhosos, xingamentos sem qualquer propósito ou sentido. Desolado, Guigo ficou sentado na arquibancada do Olímpico Monumental por mais de duas horas depois do fim do jogo.

Calado, cabisbaixo, olhava o majestoso estádio, palco de tantas glórias. O Monumental havia sido incapaz de reverter a tragédia daquela noite. Era sem dúvida o pior dia da vida de Guigo. Saiu do estádio sozinho. Atordoado, não se lembraria onde havia estacionado o carro. Nem ligou pra isso. Pegou o primeiro taxi que vira pela frente e mandou levá-lo para casa. “O carro que se foda.”

Chegou em casa por volta de 3h. Marlene o aguardava na sala, com a TV ligada. Ligara no telefone do marido por diversas vezes. O receptáculo fora perdido em meio aos gritos e aos pulos da torcida gremista. Guigo nem mesmo deu bola para o sumiço do aparelho, dos contatos, das fotos. Nada mais parecia ter sentido naquela noite. Nem as derrotas para o Internacional eram tão doídas como aquela, disse o homem, ao se referir ao maior rival.

Tomou um esporro de Marlene. “Eu te liguei mil vezes! Onde você estava? Eu fiquei muito preocupada!? Não faça isso jamais! Esses estádios são muito perigosos!” Guigo disse que não merecia a bronca no dia mais triste da vida dele. Que o Grêmio era a coisa mais importante do mundo. Que estava desolado. “Deixe disso, homem. Amanhã temos de trabalhar. Vamos logo dormir!”, esbravejou a manicure.

Lágrimas escorreram novamente do rosto sofrido de Guigo. Compulsivamente, ele balbuciava reclamações sobre o jogo. “Aquele terceiro gol na Bomboneira...”, chorava, “Aquela bola no primeiro tempo do jogo de hoje...”, chorava, “Se tivessem marcado o Riquelme homem a homem...”, e chorava.

Marlene lhe deu uma sacudidela. “Deixa de ser frouxo, homem! Que babaquice! Chorar por causa de futebol! Mas onde já se viu? Tanto problema pra gente se preocupar, e você fica aí, parecendo um bebê chorão? Esqueça esse futebol! Não tem futuro, não tem a menor importância...”, berrava, na cozinha, desconstruindo a paixão maior do homem com quem dividia o mesmo teto. “Agora eu vou dormir. E você trate de se acalmar e ir dormir também”, finalizou, antes de sair resmungando. “Era só o que me faltava. Onde já se viu?

Guigo não disse uma palavra. Apenas olhava para a esposa. Raivoso. Humilhado. Viu sua maior paixão ser tratada com indiferença. Ficou ali, por dez, quinze minutos, em silêncio – como fizera nas arquibancadas do Olímpico.

Levantou-se. Foi até a gaveta sob a pia. Abriu-a com certa violência. Pegou o facão predileto da família – que havia cortado as picanhas e as maminhas do churrasco gaudério familiar por mais de três gerações – e saiu da cozinha. Pisava com firmeza no chão. Chegou ao quarto e viu o corpo da mulher ali, indefeso, dormindo.

Ouvia a respiração forte do sono profundo de Marlene. Ajoelhou-se na cama. Olhou a esposa com desprezo. Levantou as duas mãos, unidas, segurando firmemente aquele facão tradicional. E desferiu o primeiro golpe no meio dos seios da esposa, que arregalou os olhos num grito ensurdecedor. “Isso é pra você aprender a jamais desprezar o amor de um homem por seu time de futebol, sua vagabunda! Como você ousa diminuir o meu amor pelo Grêmio!?!

E desferiu mais oito golpes contra o corpo de Marlene. Só parou quando o cansaço lhe impediu de continuar. Marlene morrera na segunda facada. Todo o quarto estava ensangüentado. Vermelho como as cores do Internacional.